O que não dizer a um escritor

A escritora britânica Joanne Harris desafiou os leitores do seu blogue a enviarem-lhe frases que fossem simplesmente a última coisa que um escritor quereria ouvir – e houve de tudo, mas a autora seleccionou as que considerou pessoalmente mais irritantes, entre as quais figurava uma, fora do comum, que eu achei divertidíssima: «Desculpe, mas só temos descafeinado.» Em todo o caso, as mais contundentes diziam respeito à ideia que os outros fazem da profissão de escritor e do que, na verdade, é escrever. Ora vejam alguns exemplos: «Para além de ser escritora, o que é que faz?» «Ah, escreve livros? Mas qual é o seu verdadeiro emprego?» «Nunca mais acaba o livro porquê? Caramba, não pode ser assim tão difícil.» «Quando me reformar, também vou escrever um livro.» «Eu também escreveria se tivesse mais tempo livre.» «Que sorte ter uma família que a apoie/sustente.» Num outro patamar, estavam frases um tanto inconvenientes que diziam respeito ao completo desconhecimento da carreira da autora, como «Ah é escritora? E que pseudónimo usa?» ou «Ah, pensei que já tinha morrido». Uma outra questão – a de se achar que os escritores devem fazer borlas, que já tem sido aqui discutida – era levantada pela afirmação «Não lhe podemos pagar nada mas é uma excelente oportunidade para ver o seu nome ligado a uma publicação como a nossa». E, entre muitas outras, gostei da que dizia respeito ao veredicto depois da leitura de uma versão final de um romance: «Até que nem está nada mal para um primeiro rascunho. É um rascunho, certo?» Se conhecer algum escritor, já sabe, há coisas que não lhe deve perguntar.

Comentários

  1. Volta e meia lá ouço o chavão gasto de uma colega que se dedica à profissão 24 horas por dia, incluindo fins de semana, feriados e férias (coitada, nem um tempinho tem para coçar o umbigo quando dorme no sofá, vê televisão e passeia): «Ainda arranjas tempo para escrever!»

    ABC

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  2. Irritante também será, imagino eu, a pergunta "qual é o segredo para se ser escritor?"

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  3. Infelizmente, todas as profissões ligadas às Artes sofrem, e penso que sofrerão sempre, desse estigma. Aliás, até se vai mais longe, com a bacoca diferença entre cursos de Letras e de Ciências. Letras, desde que não seja Direito, é para fraquinhos. Os «génios» são bons a Matemática e vão para Medicina.

    Enfim, «pré-conceitos».

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    1. Muito bem!
      E ninguém se lembra de que é muito, mas muitíssimo mais difícil conseguir nota vinte numa qualquer disciplina de Letras ou de Literaturas do que a Matemática. Será talvez impossível...

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  4. Afinal parece que a ignorância é um fenómeno global.

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  5. Eheheheh!

    Riso sacanola...

    Saudações divertidas cá da Cidade Morena!

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  6. Pergunto-me como reagiria um escritor que ouvisse de outro escritor algo como aquilo que António Lobo Antunes disse de Fernando Pessoa:
    «O livro do não sei o quê [Livro do Desassossego] aborrece-me até à morte. (...) Pergunto-me se um homem que nunca fodeu pode ser um bom escritor.»

    Se fosse eu responderia:
    «Tenha calma, pá! Não vê que isto é apenas um primeiro rascunho? Não me f... mais a cabeça, ok?! Que desassossego!...»

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    1. Que o ALA diz que não aprecia Pessoa, isso é sabido (a sombra dele é imensa e ofusca muitas ambições de fulgor eterno). Agora que tenha sido tão grosseiro (e fora do alvo) ao ponto de dizer que isso tem a ver com o não foder, custa-me a acreditar que o aristocrata ALA o tenha escrito.

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    2. Estou a vendê-la pelo preço que a comprei no jornal on-line Observador.
      Por favor, procure na secção “Cultura” a entrevista a Lobo Antunes:

      http:/ observador.pt /2015/09/25 lobo-antunes-pergunto-me-um-homem-nunca-fodeu-pode-bom-escritor /

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    3. Tem toda a razão ! Ler é crer, mesmo que eu não tenha querido acreditar à primeira. E, de facto, pode ler-se a frase em verbatim espanhol no texto original da entrevista de ALA ao El País em: http://cultura.elpais.com/cultura/2015/09/18/actualidad/1442599830_647238.html

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    4. Toda a gente já devia saber que Lobo Antunes não gosta de Fernando Pessoa; isso não é uma novidade há um par de décadas; creio é que há entrevistadores preguiçosos que se não dão ao trabalho de ler as entrevistas anteriores para saberem fazer perguntas novas ou abordar temas inesperados.

      Pior, creio mesmo que há muitos entrevistadores que, conhecendo as animadversões de Lobo Antunes, o espicaçam à espera das respostas 'bombásticas' que já aguardam de antemão; apenas para depois se poderem gabar, "Uau, levei o Lobo Antunes a dizer maldades acerca de escritor X!," felizes por gerarem a polemicazinha da semana.

      Infelizmente ele também lhes facilita a vida não se recusando a responder o que já respondeu centenas de vezes antes. A minha teoria é que ele não quer dar entrevistas, por isso dá sempre as mesmas respostas, esperando que se fartem dele, que percebam que ele não tem nada para dizer fora dos romances; mas pelos vistos a repetição não agasta os entrevistadores.

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    5. Bem-visto e totalmente de acordo!
      Não resisto a comentar... e acrescento que, não sendo leitor de ALA - não aprecio a escrita - tenho no entanto o maior respeito pela sua postura como pelo facto de ser reconhecidamente um grande autor.

      Saudações Pepetelescas cá da Cidade Morena!

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  7. Porque é que escreve?...
    "Ser escritor, é não o saber.", Marguerite Duras

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  8. Embora o tema dê para rir, é cada vez mais complicado ser artista sem bolsa, do estado ou da família.

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  9. Para mim o comentário mais irritante é: "Mas sabes escrever?". Costumo responder: "Sei escrever desde a primeira classe."

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