Um, três, cinco
Sou pouco tecnológica e fico triste quando vejo dois namorados a jantarem juntos num restaurante sem trocarem palavra e sem conseguirem desviar os olhos dos respectivos telemóveis. Tiram fotografias ao que comem, que logo põem no Facebook, e escrevem SMS a amigos entre garfadas. Quando marcam um encontro, o primeiro a chegar raramente consegue esperar uns minutinhos sem enviar ao outro uma mensagem a avisar que já lá está, se é que não faz imediatamente um telefonema, como se não conseguisse aguentar ficar sozinho aquele lapso de tempo (mas, quando o outro chega, mal lhe fala). Desde que os aparelhos se tornaram não só úteis nos momentos certos, mas imprescindíveis a toda a hora, as pessoas deixaram-se escravizar por eles. Mas há quem pense que essa dependência é nociva e tenha arranjado uma alternativa. Numa estação em Grenoble, para os que ficam à espera há máquinas que imprimem pequenos contos para quem se quiser entreter até vir o seu comboio. O passageiro pode, inclusivamente, escolher entre histórias de um, três ou cinco minutos – e o conto é «dispensado» pela máquina em papel de recibo, próprio para ser deitado fora depois de terminada a leitura. Uma ideia que era bom que pegasse em mais sítios, aumentando a instrução das pessoas e distraindo-as por uns instantes dos malfadados telemóveis.
Ideia de génio. Resta saber é se tem muitos clientes...
ResponderEliminarQue ideia bonita! Mas só se aplica a quem goste de ler:) E não acredito que pegasse grandemente entre os portugueses.
ResponderEliminarOcupar o tempo de espera a ler pode ser agradável. Mas há pessoas a quem o barulho incomoda, que não conseguem retirar da leitura o prazer devido se estão sem ambiente; que, mesmo que lêem um livro, digital ou não, voltam a reler para usufruto da completude da obra.
Esperar por uma namorada/o pode ser bem agradável. Sem fazer outra coisa que isso. Apenas esperar. Assim um bocadinho como o pequeno príncipe esperava a raposa ou a rosa e o vulcão de trazer por casa o esperavam a ele e suas mãos cuidadosas e matinais.
Devíamos exercitar a espera por alguém de quem se gosta. Não precisa ser uma paixão e nem sequer uma namorada. Basta gostar e já é bonita a espera. A antecâmara de um prazer é sempre um encanto de e por que se viver.
Hummm...e os sms ou a ligação embelezam; dão premência à espera. O grave ou sinal de que alguma coisa está desconforme, é não se falar em presença.
Grande ideia!
ResponderEliminarVivam os Idiotas!
Sem eles o mundo tinha muito menos cores.
Não acho que o mal esteja nos aparelhos. Que diferença faz ler um conto impresso, ou um conto num aparelho?
ResponderEliminarO que me preocupa mais é a omnipresença de formas de distracção, de ocupação.
Já ninguém tolera estar 2 minutos sem fazer 'nada'. Há quem aproveite o percurso de 10 segundos do elevador para ver um mail ou uma mensagem.
Há 10 anos quando se chegava a um encontro, e não havia os ditos aparelhos, olhava-se, pensava-se.
E maldizia-se o desgraçado do atrasado :)
Concordo. A questão na sua essência é sobre o silêncio e a espera. Hoje são poucos os que ficam simplesmente a observar as pessoas enquanto esperam, a saborear o silêncio ou o som ambiente.
EliminarÉ insuportável hoje aguentar minutos sem fazer nada e salta-se logo para o FB no telemóvel.
Já tenho visto pessoas no elevador sem aguentar não olhar para o "bicho".
Será que há ainda quem aguente estar sentado à beira Tejo, a ver os barcos e a ouvir as gaivotas sem consultar o telemóvel?
Não resisto a comentar: já tinha visto esta iniciativa... no facebook! :)
ResponderEliminarBom fim-de-semana a todos,
Rui Miguel Almeida
Quando se fala em espera, lembro-me sempre de Max Aub. E disto:
ResponderEliminar«Estava um frio danado.
Ele marcara-me encontro às sete e um quarto na esquina da Venustiano com a San Juan de Letran . Não faço parte dessas pessoas absurdas que adoram os relógios
e os veneram como a divindades indestrutíveis. Sei perfeitamente que o tempo é elástico e que se nos dizem sete e um quarto, isso pode significar sete e meia. Aliás, tenho um espírito largo e sempre fui tolerante, um liberal da velha guarda. No entanto, há coisas que nem mesmo um liberal como eu poderá aceitar. Que eu chegue a horas
aos encontros não obriga os outros a fazer o mesmo, mas isto só até certo ponto,
e concordarão comigo que esse ponto existe.
Já disse que estava um frio horrível e que nesse cruzamento do diabo soprava uma ventania impossível. Sete e meia, vinte para as oito, oito horas. É perfeitamente lógico que me perguntem porque é que não me fui embora. É simples: sou um homem
de palavra, um pouco antiquado, se preferem. Heitor tinha marcado encontro para
as sete e um quarto, e nunca me teria passado pela cabeça faltar a esse encontro.
Oito e um quarto, oito e vinte, oito e vinte e cinco, oito e meia e Heitor nada.
Estava completamente gelado: doíam-me os pés, as mãos, o peito e os cabelos.
Na realidade, se tivesse vestido o meu sobretudo castanho, talvez isto não tivesse acontecido. Mas os desígnios do destino são misteriosos; asseguro-lhes que às três
da tarde, quando saí de casa, nada fazia prever a ventania que se levantou.
Vinte e cinco para as nove, vinte para as nove, um quarto para as nove.
Estava enregelado e roxo. Heitor chegou às dez para as nove: calmamente, sorridente
e satisfeito. Trazia vestido o seu sobretudo cinzento e as luvas forradas. E assim,
sem mais nem menos, saudou:
«Olá! Estás bom?»
Não pude deixar de o fazer. Empurrei-o para debaixo do eléctrico que ia a passar».
Estou a gostar particularmente dos comentários, que boa vai a conversa!
ResponderEliminarEu, sou dos que adoram estar sem fazer nada, solto a imaginação e discorro sobre um tema qualquer ou sobre algo esteja a observar ou vi... até viajo assim, chego a conversar comigo mesmo, (não, não sou como quele que se ria das anedotas que contava a si próprio, sobretudo daquelas que ainda não conhecia) e a preparar-me assim para alguma apresentação ou discussão! Tanto relatório que escrevo assim e na cabeça...
Quem tenha imaginação nunca está nem só nem aborrecido!
Saudações imaginadas cá da Cidade Morena!
Autênticos alienados, autómatos, múmias!
ResponderEliminarJá ninguém vê, já ninguém saboreia o silêncio, já ninguém vê as coisas bonitas, fazem-me pena os casais de imbecis que vejo numa mesa agarrados ao telemóvel (cada um com o seu) e que, infelizmente, são a maioria para não dizer a totalidade, e isto (já) independentemente da sua idade.
Eles não sabem nem sonham...
Às vezes faço coisas e coisas a pensar que assim vou conseguir tempo para não fazer nada.
ResponderEliminarQuanto à ideia do conto impresso em certas circunstâncias acho-a magnífica. Ainda que o autor deva ter a sua remuneração, sendo curto espero que não seja caro.
Bom fds a todos os Extraordinários.