Castigo ou talvez não
Leio no site da TSF uma curiosíssima notícia a respeito da originalidade da pena que certo magistrado no Irão vem aplicando aos adolescentes que se estreiam no pequeno furto ou crime do mesmo tipo. Tomando consciência de que, para gente nova e sem cadastro, a permanência numa prisão ou num reformatório deixa marcas físicas e psicológicas irreversíveis que tantas vezes só podem agravar o comportamento que leva ao delito, o juiz resolveu então aplicar uma receita verdadeiramente interessante: uma lista de livros que é preciso comprar e ler. Estes livros têm temas variados e graus distintos de complexidade; mas, de todos eles, é suposto o réu fazer um resumo que tem de entregar depois ao juiz como prova de ter cumprido o castigo (espero que não roube a sinopse da Internet). Os livros lidos por estes pequenos criminosos serão depois distribuídos por estabelecimentos prisionais, até porque este magistrado acredita que a leitura tem um efeito apaziguador, contribuindo para uma diminuição da violência entre os reclusos. E esta, hein?
Extraordinário ... só espero que os jovens delinquentes iniciados, não tenham de roubar para comprar os livros ...
ResponderEliminarTambém me faz alguma impressão imaginar que a leitura possa ser de algum modo vista como uma "punição", se bem que pelo que compreendi o que se pretende é que seja vista como "correcção".
De resto no Irão ... livros? Hum... "Corão" , talvez o "Manual de Perfuração de Petróleo", "Código da Estrada", e vejo poucas mais hipóteses pois tudo ofende a lei islâmica...
Saudações eleitorais cá da Cidade Morena
Conheço compatriotas nossos emigrados no Irão. Dizem-me que não existe modo de vida mais parecido ao português, pela amenidade, doçura no trato interpessoal, bandos costumes e tolerância recíproca. Nada a ver com a imagem internacional do país. O fundamentalismo oficial é largamente ignorado no dia à dia do cidadão comum que se habituou a um modo de vida exterior que é hipócrita e adaptado à sobrevivência à opressão. Como no Portugal do salazarismo. Quem não vê traços da vida lusitana nos filmes iranianos que vão chegando aos nossos cinemas?
EliminarInteressante, caro Artur, já que, nas minhas pesquisas históricas, chego à conclusão de que muito do nosso carácter nos foi transmitido pelos chamados mouros (que eram uma mistura de vários povos; é curioso constatar que muitos deles eram sírios). Estou mesmo convencida de que a nossa tão lusa saudade nos foi transmitida por eles, assim como remonta a eles a origem do fado.
EliminarMais uma razão para os acolhermos, agora que eles estão em grande tormento e sem futuro à vista lá nos seus territórios.
EliminarCristina, desculpe-me contradizê-la sobre o Fado, mas estudos feitos aquando da candidatura do Fado a Património da UNESCO, pelos maiores especialistas, negam essa origem, situando-a no Brasil, numa modinha que era tocada à guitarra porque quem a cantava não tinha dinheiro para o piano, em voga na época, e com influências da música dos escravos africanos, mas não árabe.
EliminarOk, Maria do Rosário. Mas concordará (e a Cristina também concordará) que se os acolhermos como mandam as boas regras da hospitalidade, eles vão gostar muito do nosso Fado.
EliminarClaro! E nós vamos gostar deles!
EliminarTudo o que não "cheire" a uma determinada onda é de botar abaixo...mesmo que só se tenha ouvido dizer.
EliminarHá ainda alguns malacuecos que me dizem que não gostam de ler Saramago porque não usa pontuação - é preciso ter lata -
Apetece-me dizer: O ser humano é incrível,
é a única criatura que corta uma árvore, faz papel com ela e escreve em cima dele: «Salvem as árvores».
Extraordinária Cristina:
EliminarComo bem sabe "mouro" é uma designação alargada, e como melhor saberá os povos do Norte de África Mediterrânica e os da Ásia Menor, terão tanto a ver como nós portugueses com os belgas...
No entanto é um facto reconhecido esse que refere e afinal 7 séculos de ocupação têm forçosamente de ter deixado marcas profundas, e não apenas nas noras que regavam as hortas.
Mas permito-me chamar-lhe a atenção para o que os une será o Islão ... pouco mais, pois comparar almorávidas (sírios como diz ...) com persas, é capaz de ser o mesmo que comparar italianos com suecos... digo eu que não sou historiador, mas em compensação conheço um pouco de geografia e tenho sido um viajante.
Saudações cá da África Subsaariana e bantu.
Sim, sei que a origem do fado é controversa. Mas eu baseio-me no livro de Adalberto Alves, "Em Busca da Lisboa Árabe", edições CTT:
Eliminarhttps://www.ctt.pt/femce/sku.jspx?shopCode=LOJV&itemCode=20073619599
Convenceu-me. E inclui uma fotografia de Amália Rodrigues, na companhia do autor, dizendo que a nossa maior fadista comungava das suas ideias. Assim como eu!
