Escritores de fundo
Leio um interessantíssimo artigo no The Atlantic sobre a grande tradição que tem a corrida e o jogging no meio dos escritores, passados e presentes. Jonathan Swift, o autor de As Viagens de Gulliver, por exemplo, era capaz de correr meia milha de duas em duas horas; e a autora de Mulherzinhas confessou no seu diário sentir um prazer tão absoluto em correr que achava ter sido veado ou cavalo noutra reencarnação… Correr dá uma possibilidade única de liberdade e fuga com um propósito definido e, além disso, ajuda a pensar. Joyce Carol Oates alternava a corrida com a escrita quando confrontada com problemas de estrutura da narrativa que tinha em mãos, enquanto Don DeLillo dizia que, depois das longas sessões matinais a escrever, correr o ajudava a sair do mundo ficcional para o real. Segundo o artigo, a acumulação de quilómetros reflecte a acumulação de páginas, e ambas as formas de libertação de energia contribuem para uma sensação de alegria e auto-satisfação. Através da corrida, os escritores aprofundam a sua capacidade de se focar numa única tarefa – seja palavra após palavra, seja quilómetro após quilómetro. Murakami, apesar de ter então já três livros publicados, revelou que só teve a certeza de que conseguia chegar à última linha de um livro quando começou a fazer jogging. Muitos outros escritores inquiridos explicam que é sempre enquanto correm que conseguem resolver impasses nas suas obras.
É boa!!!!
ResponderEliminarNunca tal ouvira nem pensara, ou sequer associara... tenho por idéia e imagem, a dos escritores que se isolam e que dão longos passeios, até dos que viajam... mas escritores-corredores é que nunca imaginei!
Saudações corridas cá da Cidade Morena!
E há outros que é dentro de um copo de bebida branca, que encontram o bocado que faltava à história, resolvendo o tal impasse...
ResponderEliminar(fiz corrida durante alguns anos e embora fosse de facto uma forma de libertação física e pensasse em mil e uma coisa, não se compara a andar a pé. A caminhada sim, permite-nos ver e pensar tudo com mais nitidez... claro que é apenas o meu exemplo pessoal)
Caminhadas, claro ! Desde as montaignianas, nietzschianas, walserianas ou vila-matianas, sempre foram mais usadas para purificar a mente dos escritores do que a corrida. Pensa-se bem e surgem novas ideias ao se caminhar longamente, mesmo a quem não é escritor.
EliminarConcordo em absoluto consigo!
EliminarParece-me natural que haja essa associação. Penso que escrever equivale a uma maratona e sendo um acto solitário, nada como correr para pensar, lutar pelos impasses e sentir uma satisfação no fim. As endorfinas libertadas no cérebro funcionam como uma droga natural para os escritores. Não sei se funciona da mesma maneira com desportos colectivos, mas acho que correr, nadar ou caminhar favorecem a escrita. Não sei se com a poesia funciona. Bom fim de semana.
ResponderEliminarEscrever e correr, dois prazeres que não dispenso. Escrever não me causa qualquer lesão cerebral ou psicológica. Nem tendinites nos dedos. A corrida, pelo contrário, por causa da idade e de mazelas antigas, vai-me arreliando. Mas sou teimoso. E, já agora, mais dois prazeres: ler e jogar bridge. A lista não está completa. Como adoro o nome "Maria dos Prazeres"!
ResponderEliminarABC
Tal como a maioria dos que já comentaram, também associava o contraponto da escrita à caminhada, viagem, (por vezes à bebida como alguém disse), mas nunca à corrida. Mas qualquer coisa que permita «desligar para ajudar a ligar» é válida.
ResponderEliminarAgatha Christie dizia encontrar as melhores soluções para os enredos policiais enquanto lavava a loiça. Outros mantêm um bloco na mesa de cabeceira para escrevinhar a inspiração que lhes surge entre a sonolência.
Pessoalmente, é antes de adormecer que alinho as ideias, e quando o tempo permite aqui em Dublin, é também muito saudável caminhar ou mesmo fazer uma longa jornada pelas montanhas.
só para recordar que o Murakami tem um livro intitulado "Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo", editado em Portugal pela Casa das Letras
ResponderEliminarAs melhores ideias surgem-me de enxada na mão, cavando ou simplesmente roçando as ervas. O que é óptimo. Desenvolvendo a ideia, ignora-se o esforço. E esta, hein? :)
ResponderEliminarBoa!
EliminarE Esta?
Que engraçada esta associação entre escrever e correr... Tem a sua lógica sim senhor!
ResponderEliminarEu por exemplo, que gosto de escrever, mas não corro, faço imensos quilómetros de bicicleta (porque adoro mesmo fazer bicicleta), meto-me dentro da floresta e ando por lá horas, e o certo é que aquela liberdade momentânea me permite pensar, alinhar ideias, construir personagens e fabricar histórias... tenho sempre a sensação de que só o meu corpo está presente nos pedais, toda a minha mente vagueia... anda por lá, inexplicavelmente, intrusa nas vidas escondidas. Uma coisa estranha que me permite depois escrever naturalmente sem bloqueios.
Um abraço aos extraordinários leitores deste blogue e um bom fim de semana.
Carla Pais
EXTRAORDINÁRIO!
ResponderEliminarÉ o que me apetece dizer a propósito do desenrolar da conversa.
Eu também caminho diariamente com bom ritmo e corro com bem menor empenho, mas nada escrevo. Às vezes penso que andamos todos - corredores ou caminhantes - apenas a tentar fugir da morte.
ResponderEliminarFinalmente descobri por que não consigo terminar nada.
ResponderEliminarSim, correr liberta endorfinas e segundo dizem provoca prazer e habituação; dá vício:). E aprendi agora que ajuda a resolver impasses na escrita.
Espero bem que haja outros modos. A corrida não é salutar para toda a gente. E não estou a falar de preguiça.
Sim, resulta. Também é bom para desenovelar situações, esclarecer ideias que persistem difusas e até tomar decisões.
ResponderEliminarBom fds a todos os Extraordinários.
Penso que a questão é engraçada, além de interessante e pertinente. Por exemplo, eu sempre vi os poetas como velocistas e os romancistas como corredores de fundo. Um bom poema demora menos a ser escrito do que um romance, mas exige um esforço maior num curto espaço de tempo. Já o romance permite alguns abaixamentos de forma durante a sua escrita - dez páginas a meio pouco inspiradas não fazem grande diferença no resultado final.
ResponderEliminar:)