Dois em um
Escrevemos certamente por muitas razões e não as sabermos nomear é, segundo Duras, justamente uma delas, ou a mais forte. Mas há quem saiba muito bem porque escreve determinadas coisas. É o caso do ficcionista irlandês John Banville, um dos vencedores do Booker Prize com o romance O Mar aqui há uns anos, que, depois de começar a ler os policiais de Simenon em 2004, ficou de tal modo fascinado que criou um pseudónimo – Benjamin Black – só para poder escrever ele próprio policiais que gostaria que fossem tão bons como os do mestre. (Banville diz inclusivamente que Georges Simenon deveria ter ganho o Nobel da Literatura, mas Estocolmo raramente premiou um autor de policiais, se bem que os haja mesmo bons e prolixos, como Simenon e Agatha Christie, por exemplo). Ora, os herdeiros de Raymond Chandler contactaram o romancista irlandês, propondo-lhe que escrevesse uma nova aventura com o herói Philip Marlowe; e, como a mãe de Chandler era irlandesa, Banville (ou Benjamin Black, como queiram) viu aí uma possibilidade de espalhar referências ao seu país no livro, intitulado A Loura de Olhos Negros. Mas o autor literário diz que o autor de policiais é apenas honesto e despretensioso, um artesão, mas não um artista. Black escreve no computador, e Banville numa velha máquina de escrever. Qual vende mais livros? Pois, Banville aparentemente gosta de ganhar o dinheiro que Black lhe rende e divertiu-se tanto que tem vontade de escrever mais policiais.
Tenho absoluta certeza de que um autor de policiais se divertirá imenso a escrever!
ResponderEliminarÉ impossível que assim não seja!
Pela minha parte, eu que não sou escritor, e nem nunca tinha encarado a coisa dessa forma, tenho de admitir que me diverte quase sempre aquilo que escrevo, no que toca a artigos/relatos sobre viagens, caça e pesca ... é verdade, e só agora reparei nisto ao ler o post de hoje!
E, sim, diverti-me, adorei escrever o meu "Largueza" foi talvez um dos melhores anos da minha vida, não só porque foi um ano práticamente só dedicado à escrita mas porque foi um ano em com pouco mais me preocupei...
Mais não seja teve esse condão... no mais do resto, paciência se for uma grandessíssima porcaria!
Estou em pulgas para "ouvir" as opiniões dos Extraordinários e em particular daqueles que escrevem!
Saudações expectantes da Cidade Morena.
É um grande género literário, apesar de o pintarem de preto. :)
ResponderEliminarSem dúvida... há obras que são mesmo geniais!
EliminarE nem é o meu género preferido, mas os Mestres do policial são verdadeiramente Extraordinários!
Ainda a propósito, e sobre o tema de um autor actual que escreva como se fosse um outro, clássico, gostaria de referir "Clube de Patifes", em que Dan Simmons na minha modesta todavia atrevida opinião de traça literária, consegue escrever de facto como escreveria H. Hemingway.
ResponderEliminarAlguém leu o referido livro? Eu diria que H.H. o teria escrito assim e que o ambiente e personagens são do mais hemingwesco que se pode imaginar!
Saudações tracejantes cá da Cidade Morena
Sempre que se fala de policiais, viajo no tempo e recordo a loucura com que devorava os meus Perry Mason's. Qual Agatha, qual Simenon, qual carapuça! Era o Erle Stanley Gardner ( o A. A. Fair (pseudónimo) não me entusiasmava tanto). Por causa dele cheguei a imaginar-me advogado :)
ResponderEliminarEm vez disso, tive uma profissão mais ligada à colecção Argonauta que à Vampiro. E sempre a escrever. Porquê? Sei lá! Se, mesmo sendo editado, mas com uma distribuição deficiente, a poucos leitores chego, porque continuo a escrever? Pois...sei lá! Se vejo para aí cada porcaria à venda, deve ser porque os meus livros são ainda piores. Será? Pois...sei lá! Alguém devia dizer à Duras que são duras, em Portugal, as tendências para a escrita. Mas, por outro lado, sei lá! Se até o "Sei Lá" vendeu tantos exemplares... Saudações cá de... sei lá! Considerem-se saudados e pronto.
Há dias em que sinto uma necessidade tão grande de escrever como respirar, é quase um sufoco não me esvaziar nos textos. Outros dias há em que o facto de não escrever me faz sentir uma profunda dor na consciência, uma culpa simplória e despropositada que não sei explicar! Nem sei tão pouco porque comecei a escrever, o que me impulsionou a tal coisa, mas que me dá um enorme prazer, isso dá! Talvez como um alcoólico precisa do seu copo cheio, eu na maioria das vezes preciso de me afastar do mundo real e desembocar naquele mundo ficcional que nos alimenta uma data de coisas. E se ler e escrever nos faz sentir bem, porque não fazê-lo? Sem ambições e pretensões, apenas libertar-se...
ResponderEliminarFalar disto é sempre muito complicado, pois cada um terá as suas motivações, mas é sempre proveitoso esta troca de experiências.
Abraço.
Carla Pais
Uma das perguntas clássicas, que escritores e leitores gostam de repetir entre si, nos nossos vasos comunicantes em circuito fechado.
ResponderEliminarEscrever porquê, porque não escrever, escrita comercial, escrita «artística», agradar a críticos, agradar a público, agradar a editores, editar, não editar, edições independentes, vender 100 exemplares, vender 1000, escrita de intervenção, escrita de catarse (como aqui foi sugerido), e a sempre divertida questão do pseudónimo que vende(?) mais do que o «original», que até já foi abordada por S. King numa das suas obras (na qual o pseudónimo ganhava corpo e perseguia o «hospedeiro»).
Acima de tudo, talvez seja como dizia Kraus: «Escreve-se porque nos falta a coragem de não o fazer». Qualquer coisa assim.
Atrevo-me a convidar os Extraordinários que gostam destas coisas a visitarem-me no meu modesto recanto, onde vou escrevendo, também por ser incapaz de não o fazer:
https://opostigo.wordpress.com/
Cumprimentos
Caros, vou destoar, como, aliás, é meu costume. Não aprecio policiais, antes de mais porque não fixo o nomes das personagens, confundo-as, e, pouco bisbilhoteiro por natureza, nada me interessa quem matou quem. Não é que não goste de enigmas, mas prefiro os do estilo da Esfinge.
ResponderEliminarSobre o gozo que a escrita dá, sou daqueles que fazem suas as palavras do poeta, segundo as quais o poeta, ou o escritor, ou o escrevente, é um fingidor que finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. Como não sou masoquista, não confundo dor com prazer.
Por que escrevo, então? Sei lá, já deixei de me preocupar com isso.
JCC
É muito salutar encontrar uma pessoa assim: que é escritor e tem o seu esstilo e de repente resolve mudar para outro. Pode ser divertido e dará um certo gozo. É como uma criança, farta de brincar ao mesmo. E esse espírito é salutar.
ResponderEliminarNão sei porque se escreve. Creio que sobretudo por gosto e necessidade. Não acredito em quem se diz (apenas) sofredor a escrever, não somos assim tão masoquistas. Que a escrita custa e por vezes dói é verdade. Mas há nela uma redenção que a realidade nem sempre tem. Julgo que cada um se procura - e por vezes encontra - no que escreve. Escrever, como tanta outra coisa, é fixar, é desejo de permanecer; uma forma de lutar contra a morte. Por exemplo.