É inegável a semelhança dos tons do fado com a música tradicional alentejana, de origem árabe. E Adalberto Alves explica muito bem a angústia dos últimos mouros, na mouraria lisboeta, quando restavam poucos, salvo erro, no século XV, ao aperceberem-se do seu fim. Cantavam a sua angústia, nos seus sons característicos, a origem da nossa saudade.
Na altura do Califado de Córdova, havia ainda muitos árabes, a elite que governava era de origem árabe, descendente da dinastia Omíada, originária de Damasco, na Síria. Sempre houve muitos sírios na Hispânia islâmica. Depois de o Califado soçobrar, no século XI, veio a época dos reinos taifas, com os almóadas e, mais tarde, os almorávidas, ambos de origem berbere. Para os cristãos da altura, eram todos mouros, também os "muladi", antigos cristãos convertidos ao Islamismo.
Eliminar«(---) a generalidade dos mouriscos de Lisboa constitui um grupo social cada vez mais envelhecido e pobre, que acaba por se dissolver na sociedade maioritária cristã através do túnel escuro e estreito da miséria e da delinquência. A arabidade que neles subsiste está-lhes, porém, sob a pele, em atavismos culturais que veiculam, de modo quase inconsciente, e em formas artísticas que cantam a sua sorte de fustigados do destino e vencidos da vida. Inventam um género musical e com ele cantam o seu "fado"». (pag. 145)
EliminarAfinal, esta situação surgiu depois da introdução da Inquisição em Portugal por D. João III, em 1536.
«Os dicionários de música árabes registam "khadu" com um género de canto melancólico usado não só no Magrebe, mas também no Médio Oriente, sobretudo no Irão e no Iraque, como lamento nostálgico, por ocasião das festas religiosas dos xiitas. Tal música apresenta ao ouvido uma flagrante semelhança com alguns tipos do fado português.
De notar, do ponto de vista fonético, que na passagem para português do som árabe "kh", este se transformou, invariavelmente, em "f". Assim sucedeu, por exemplo, com "alfaiate", "alface", etc.». (pp. 147/148).
E, acrescento eu, na Porta da Alfofa, da Lisboa medieval, que, em árabe, se chamava "al-khawkha".
Ambas citações do livro de Adalberto Alves, acima referido.
(Pode é ser que o fado, de hoje em dia, também apresente influência dessa modinha brasileira).
Certo o que diz, sobre Omíadas e Almorávidas, porém a questão que apontei é que extrapolar a partir daí para a semelhança com persas/iranianos é que me parece duvidoso...
EliminarPara os muçulmanos também nós somos todos infiéis, ou roumis se quiser, e iguais - não nos podem tocar nem ser tocados no Ramadão e se cortarem a cabeça a qualquer um ganham um lugar o no céu! Mas aparte o facto de todos morrermos quando nos cortam o pescoço, nós sabemos bem que um alemão, sueco, português, italiano, francês, inglês, não somos nada iguais!
Portanto um berbere e um persa são óbvia e completamente diferentes, até do ponto de vista da antropologia física com tipos bem vincados e diferenciados, fora a parte cultural, daí que uni-los é a meu ver discutível, compreende o meu ponto de vista? Creio até que logo se desentenderão, como sabe certamente já está a acontecer nos campos de refugiados na Alemanha, com confrontos e agressões entre grupos diferentes, usando pedras e barras de ferro...
É a isso que me refiro.
Saudações cá da Cidade Morena.
Eu também não disse que são todos iguais. Quem os punha todos no mesmo saco eram os portugueses/espanhóis da altura (entenda-se: secs. VIII a XVI).
EliminarUma explicação aos comentários acima: "mouriscos" eram os mouros convertidos ao cristianismo, depois da introdução da Inquisição em Portugal.
«se cortarem a cabeça a qualquer um ganham um lugar o no céu» - isto só é válido para os fundamentalistas. Que não são poucos, como, infelizmente, todos sabemos. Mas também não convém generalizar. Eu tenho vizinhos muçulmanos e nunca me apercebi de que quisessem cortar a cabeça a alguém...
O Brasil grafia está a ser Irã
ResponderEliminarQue ideia boa e bonita!... os meus parabéns ao juiz. É um castigo cinco estrelas.
ResponderEliminarUma ideia Brilhante.
ResponderEliminarE mesmo que façam sinopses, se forem obrigados a falar sobre o livro, é fácil saber se o leram ou não. :)
Bom, confesso que esta coisa do livro como forma de castigo me incomoda. Ainda hoje há professores que mandam os alunos castigados "cumprir penas" nas bibliotecas, como se estas fossem lugares horríveis! :D Até aquele professor que disse uma piada jocosa sobre o Sócrates foi obrigado a passar um tempo como bibliotecário numa biblioteca escolar! Mas pronto, é uma ideia que pode ou não dar frutos. É esperar para ver.
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