Vive la France!
Cai-me no colo um interessante artigo sobre algumas medidas praticadas na capital francesa para defender as livrarias tradicionais. Não é que não fechem também em Paris algumas lojas, sobretudo com a concorrência feroz da Amazon.fr (que tem «espaço» para todos os livros e faz os envios em vinte e quatro horas); mas a Câmara de Paris não quer de modo algum o fim do comércio tradicional e, num país com grande tradição de leitura, está atenta aos livreiros que precisam de ajuda. Os que pagam em salários 12% ou mais da sua facturação têm, por exemplo, isenção de impostos e, além disso, direito a um subsídio para actividades de promoção de livros de fundo (sublinho de fundo) na loja. Uma empresa semipública comprou por toda a cidade espaços livres ou abandonados em ruas de comércio (650, dos quais 60 são livrarias) e aluga-os por rendas baixas, a cerca de metade do preço de mercado. Além disso, conscientes da importância das livrarias tradicionais num país onde a compra de e-books é ainda ínfima, os editores reuniram-se e criaram um fundo que permite a novos livreiros começarem a actividade sem pagarem nada antes de dois anos decorridos... Por outro lado, as livrarias conseguiram também unir-se na realização de um site colectivo, no qual difundem uma agenda de actividades e – pasme-se! – o cliente pode procurar o livro que quer e saber logo quais são as livrarias que o têm à venda, indo à mais próxima (e assim evitando uma visitinha à Amazon). Boas ideias vindas de França.
Boa notícia ! Vosso tour in France está entusiasmar Doutora Rosário .
ResponderEliminarSim, excelentes ideias para dinamizar um negócio muito complicado para os chamados "livreiros independentes", com margens de lucro muito curtinhas.
ResponderEliminarQuando se trata de ganha pão, o amor não chega...
Tão bons exemplos por essa Europa fora e, por cá, ninguém é capaz de pegar neles. Nem é preciso ser um génio de inovação, basta olhar lá para fora e imitar. Na Cultura, na Justiça, na Segurança Social... Era só imitar o que de melhor se faz lá fora. Mas por cá, infelizmente, reinam os interesses particulares ou o simples deixa andar. Não admira que os nossos jovens que se mudaram para essa Europa, quando interrogados, confessem que não pensam voltar tão cedo, mesmo não escondendo saudades de familiares e amigos. Seremos cada vez mais um país de velhos e de interesses instalados.
ResponderEliminarOui, vive la France !
Sim, é verdade que por aqui se cultiva um espírito de tradição, as Câmaras tentam ao máximo preservar as coisas, preocupam-se em descobrir soluções, experimenta-las, testa-las... É como se acompanhassemos a louca evolução do mundo, mas sem esquecer as raízes culturais do país. E talvez sejam todas essas coisas somadas que nos fazem ficar e amar um país que não seja o nosso, é porque percebemos que existem modelos sociais que nos servem, no fundo assentam-nos como uma luva. Coisas básicas, primárias, mas tão essenciais à sanidade de um povo...
ResponderEliminarAbraço e bom fim de semana aos extraordinários.
Carla Pais
De facto, é impressionante a quantidade de pessoas que, em Paris, vemos a ler – ele é nas esplanadas, ele é nos transportes públicos, nas salas de espera...
EliminarNesta última vez que lá estivemos, uma bela tarde de sábado a minha mulher, cansada de tanto passear, resolveu ficar a trocar miminhos com o nosso netinho, e eu fui a pé por ali acima para visitar a Médiathèque Marguerite Duras, na zona de Charonne , a norte do cemitério Père-Lachaise.
Só na pequena parte da Rue de Bagnolet que percorri encontrei duas fabulosas livrarias (cujos nomes, pardon , não fixei), cheias de gente, as caixas registadoras sempre a tilintar.
Depois a Médiathèque .
O edifício, inaugurado em 2010, foi concebido pelo arquitecto Roland Castro, velho militante de várias causas, entre as quais a mais recente é “a concretização de utopias”.
Pois bem, aqui acertou em cheio: uma verdadeira multidão, gente de todas as idades e de todas as origens, utilizava naquela tarde todas as salas (de leitura, de estudo, de visionamento de vídeos, audição de música, literaturas especializadas, etc ).
