Santa ignorância
Nunca tinha estado com o padre e professor Anselmo Borges e, num almoço não há muito tempo, tive a sorte de ficar sentada ao seu lado e de o ouvir sobre vários assuntos com muito interesse. Às tantas, ele disse qualquer coisa de polémico e um jornalista que estava na mesa perguntou-lhe se podia publicar o que acabava de proferir. Ele concordou, mas pediu cuidado na reprodução do que lhe ouvira. É que, ao que parece, numa conferência que ocorrera uns meses antes, Anselmo Borges declarara que o futuro teria de passar pelo “ecumenismo”. Encontrava-se, pelos vistos, presente na sala da conferência uma jovem estagiária de um jornal que, nunca tendo decerto ouvido a palavra “ecumenismo”, redigiu a notícia do seguinte modo: Padre Anselmo Borges diz que o futuro terá de passar pelo “comunismo”. Dá vontade de rir, claro, mas é grave; e ainda temos sorte de, falando-se de futuro, não ter pensado nas novas tecnologias e inventado o “e-comunismo”. Enfim...
É assustador... eu sofro diáriamente com a ignorância ou a falta de conhecimento e uso da nossa língua, pelo que tenho de ser muito cuidadoso nas instrucções que dou.
ResponderEliminarEste facto, a comunicação, aliás nem é novidade para mim pois lidando com pessoas menos instruídas há muitos anos (e não estou a desprezar) sei bem que tenho de ser eu a procurar transmitir segundo formas que me façam ser entendido... não se pode falar a um vaqueiro no "oestrus" da vaca e sim dizer-lhe que "está saída"! Do mesmo modo dominar a linguagem dos mais simples permite-nos aprender com eles, pois podem não saber falar com tanta sofisticação mas sabem muito de muita coisa...
Enfim, perdoem-me a dissertação, mas o que é arrepiante é de facto a ignorância desmedida de jornalistas e profissionais da informação que têm o dever e a obrigação de serem cultos e esclarecidos e dominar perfeitamente o idioma e os temas. As peças jornalísticas lidas e ouvidas nos media, são arrepiantes!
Essa do "ecumenismo" é bem elucidativa!
Vão estudar! Seus... Relvas!
Saudações ecuménicas da Cidade Morena e da sua bela Capela da Senhora do Pópulo.
Pois sim, hilário (cá na América) Bill Clinton ofereceu vantagens o estágio prolongado a Casa Branca.
ResponderEliminarSanta cabotagem diriam céticos.
Bom dia a todos
Eu, que sou de Letras, desconfio sempre daqueles que optam por essa área, não por vocação, mas para fugir à Matemática. (Métodos Quantitativos é outra coisa).
ResponderEliminarQue fazem o curso superior na área das ditas Humanidades sem nunca terem lido um romance. E sem saber escrever uma linha - veja-se o Facebook, por exemplo, em que se protesta contra erros de ortografia em textos recheados de erros de sintaxe e de semântica. Enfim, nada de novo, infelizmente.
JCC
Não era necessário exagerar tanto, J. Catarino.
EliminarMuito menos passar um atestado de ignorância aos professores universitários dos cursos de humanidades (dos alunos não falo...).
Exagerei? E não percebo como é que passei atestado de ignorância aos professores universitários, a quem não fiz qualquer referência.
EliminarOu me expliquei mal, ou fui mal interpretado.
Pronunciei-me sobre a vocação, ou a falta dela, na escolha de área de estudos e respectivas consequências. Posso fundamentar o que afirmei, mas queria evitar fazê-lo em blogue alheio.
JCC
Quando o J. Catarino diz:
Eliminar«fazem o curso superior na área das ditas Humanidades sem nunca terem lido um romance. E sem saber escrever uma linha.»
Isto é o quê?
