Livros com receita
Teimo em associar este nome – Egas Moniz – a uma imagem da minha infância presente no livro de História da instrução primária: o aio de D. Afonso Henriques de corda ao pescoço com a família, pondo a sua vida à disposição na cidade de Toledo. Mas não é desse homem que falarei hoje, antes do nosso único Prémio Nobel antes de Saramago – o cientista de quem em 1949 certamente todos os portugueses se orgulharam, incluindo o ditador, e que se tornou uma figura amada pela Nação. Pois, ao que leio, Egas Moniz era um crítico feroz do regime e, pouco antes das eleições de 1953, deu uma entrevista ao jornal A República dizendo que a comédia iria repetir-se, ou seja, que ganhariam os mesmos com ou sem eleições, até porque os sectores oposicionistas não tinham sido autorizados a fiscalizar o processo eleitoral. E contou que uma das suas obras, intitulada Vida Sexual e dividida em dois tomos – Fisiologia e Patologia –, fora mandada apreender das livrarias; porém, com a popularidade trazida pelo Nobel e a pedido do editor, que alegou ficar altamente prejudicado se não pudesse vender o livro, parece que a censura tomou uma atitude bastante inovadora: a obra poderia ser vendida, sim, mas só no caso de o seu comprador apresentar ao livreiro uma receita médica! Quase apetece pôr o baraço ao pescoço depois de uma destas…
É curioso, mas também fazia essa associação de nomes na escola primária.
ResponderEliminarJá conhecia a história e provavelmente o livro vendeu bastante, embora muitos médicos se devam ter recusado a passar a dita receita médica.
O medo e a repressão eram terríveis...
E Egas Moniz não era o nome de família do Nobel. Foi um tio padre que inventou que a família seria descendente do célebre aio e registou o sobrinho com esse apelido, que assim aparece pela primeira vez em apelido de pessoa da família. Coisas do século XIX. Está narrado na belíssima biografia de Egas Moniz escrita pelo João Lobo Antunes.
ResponderEliminarDecerto as vendas não aumentaram e houve grande prejuízo para editores e talvez mais para leitores. Egas Moniz, o nobel, era muito à frente.
ResponderEliminarNão conhecia a história e achei-a mesmo engraçada. Imaginar ir ao médico de família pedir uma receita para comprar um livro... O absurdo!
ResponderEliminarSe no E-fatura precisamos de receita para justificar as despesas com medicamentos a 23%, quem sabe qualquer dia não precisaremos dela para comprar livros a 6%.
Egas Moniz era um neurologista (não propriamente um cientista). A obra referida foi a da tese, com que se doutorou e onde não havia vestígio da inventividade que haveria de dar origem à angiografia cerebral (na altura o único método não invasivo de avaliar a curculação e em boa medida a morfoligua cerebral) e a leucotomia pré-frontal (o único modo à altura de tratar patologias psiquiátricas graves).
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