O sexo e os escritores
Para quem gosta de poesia – e especialmente da de T. S. Eliot, modernista, prémio Nobel da Literatura em 1948 – há uma boa surpresa para breve: a editora Faber & Faber anuncia para o próximo mês de Novembro a saída de uma nova edição da obra do mestre com novidades picantes (sim, eu disse picantes) que podem de algum modo redefinir alguns aspectos da biografia do poeta, sobretudo a nível sexual. Eliot fez voto de castidade em 1928, depois da sua confirmação na igreja anglicana (convertera-se ao cristianismo), embora fosse um homem casado. Crê-se, porém, que não era feliz (em parte através dos poemas que retratavam a relação como disfuncional, em parte porque Vivienne sofria de distúrbios mentais) e correu até o boato de que ele seria impotente; mas Eliot voltou a casar-se uns anos mais tarde e, desta vez, a mulher, Valerie, era alta, gira e trinta anos mais nova do que ele (fora sua secretária); numa entrevista posterior à morte de Eliot, Valerie fez então questão de tornar público que a sua vida sexual fora normalíssima e que o marido, apesar da diferença de idades, se tinha portado sempre bem... Ainda que muitos tenham duvidado, agora, pelos vistos, uns quantos poemas eróticos encontrados em caderninhos vêm mostrar que, na verdade, o senhor Eliot gostava de ter a rapariga nua ao seu colo (estando ele igualmente nu) e de outras coisas que só não digo aqui porque, fora da poesia, soariam vulgares, sem a grandeza que Eliot merece. Foi, claro, preciso passarem uns anos da morte de Valerie (que lhe sobreviveu quase quarenta) para os organizadores desta nova edição poderem vasculhar na sua papelada e descobrir este dado novo; e, se bem que não passemos a gostar mais de Eliot por, afinal, ter líbido, pelo menos é bom saber que temos para ler poemas novos do grande poeta nascido nos EUA e naturalizado britânico, pois, além dos já mencionados de cariz erótico, haverá inéditos da sua juventude, versos que escreveu para crianças e ainda novas versões de outros já nossos conhecidos. Mas o sexo, estou convencida, é o grande chamariz desta nova edição.
Depois de um casamento branco e várias paixões platónicas, casar aos 68 anos com uma mulher de 30 e ser sexualmente ativo na década que lhe restava de vida, quase parece um milagre (poético). Será que teria acontecido o mesmo ao Pessoa se não tivesse encurtado a vida em troca dos prazeres criativos que lhe foram oferecidos, a ele e a nós, pelo álcool?
ResponderEliminarUma pergunta à Maria do Rosário Pedreira: vai a RTP3 pagar-lhe direitos de autor por ter criado um programa diário cultural/literário com o título “As Horas Extraordinárias”?
Já me tinham falado disso, tem graça. Mas eu também não paguei a Sérgio Godinho direitos por ter usado o título de uma das suas canções. A expressão é mais ou menos do domínio público, acho.
EliminarObrigado pelo seu esclarecimento !
Eliminar1 - O sexo na poesia não me interessa particularmente... Mas acho muito curioso aquilo que nos conta, e afinal revela alguma hipocrisia ou pelo menos, loucura no autor - o que não se estranha pois a genialidade anda frequentemente de mãos dadas com a esquizofrenia.
ResponderEliminarAntevejo sim, um filme a respeito ... tem todos os ingredientes para isso!
2 - A informação sobre o programa na RPT3 (que não sabia existir... que canal é esse?) é que acho muito interessante, e espero tenha a oportunidade de divulgar os livros e a leitura que nos são tão caros!
Saudações televisivas cá da Cidade Morena!
Este Pacheco tem cada uma...
Eliminar«O sexo na poesia não me interessa particularmente...», diz ele.
Eu, se fosse maroto, perguntava-lhe: «Então onde é que ele te interessa, pá?»
Em vez disso, vou antes mostrar-lhe como se faz por quem sabe da poda:
«Ternura
Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...
Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...
Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...
Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!»
David Mourão-Ferreira , in "Infinito Pessoal"
[Já estou mesmo a ver o Pacheco, o grande maroto, a perguntar-me: «Querias mesmo dizer “poda”...?»]
Com o devido respeito, o sexo só me interessa no sexo... eheheh!
EliminarBonito poema este de D.M-F. Porém, não se confunda com sexo, acho eu... diria que é algo que sim, me toca em termos de poesia e é o sentimento, nem sequer erótico pois me parece algo de mais acima, sensualidade sem dúvida e desejo, mas poético!
Conheço poesia erótica como alguma que será até pornográfica... não sei onde se coloca aquela que a nossa anfitriã refere, mas pelo que percebi não será tão subtil como esta que lemos - e ainda bem que a trouxe Extraordinário JJ, sempre oportuno aliás!
Tenho um amigo já bastante entrado nos anos e daqueles que decidiram fazer da vida uma festa, caçador emérito e médico-veterinário muito conhecido em todo o Alentejo, o Dr. Alberto Fernandes, de Moura, que é um livro de poemas ambulante, alguns de caça mas muitos são brejeiros, populares do Alentejo e da vizinha Espanha, engraçadíssimos e com palavras mais ou menos dizíveis ou nem por isso - ele não os declama para todas as assembleias!
Onde ele esteja, é impossível não o notar, e a sua voz e graça natural fazem-no um declamador muito popular e célebre, não apenas na nossa confraria marteleirística.
Fala-se que já há quem se venha dedicando à sua recolha escrita ou gravada, é um espólio que não pode perder-se e felizmente que temos também gente da cultura, pois são quase 90 anos que o nosso querido amigo trás na memória e um dia que se apague, será também por essa razão uma perda!
Saudações poéticas da Cidade Morena cujo clima convida a essa deriva dos sentidos, pela vista e pela imaginação, eheheh!
Ora
Boa tarde meus Extraordinários amigos!
ResponderEliminarGostei demais dos vossos comentários.
Para além do David Mourão Ferreira, também sou fâ da poesia erótica/sensual de Maria Teresa Horta, um verdadeiro hino à sensibilidade e sensualidade da mulher...
A poesia de T. S. Eliot fazia parte do meu curso de Germânicas, mas nunca mais pequei nela, já lá vão trinta anos e a memória é difusa (até porque nunca me interessei muito por poesia). Mas sei que dissecámos o "Waste Land", que, não sei porquê, eu ligava sempre ao "Brothers in Arms" dos Dire Straits. Acho que o poema não tem nada a ver com a canção, era só pelo título. Era só lembrar-me da expressão "Waste Land" e vinham-me logo à lembrança os primeiros acordes da guitarra de Mark Knopfler.
ResponderEliminarLembro-me de um poema, que já não sei se fazia parte do "Waste Land" (nem tenho a certeza se era de T. S. Eliot, mas, pelo que a MRP diz do seu primeiro casamento, penso que sim). Falava de um casal em lua-de-mel, de como se sentia deprimido, depois do sexo, os lençóis pegajosos, o tédio, essas coisas.
Já agora, deixo aqui o link para o "Brothers in Arms", uma das mais bonitas canções que conheço, mas também um dos melhores vídeos. E combina com os tempos atuais, com esta situação dos refugiados.
«And we have just one world
But we live in different ones»
https://www.youtube.com/watch?v=jhdFe3evXpk
P.S. O vídeo começa com publicidade, pelo menos, aqui na Alemanha, mas não se deixem desencorajar, é lindíssimo.
Claro que não é "pequei", é "peguei".
EliminarCristina Torrão,
ResponderEliminarCom esta correcção, perdeu uma boa ocasião para fazer poesia...
Talvez... Paciência!
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