Quem é que aprova esses alunos sem nunca terem lido um romance ou saber escrever uma linha?
ninguém consegue fazer um curso de humanidades sem ler um romance ou algo semelhante:; eles têm de fazer comentários a obras, apresentações orais sobre elas, e etc. Além disso logo na secundária - e mesmo antes - há obras de leitura obrigatória. Embora haja resumos e sebentas das mesmas, não creio que possam desprezar todas. Se acaso acontece, qualquer coisa está errada no processo... enão apenas do lado do aluno.
EliminarBeatriz: para entrar para o ensino superior basta ter 23 anos. Lá dentro, o aluno pode invocar - e ficarei surpreendida se soubesse quantos o fazem - dislexia. Entre eventuais reprovações, acaba por fazer o curso.
EliminarNo secundário, até à minha aposentação, em 2012, havia como obras de leitura obrigatória Frei Luís de Sousa, lido nas aulas + filme, Os Maias (sebentas + filme), e Memorial do Convento (visita de esludo a Mafra + sebenta e peça de teatro. Em cada turma, dois ou três alunos liam as obras. Como saberá, no exame de 12 ano é possível responder ãs questões sem ter lido integralmente a obra - caso ela saia no exame, o que é menos frequente do que se possa pensar.
É, ou era, o processo que está errado.
JCC
Isto é a tragédia do ensino. E os professores sem alunos ficam no desemprego. Fale com quem lá está, excluindo, bem entendido, as melhores instituições.
EliminarJCC
Acho que se perdeu a seriedade, então. Porque sebentas sem leitura da obra são nada sobre o seu entendimento. E o objectivo é ser capaz de ler e entender o lido. Suponho que um crescimento mental.
EliminarO e-comunismo é que era mesmo uma estrondosa inovação :)
ResponderEliminarOra. Coitada da jovem estagiária. Estou como dizia o outro: aquilo não é bem ignorância, é mais falta de informação...
ResponderEliminarAinda assim, bem vistas as coisas, vejamos (como dizia o outro) : pois se “ecumenismo” é o movimento que preconiza, no futuro, a união de todas as igrejas de raiz cristã numa única, em comum... e se o “comunismo” preconiza que, no futuro, todas as coisas sejam comuns a todos...
Ora bem: visto por este prisma, a rapariga afinal...
O caso é que o comunismo já passou pelo futuro, se assim pode dizer o outro, e viu-se que, como ele diz, imporibe (não se limita a proibir, impõe a proibição de) muita coisa.
E as igrejas, as religiões, também imporibem que se fartam.
Isto é istória – como escrevia o outro.
Portanto, vistas as coisas com a devida benevolência, a jovem estagiária andará à procura, não do “e-“ para o “e-comunismo”, mas sim – algo atarantada, como é natural – à procura do “H” grande para compreender a istória.
Isto digo eu – e, se calhar, dirá também o outro.
O outro Joaquim Jordão quando acorda do sonho põe a mão na cabeça e reconhece a coroa.
EliminarO rei não vai nú quando bem acompanhado.
Estou-lhe grato, Cláudia, por me ter acordado o outro do sonho.
EliminarDisse-me ele logo, a propósito das suas últimas palavras:
– Mais vale nu que mal acompanhado.
Eu, desperto, logo pousei a cabeça na mão e, com os pés na terra, recomecei a pensar.
E assim encontrei esta melhor definição de “imporibir”:
– Impor umas coisas e proibir outras.
Ou seja, como dizia o outro, por outras palavras:
– Três vezes nove vinte e sete; nós fora, nada.
Vemos pelos mídia que os problemas da formação poderão ser adiados saine dai.
ResponderEliminarNão estou a ver onde está a "santa ignorância"... O Padre Anselmo poderia ter muito bem dito que o futuro passa pelo e-comunismo e a ideia não deixa de ser defensável para quem for criativo como ele. E o som de uma e de outra (e-comunismo vs ecumenismo), venha de lá um ouvido apurado para as distinguir.
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