Bronco e analfabeto

Uma das coisas boas que há na edição independente é a capacidade de fazer coisas que num grupo grande passariam provavelmente despercebidas e não teriam da equipa comercial a atenção necessária. Digo isto a propósito de a Tinta-da-China ir publicar a obra completa de Fernando Assis Pacheco, o jornalista e escritor que morreu à porta de uma livraria (coisa que só lhe fica bem – digo-o sem ironia) e que, além de um poeta notável e mal conhecido, escreveu seguramente divertindo-se muito e contrariando assim a ideia de que os escritores são gente, em geral, muito deprimida. Ainda tive a felicidade de conhecer Assis Pacheco ao vivo nos anos em que dava os meus primeiros passos na edição no mesmo bairro onde ele morava, e sei que não havia televisão em sua casa, pelo que os seus filhos liam bastante. Era um homem culto, o oposto, portanto, do cowboy analfabeto que retrata em Bronco, Angel, primeiro volume da obra completa, saído recentemente para os escaparates; um livro que colige os «fascículos» que escreveu semanalmente para o jornal satírico Bisnau nos anos 1980 com o criativo pseudónimo de William Faulkingway. Humorístico, claro, o folhetim inclui em cada capítulo, à laia de post-scriptum, a suposta resposta a cartas de leitores intrigados com a autoria do folhetim, que não cessavam de avançar hipóteses, todas negadas pelo grande Assis. Não é uma obra-prima, nem pretende sê-lo, mas vale a pena ler a história deste cowboy que nasceu de catorze meses e que apanha que se farta. O prefácio é assinado pelo jornalista Carlos Vaz Marques.

Comentários

  1. Um enorme escritor e poeta o Fernando Assis Pacheco.
    Hoje lia logo pela alvorada um post do Jorge Bateira, que uns saberão quem é, outros não (o seu grau de mediatismo, esse grande cerceador do mérito e competência, não o conheço), pelo que me deu para me lembrar de como o bom povo Português se remete sempre a responsabilizar outros que não a si próprio.
    E que me desculpe a Rosário pela extensão, mas por que é Natal, e já agora em memória do grande Assis, de quem retenho a simpatia e a bonomia aqui vai ainda tão quente e rústico como o pão acabado de sair do forno.

    CANÇÃO DO BOM POVO PORTUGUÊS
    O TAL QUE SABE DE TUDO
    SEM QUERER SABER DE QUASE NADA.

    Se o povo ouvisse o Jorge Bateira,
    E outros como tal,
    Talvez vivesse melhor.
    Mas para o bom povo Português
    Ouvir os outros é despiciendo.
    O povo sabe tudo sem estudar quase nada.
    O povo sabe tanto de finanças como o financeiro.
    Tanto de economia como o economista.
    Tanto de construção como o engenheiro.
    Tanto de medicina como o médico especialista.
    Tanto de matraquilhos como os bonecos de madeira.
    Tanto da melhor carne como o azougueiro.
    Tanto de futebol como o treinador
    Tanto de marcar golos como o futebolista.

    O povo sabe tudo e não sabe nada.
    Mas não empurra a bola
    Como o avançado campista.
    Nem recua a defender o seu meio-campo
    Que não quer queimar pestanas,
    Muito menos andar às arrecuas
    Para defender a sua, nossa, baliza.

    Limita-se a mandar bocas.
    Ou a apanhá-las,
    Como o vulgar apanha-redondas.
    Limita-se a comentar que as "ripa-na-rapa-peca"
    Parecem nos pés destoutro umas ovais melancias.
    Limita-se a comentar como fazer entrá-las,
    Mesmo quando a baliza está toda escancarada
    Porque há muito o campo é um povoado deserto
    E já só habitam nele velhos e as vorazes marabuntas.

    E quando está aflito grita:
    «Que, ai, Jesus, que estou à rasca!»
    Que não tem dinheiro
    Nem para a mais minúscula carcassa,
    Nem as argamassas,
    Com que se colocam, alinhados,
    Um após outro, tijolos,
    Muito menos o pilim
    Com que se fazem as roscas.

    Talvez por que a sua bitola
    Seja estratosférica.
    Vista por uma lente
    Que lhe enxertaram à nascença,
    Nos olhos da barriga,
    Que os da cara
    Andam quase sempre turvos,
    Já para não dizer cegos
    Que com a cegueira não se brinca,
    Bem como a maldicência
    Que lhe é congénita,

    Talvez por que o povo
    saiba de quase tudo
    Sem querer saber
    De pouco mais
    Do tudo que é nada.
    Talvez por isso estudar
    Seja um luxo desnecessário,
    Mas frequentar a bola
    Uma bitola de cátedra.

    O bom povo Português é assim,
    Tão estóico e destemido
    Nos breves momentos de glória
    Como pobre e deprimido
    Em imensos tempos sem história.
    Tão esperto com o vizinho do lado
    Que não lhe ensinaram
    Que esperteza não é inteligência.
    Ouvisse ele o Jorge Bateira
    E talvez não fosse frito,
    Quanto mais assado.
    Fosse ele menos "gargantola",
    Mais provido de siso,
    Mais nutrido da leitura de livros,
    Que são bolas de todas as cores
    E feitios com que se marcam os golos
    Em todas as balizas do mundo.

    É que querer fazer tudo do nada
    Só mesmo a Banca,
    Esse usurário financeiro
    Que muitos confundem
    Com um fantasmagórico monstro carnívoro.

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    Respostas
    1. Excelente retrato!

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    2. Bela oferta de Natal este sarcástico poema do Pedro Sande sobre o sabe tudo que nos julgamos, sem nada verdadeiramente sabermos. E a sugestão das análises do Bateira no "Ladrões de Bicicletas" é mais do que certeira. Obrigado ! E bom Natal !

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  2. Quanto ao Assis Pacheco, ele era de facto um raro exemplo de português alegre e extrovertivo. Como a minha avó e mãe eram galegas, encontrei muitas histórias parecidas às contadas na minha família no seu "Trabalhos e Paixões de Benito Prada", um romance que podia ser picaresco mas não cai nesse facilitismo. E, claro, todos temos saudades do Assis Pacheco jornalista, figura pública e interventor cívico. Seja bem vindo o "Bronco, Angel" da Tinta da China que está publicar dos livros mais bonitos e solidamente encadernados dos nossos dias.

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  3. Desconheço a obra de Assis Pacheco. E como eu há-de haver mais gente. Portanto, se é merecedor do nosso tempo e euros, que venha ela e não nos esqueça essa figura de que só conheço um ou outro poema.

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  4. Bom Natal para si e para todos os que gostam de aqui vir. Uma belíssima ideia esta de "republicar" a obra do nem sempre "politicamente correcto " (por isso respeitado) de Assis Pacheco.
    Soube há dias que a Gulbenkian, com o apoio científico do Círculo Agustina Bessa-Luís , vai editar os textos jornalísticos de Agustina.
    Pela amostra das "Crónicas da Manhã" editado pelo Guimarães e que recolhe as crónicas que a autora para a Rádio Nacional vai uma edição importante e útil para nos compreendermos como Povo.
    2016 promete com a mexida anunciada das gavetas!!!
    Boas Festas

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