Desistir ou perder
Há muitos anos, quando era a editora de José Luís Peixoto, um dos seus livros foi vendido a uma editora brasileira muito especial: a Cosac & Naify; faziam livros requintados, com materiais especiais e bom gosto, além de escolherem bem os títulos – nada de baixa extracção. Os seus donos, ao que parece, tinham dinheiro e talvez por isso não se importassem muito de não o ganhar com as suas edições de qualidade; mas chega um ponto em que perder dinheiro com a actividade também se torna impossível – e, ao contrário de outras editoras independentes que acabaram por ser vendidas a grandes grupos, a Cosac & Naify declarou preferir fechar portas a ter de fazer livros menores que dêem lucro. Disse numa entrevista o senhor Cosac que «uma editora deve existir exclusivamente para alimentar um projecto cultural» e que, quando viu o seu projecto ameaçado, achou que chegara o momento de encerrar, podendo, desse modo, «perpetuar um sonho belíssimo do qual tantos participaram e que ajudaram a construir». Pois é. Como dizia um outro editor a respeito do assunto, «o sonho continua, o que acabou foi a realidade». Uma maneira de desistir sem perder.
Um final digno !
ResponderEliminarFez-me lembrar a sinopse que li há pouco do recente romance de Manuel Rivas, um dos meus autores espanhóis favoritos : " O Último Dia de Terranova" que relata a história de um livraria galega que, ao fim de muitos anos e muitas histórias dos seus donos e de quem por lá passa, vai fechar pela diminuída entrada de clientes e pelas pressões imobiliárias.
"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades."
Já agora, ó Artur, valia a pena transcrever o resto do Soneto, em particular a última estrofe – pois que esta ideia: «o sonho continua, o que acabou foi a realidade», de certo modo está lá contida.
EliminarQuer ver, ó?
«E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.»
Quer com isto o Camões dizer que a própria mudança está sempre a mudar, pois que o sonho continua.
E lá diz o Gedeão: «O sonho comanda a vida».
Pois: a realidade “acaba” todos os dias mas, afora isso, sempre recomeça, tomando sempre novas qualidades.
Obrigado pelo comentário.
EliminarEstou de acordo: o soneto de Camões merece transcrição completa.
É um dos mais belo poemas que li sobre o desânimo, o pessimismo, a depressão.
A estrofe final: "Que não se muda já como soía." parece-me querer dizer que até as mudança agora já não são como o eram antigamente. Tornaram-se estranhas, imprevisíveis.
É a desistência de qualquer esperança no futuro.
Caro Artur
EliminarSe bem reparar, a minha interpretação do soneto de Camões é a oposta da sua.
Não vejo que haja ali “desânimo, pessimismo, depressão”, nem “desistência de qualquer esperança no futuro”.
Claro que, como diz, “as mudanças já não são o que eram antigamente”, pois que tomam (e ainda bem) sempre novas qualidades, diferentes em tudo do que anteriormente era esperado.
“Todo o mundo é composto de mudança / Tomando sempre novas qualidades”.
E cada nova mudança já não é “como soíam” as anteriores.
Ora isto é, regra geral, fruto do sonho, da realização da esperança, da concretização do que é imaginado.
Claro que também acontece algumas mudanças serem, como diz, “estranhas, imprevisíveis”.
Para enfrentar isso, convém lutar tendo presente um outro poema, por exemplo este, de Cochofel:
«Firmeza
Não seja o travor das lágrimas
capaz de embargar-te a voz,
que a boca a sorrir não mate
nos lábios o brado de combate.
Olha que a vida nos acena para além da luta.
Canta os sonhos com que esperas,
que o espelho da vida nos escuta.»
Está a ver? É preciso cantar os sonhos com que esperamos, pois que a vida acena-nos para além da luta.
Quer ele dizer-lhe, Artur, perante as suas palavras no início deste texto: – nada de “desânimo, pessimismo, depressão”, nem “desistência de qualquer esperança no futuro”.
Ânimo, pá!
E um abraço.
a cada um, a sua interpretação; não deixo de considerar a sua estrombólica.
EliminarPois o meu caro topou a ideia.
EliminarDo meu primeiro para segundo comentário, este tomou uma nova qualidade: é estrambólico.
Abraço.
E quem é que pode resistir à realidade...? (nem no Instagram)
ResponderEliminarConcordo plenamente com a estratégia. Sem projecto cultural, a editora vende apenas produtos comerciais e fica igual a tantas outras, acabando por fechar pela política dos preços e descontos.
ResponderEliminarSó tenho um livro dessa editora - "A VIAGEM DO ORIENTE" de Le Corbusier. Parece tão simples, mas gosto muito da capa, da encadernação e dos desenhos do arquitecto.
Mas «o sonho continua, o que acabou foi a realidade». Bom fim de semana.
Muito raramente os sonhos são lucrativos...
ResponderEliminarÓ Luís, que verdade:
EliminarPor isso é que eles não sabem nem sonham...
Os chamados "nichos", continuam a existir, seja nas livrarias sejas no que for ... o que se passa é que a forma de encarar e perceber, flanquear a realidade, nem sempre é a correcta ou muitas vezes nem é feita, desiste-se apenas vergado perante a tirânica realidade.
