Propriedade da língua
Disse-vos recentemente que fui convidada para falar num congresso dedicado às artes da língua portuguesa pela Fundação Calouste Gulbenkian em Paris. A iniciativa teve um saldo muito positivo, pois pude ouvir intervenções extremamente interessantes por oradores de luxo em áreas como o teatro, o cinema ou a dança, em que sei menos e, por isso, aprendo mais (mas as da literatura também foram muito boas). Soube igualmente uma coisa curiosa nesse congresso, de que, de resto, já me podia ter dado conta: que muitas vezes, ao publicarem a obra de um autor brasileiro, os editores franceses escrevem «traduit du brésilien», e não «du portugais», como se de facto falássemos línguas diferentes cá e lá ou houvesse, pelo menos, donos diferentes da mesma língua. A este propósito contou Flora Gomes, o cineasta guineense, uma história deliciosa. Os guineenses declaram que o crioulo foi inventado na Guiné, e os cabo-verdianos afirmam que são eles os donos da língua. Ora, para evitar estes puxões para cada lado, alguém resolveu contrapor: nem num lado, nem noutro, mas numa piroga no meio do mar.
Por mim isso só revela ignorância. É como dizer que é traduzido do americano ou do belga.
ResponderEliminarSó é preciso inventar quando não se sabe.
Às vezes temos de ser suficientemente inteligentes para contornar algumas discussões, quase próximas da busca do sexo dos anjos.
ResponderEliminarÉ claro que a língua é o português, como os americanos falam inglês, ou os australianos e Sul-africanos, nigerianos... mas com os seus termos e sotaques, na verdade de todas as versões do português a mais distante do original é de facto o "brasileiro", que nem me choca ser assim chamado, se bem que sim, prove ignorância... mas afinal quem é que sabe como se chamava a moeda de Macau-português? Ou quem sabe qual a capital do Burkina-Fasso e quem foi a potência colonial da Guiné Equatorial?
ResponderEliminarNão vale a pena ficar tão ofendido assim, sabem que se chamarem francês a um bretão, arriscam levar um estalo? Por exemplo...
Dou mais atenção à história do crioulo... e na verdade sem ser especialista na matéria, creio que onde surgiu foi mesmo em Cabo Verde!
Os guinéus se calhar ignoram que "Costa da Guiné" e até a designação "Guiné" era geograficamente muito abrangente que não englobava exactamente e apenas o território da Guiné-Bissau...
Por outro lado, as ilhas de Cabo Verde eram ponto de passagem dos veleiros que faziam o Atlântico, baleeiros, piratas, vasos de guerra e mercantes... de todas as nacionalidades, logo a mistura de sangues e línguas é enorme, como de culturas me atreveria eu a acrescentar, e fez do povo cabo-verdiano um povo dito "crioulo", aparte, talvez só encontrando comunhão nas ilhas dos mares das Caraíbas, Antilhas, Santo Domingo e aí em volta, excepto pela falta de sangue de índio caraíba!
Curiosamente, o meu português foi ali entendido pelos pescadores e quase todos os habitantes, ao contrário do que sucede noutros lugares onde se fala castelhano, a começar pela própria Espanha!
Saudações portuguesas e universais cá da Cidade Morena, onde se fala... português-muangolê?
EDITORES FRANCESES = simplesmente IGNORANTES
ResponderEliminarNão estará a ser um pouco exagerado? Também não me choca assim tanto ouvir dizer/ler que a tradução é feita a partir do brasileiro; e, em parte, parece-me apoiar a pretensão dos portugueses que queriam o não para o AO. Além do mais, se aprender português no estrangeiro, muitas vezes, aprende o do Brasil. E isto sim, me parece menos bem. E mais grave.
EliminarGravíssimo, Cara e Extraordinária Beatriz - diria mesmo mais, extraordináriamente grave!!!
EliminarO que sucede com quem aprende "português" através de brasileiros (não pretendo generalizar e nem ofender os brasileiros) é que depois pura e simplesmente não entende português! E tive já a oportunidade de o confirmar através de "intérpretes" que aprenderam "português" num pseudo-instituto qualquer que opera em Miami e na Venezuela entre outros, o resultado foi que os intérpretes ali formados, para seu espanto, consternação e desgosto, constataram depois com a nossa delegação que não nos percebiam pura e simplesmente, tanto por causa da pronúncia quanto pelos termos usados, acabando nós por falar com eles em inglês ou espanhol (eram jovens cubanos, americanos e venezuelanos).