Fiquei vaidoso por ter lá encontrado uma estante dedicada à literatura portuguesa, com muitas obras na nossa língua, e também bastantes de Pessoa e algumas de Sophia , Eugénio de Andrade, Herberto, etc , editadas em francês – todas muito requisitadas, ao que me informou uma gentil funcionária.
Gostaria de ter ido ao terraço, de onde parece que se tem uma vista interessante sobre Paris (o edifício situa-se numa parte elevada da cidade), mas isso, afinal, só em visitas de grupo e previamente agendadas.
A gentil funcionária desfez-se em desculpas, fazendo-me ver que até gostaria de dar um jeito, mas, com tanta gente para atender, não tinha um único funcionário disponível para me levar lá acima.
Ainda bem que assim é. Não fiquei nada chateado. Pelo contrário.
Que bom é ouvir este tipo de histórias, isto só prova que o modelo funciona e poderá também funcionar noutros países como Portugal se assim quisessem os (des)Governos. Nenhum país pode sobreviver à margem da cultura, muito pelo contrário, um país que alimenta e preserva as suas raízes culturais é, e só pode ser, um país com saúde. Aqui sinto isso muitas vezes. Por exemplo, todos os anos em julho ou agosto recebemos na caixa do correio uma pequena revista cultural da vila, envisda precisamente pela Câmara, na qual podemos programar as saídas ao teatro, à ópera, a concertos, festas, etc... E tudo numa programação de setembro a maio. Estas coisas parecem insignificantes aos demais, mas garanto- vos que faz uma enorme diferenca, ainda mais quando temos crianças para educar. Levar os miúdos à ópera foi uma experiência inesquecível para todos! E por isso é aqui que quero viver e criar os meus filhos.
EliminarOk, Carla. Agradeço a sua atenção.
EliminarCompreendo o seu ponto de vista.
Como diz, e muito bem, devia ser melhor aplicado aqui em Portugal o modelo de valorização da Cultura que experimenta com os seus filhos aí, em França.
No entretanto, permita-me lembrar-lhe o seguinte: se os seus filhos têm a nacionalidade portuguesa (ou, como o meu netinho, a dupla nacionalidade), então há que prepará-los para a responsabilidade que têm de, quando forem grandes, contribuírem para que tal aplicação desse modelo aconteça aqui em Portugal (ou ajudar a que aqui se consolide, caso os que agora já são maiorzinhos venham, entretanto, ajudar a aplicá-lo).
Aposte nisto, Carla.
Vai ver que, se tudo correr bem graças ao seu contributo e dos seus filhos, depois até lhe apetecerá voltar para cá, voltar a viver aqui, ser feliz neste cantinho que, embora por enquanto não pareça, é a mais antiga nação da Europa.
[Não sei se está a topar, por detrás deste meu discurso, uma – porventura ainda imprecisa, apenas impulsiva – estratégia humanista, fraternal, solidária, para o acolhimento, integração e valorização dos imigrantes e refugiados que, aí e aqui, em número crescente nos chegam fugindo das várias partes do resto deste nosso transtornado e lamentável mundo…]
Perdoem a ignorância deste macaco... aliás traça literária e bem fraquinha como se vê, mas, o que é "livro de fundo"?
ResponderEliminarAlguma coisa no género do Plano Nacional de Leitura?
Saudações macacais ou tracejantes cá da Cidade Morena!
O «fundo» neste caso é tudo o que não são novidades. Em Portugal, por exemplo, é muito difícil encontrar livrarias que tenham disponíveis para venda obras lançadas há um ou dois anos. As novidades é tudo o que está em exposição e o fundo acaba por «morrer de bolor» nos armazéns ou ser guilhotinado...
EliminarBom... lembro que Paris é dita como sendo a "Cidade - Luz", e talvez por isso mesmo...
ResponderEliminarMagníficas essas acções e apoios, que esperar por elas no nosso torrão pátrio... invejemos pois os parisienses que têm uma câmara que o é de facto!
Saudações iluminadas cá da Cidade Morena
Procurando, insistindo talvez haja outros objetivos humanos além da maximização do lucro. Tenta-se em Paris, vive la France.
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