Em terra de cegos

Quem tem olho é rei. Falo em sentido figurado, claro, porque Pablo Lecuona, argentino que cegou ainda na infância, tem dois olhos que de pouco lhe servem, mas criatividade e inteligência que ultrapassam a cegueira de muitos com dois olhos sãos. Acaba de ganhar um importante prémio para a sua biblioteca digital para cegos, com cerca de 50 000 livros, galardão que lhe foi atribuído pela Organização dos Estados Americanos entre mais de 600 projectos concorrentes. Lecuona nunca se deixou abater pela sua deficiência, desloca-se pela cidade de Buenos Aires sozinho, apesar de a cidade estar pouco preparada para os invisuais, viaja pelo mundo a partilhar a sua experiência e fundou em 1999 a TifloLibros (o nome tem por base a ilha de Tiflos, onde, segundo a mitologia, os cegos eram banidos), projecto que foi desenvolvendo ao longo dos anos com pouquíssimos recursos, mas que hoje tem já mais de 7500 inscritos e 300 instituições parceiras e ao qual vão dar seguramente muito jeito os 75 000 dólares do prémio. A Internet, as impressoras em braille, os computadores e telemóveis adaptados, abriram caminho a que pessoas cegas ou com visão reduzida tenham uma autonomia nunca antes imaginada e possam ler os livros de que gostam. Lecuona foi convidado para debater e incentivar um Tratado Internacional sobre direitos de autor no que respeita a edições em braille e o TifloLibros é dado internacionalmente como exemplo feliz de inclusão social e respeito pelos direitos dos deficientes. Lecuona não vê, mas tem visão que nunca mais acaba.

Comentários

  1. Já lá dizia o também cego e argentino Jorge Luís Borges: «Sempre imaginei que o paraíso será algo como uma biblioteca».

    [Também disse que «Para a tarefa de uma artista, a cegueira não é necessariamente negativa. Ela pode ser um instrumento».
    Mas isso fica para o meu próximo “O Que Ando a Ler” que, por coincidência, é sobre artistas cegos.]

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    1. António Luiz Pacheco29 de outubro de 2015 às 04:39

      "Como uma biblioteca"... talvez não, mas "com uma biblioteca" isso certamente que sim!

      Saudações paradisíacas cá da Cidade Morena!

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    2. De facto, caro Pacheco, parece-me a sua observação um belo melhoramento ao que disse Borges. Ele próprio, estou certo, não desdenharia.

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  2. António Luiz Pacheco29 de outubro de 2015 às 04:49

    A possibilidade de os cegos "lerem", é algo de Extraordinário, sem dúvida, dado estarem-lhes vedados outros prazeres da arte como a pintura, dança, cinema, escultura...

    Bem-haja Braille!

    Saudações palpáveis cá da Cidade Morena

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    1. Penso que pelo menos a dança e a escultura podem ser apreciados por invisuais, extraordinário Pacheco, até por terem os outros sentidos mais desenvolvidos.

      E a sua imaginação também deve ser uma coisa extraordinária, muito mais "fervilhante" que a de qualquer um de nós.

      E o bem que os livros lhe devem fazer, já que transportam tantas imagens apenas com palavras...

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  3. Pergunto-me: haverá romances escritos por cegos de nascença que nos revelem o efeito no imaginário da limitação sensorial da ausência de visão (e de memórias visuais)?
    É que essa limitação poderá ser compensada por voos criativos que a nossa imaginação de pessoas visuais não será capaz de atingir.
    Se souberem de algum exemplo, digam-me. Teria imensa curiosidade em conhecer essa literatura.

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    1. António Luiz Pacheco29 de outubro de 2015 às 11:36

      Estava a pensar nisso mesmo quando referi a limitação à dança, pintura... Extraordinário Artur Águas, ouvir música sim, mas a dança? Não estou a ver... perdoem o trocadilho!

      E a limitação à sua imaginação... posso descrever um rio ou queda de água, uma floresta... mas poderá o cego ser capaz de a entender e visualizar? Mesmo imaginar será difícil pois ele nunca viu ...

      Interessantíssima questão essa de "escrever para cegos", sem dúvida.

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