E isto para mim, sim, é mesmo grave...
Tenho aqui trabalhado com técnicos brasileiros com quem me insurjo por causa da sua mania de inventar ou usarem termos desadequados e inexistentes, por exemplo:
"Colhedeira" não existe, e sim ceifeira ou debulhadora!
"Gradeamento" é o que se coloca no muro do quintal, a operação de passar a terra com a grade de discos chama-se "gradagem" do verbo "gradar".
"Planejamento" é o plano, do verbo planear.
Endireitamento e altear não existem... diz-se aplanar ou aplainar e subir, levantar ou aumentar.
E por aí fora!
Eu digo-lhes constantemente que a sorte deles é que eu falando a língua-mãe sou capaz portanto de entender todas as variantes e as tergiversações mesmo as mais absurdas...
Saudações na nossa língua-mãe! Por enquanto...
Mas, Pacheco, se a eles lhes dá mais jeito planejar, que podemos nós fazer? Talvez sermos mais abrangentes e aceitar planear e planejar, consoante a origem do interlocutor, em vez de nos pormos a "emendar". Não esquecer que eles são mais e é precisamente a inventar que as línguas vão evoluindo.
EliminarMas a língua brasileira não existe, logo IGNORÂNCIA (e não vale a pena estarmos com paninhos quentes é pão pão queijo queijo, nada de fazer concessões à ignorância e ainda por cima a quem tem obrigações acrescidas)!
EliminarCaríssimo Paulo Oliveira - tem razão no que toca ao inventar, sem dúvida... "desconseguir" é inventar, tem lógica faz sentido e aceita-se.
EliminarÉ uma palavra nova composta por uma que já existia... agora deturpar, criar uma palavra pela deturpação, isso na minha cachimónia não entra, serão os 60? Não creio... ainda aceito muita coisa e aceitarei mais, mas não há necessidade de inventar "colheitadeira" ou "planejamento" e muito menos "gradeamento" e impingi-los como se fossem palavras legítimas... ora veja lá entendeu a minha "matutação" usando o "inteligenciamento deusal", que é como quem diz a inteligência que Deus nos deu... ahahah!
Está a ver onde quero chegar?
Todos deliramos com o discursamento do Odorico Paraguaçu, mas daí a fazer usamento do seu falamento é que me parece que vai um grande passo. E os nossos amigos brasileiros são mestres em criar palavras que usam despudoradamente em livros técnicos... aceita o termo "gerenciar" em vez de gerir? Faz algum sentido ou há alguma necessidade? Claro que não, é um abuso e uma prova de tão-se-cagandismo!
Um abraçamento saudável para si, cá desde a Cidade Morena!
Bommm...aprecio as invenções brasileiras. E as portuguesas. E as de Mia Couto que são únicas e muito dele e nossas. E parece-me preferível que se aprenda o português do Brasil a não se aprender português. Mas que é uma falta de educação e de respeito para com a língua que lhe deu origem, e que é a que se pretende aprender, isso é.
EliminarTem razão, não existe, como o americano não existe. São ignorantes, sim. Talvez se curvem ao petróleo, ao número de habitantes, à extensão do país. Ou talvez pensem estar certos e nem saibam de Portugal, ou saibam mas seja só um país do sul da Europa, pobre e mal cotado, sem reservas naturais nem riqueza à vista, minúsculo em tamanho e importância mundial, origem de emigrantes que aceitavam tudo e trabalhavam sempre. terceiro mundo europeu. Por exemplo.
EliminarEheh!, gostei.
EliminarNa mouche, Beatriz!
EliminarMas eu sempre ouvi os brasileiros dizerem que falam (ou estudam) português.
ResponderEliminarMas Ó Cláudia será que os doutos (de luxo) presentes neste congresso dedicado às artes da língua portuguesa pela Fundação Calouste Gulbenkian em Paris, terão, ao menos, tentado abordar o assunto de modo a tentar corrigi-lo? dúvido , é tudo gente muito bem que foi passear a Paris...e que porventura pensará estar acima destas miudezas.
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