ResponderEliminarCom o trabalho adequado e a estratégia/táctica certa podem de facto flanquear-se barreiras.
A Swatch é um bom exemplo... e há muitos mais!
Pessoalmente sou um sonhador, até talvez um romântico, um conquistador do inútil, porém não me alheio da realidade e nem por isso sou um desistente... tive uma boa escola, a dos toiros.
Abrir os braços aos desafios como a um toiro, e apeitar igualmente as cargas da vida. Não comungo da visão de que os sonhos morrem e menos de que sejam não-lucrativos, pois se o homem sonha a obra nasce e como escreveu A. Gedeão, sempre que um homem sonha, o Mundo pula e avança.
Pessoalmente costumo dizer que o que vale a pena em ser criança é ter sonhos, e o que vale a pena em ser adulto é cumpri-los. Mas teria de acrescentar que há que ousar tentar cumpri-los, sacrificar muita coisa...
Estamos muito filosóficos hoje, talvez por ser final de semana e na próxima se Deus quiser, já aí estarei.
Saudações sonhadoras e filosóficas da Cidade Morena.
Não há desistência sem perda.Mas pode acontecer que os ganhos sejam maiores ou tão necessários que desistir aparece como um inevitável. E se não houvesse desistências a existência era mais monótona e menos aliciante.
ResponderEliminarContudo, em cada vez que se desiste, o fracasso faz a sua apresentação. E, às vezes, fica muito tempo.
" E se não houvesse desistências a existência era mais monótona e menos aliciante."
EliminarConcordo em que desistir não é sinónimo de perder e menos de fraqueza, pode até ser sinónimo de força e é muitas vezes sinónimo de sabedoria.
SE desistir de uma coisa for para alcançar outra, ou como se diz, dar um passo atrás para saltar mais longe, de acordo, mas todavia não me parece que desistir seja em si algo que torne a existência mais aliciante ou menos monótona. Pelo contrário, pois conheço pessoas que são desistentes puros e sistemáticos, tão enfadonhos quanto os vencedores natos, pois nem uns entendem o sucesso e nem outros o desaire o que os torna incompletos.
Uma vez, na minha função de juiz internacional, desclassifiquei de uma prova do Campeonato do Mundo, um jovem atleta Sul-africano de quem me diziam nunca ter perdido uma competição e ser um grande campeão. Respondi na altura que vencer era fácil, era ganhar sempre... mas isso não faz um campeão, o que faz um campeão é exactamente ganhar, perder e voltar a ganhar! E dava o exemplo do nosso André Domingues presente naquela competição, desclassificado porque acusou cannabis na análise à urina, teve de devolver a medalha de prata de Campeão Euro-africano e foi afastado das competições por 2 anos. Ao fim de desses dois anos voltou mais forte do que nunca... esse é um campeão e para mim um exemplo.
Não tenho o culto do vencer, mas sim o de ir à luta, pelo que volto a dizer que sou pouco de desistir, a não ser que seja por maiores razões, e, se não faço disso um drama também não faço um objectivo... Noto que hoje desiste-se muito! É o que constato.
Há dias jantando com um amigo de Benguela, dizia-me ele que em Angola não há culpas, há desculpas ... e eu perguntaria a esta Extraordinária assembleia se se será apenas em Angola?
Saudações responsáveis cá da Cidade Morena.
Não vejo a vida como essa corrida. Não dou passos atrás para ir mais longe e acho muito importante ir andando. Umas vezes desistindo. Outras não. Na próxima encarnação quero ser cisne.
EliminarEntão se calhar, já é um cisne, humano minha Cara Beatriz!
EliminarOs seus comentários sensatos e que por norma denotam generosidade fazem de si o cisne humano que almeja ser em ave, talvez pelas asas... e afinal a leitura dá-nos asas, podemos ser cisnes, pinguins, o que quisermos.
Votos de um bom fim de semana, cá da Cidade Morena e já de malas aviadas, preparado para o salto e o vôo...
Bons vôos até Portugal. E que a consoada seja a contento. Não não. Sou uma patachoca desasada. É isso.
EliminarSe o sonho continua para essas pessoas de tão boa fibra, então é legítimo esperar que daqui a uns tempos seremos agradavelmente surpreendidos. Poderá não ser no campo dos livros, será noutro igualmente venturoso.
ResponderEliminarA nossa Extraordinária Anfitreã esteve em alta este fim de semana nas listas dos "Melhores de 2015" do Público (ípsilon) e do Expresso: na Música pelo seu trabalho com Aldina Duarte; nos Livros pelo seu trabalho como editora de Mário Cláudio, Nuno Camarneiro e João Pinto Coelho.
ResponderEliminarE até o Nicolau Santos escolheu um belo poema da Rosário para ilustrar a sua página de economia.
Parabéns, e que 2016 seja ainda melhor!
:-) Antonieta
Caríssima Maria do Rosário,
ResponderEliminarConsigo tudo é bonito. Até as histórias tristes.
Cumprimentos,