Metamorfoses

No mês passado, cumpriu-se o primeiro centenário da publicação de Metamorfose, o livro mais lido de sempre do checo Franz Kafka, que conta a história de um homem que um belo dia acorda transformado em barata (é muito mais do que isto, claro, mas era só para explicar de que metamorfose se trata). Pois bem, apesar de Kafka se ter tornado uma figura de proa da literatura de todos os tempos, e de a cidade de Praga o ter – e à sua pequenina e bonita casa – como um dos ícones que mais turistas atraem, leio num blogue que na Checoslováquia o escritor nunca foi realmente muito lido. Parece que a primeira tradução para checo de Metamorfose (o original é alemão) só se fez em 1929 (o texto teve sucesso nos EUA antes de se tornar conhecido na terra natal) e, como foi levada a cabo por intelectuais anarquistas, isso gerou a ideia de que o seu autor era revolucionário (e era, mas de uma outra maneira); o problema foi que, mais tarde, quando a Checoslováquia se tornou comunista, se passou ao outro extremo, e a obra do mestre, então considerado um reaccionário, foi proibida pela ditadura. Enfim, metamorfoses que não ajudaram nada e que, pelos vistos, apesar de em 1990 se ter criado uma fundação com o nome do escritor, não levaram a que a Checoslováquia faça sequer uma comemoração oficial do centenário deste pequeno grande livro.

Comentários

  1. Eu diria que Kafka não é checo. Nasceu em Praga, sim, mas na altura Praga pertencia ao Império Austro-Húngaro e a família de Kafka era uma família judia que falava alemão.

    No mínimo, os checos nunca sentiram que era um deles. Ao que consta, nem sabia falar checo.

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  2. penso que kafka falava checo - mas considerava o alemão a sua língua materna. sendo judeu, deve ter-se sentido sempre um "estrangeirado". nunca teve fama enquanto vivo (e sendo tuberculoso teve uma vida complicada). não me espanta que a actual república checa não lhe dê grande atenção.

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    1. Todos os países que esquecem o que é boa literatura, conhecida pelo mundo - seja ou não de autótones -, me espantam um pouco.

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    2. também me espanta que países esqueçam a boa literatura - mas não a república checa. "autótones" não sei o que é.

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    3. Tem razão: autóctones

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  3. António Luiz Pacheco4 de novembro de 2015 às 03:23

    Pois é ... ser escritor em regimes repressivos ( de esquerda, direita ou religiosos) "fica difícil"...

    Creio que será mesmo a actividade (junto com o jornalismo que creio estarem intimamente ligados) mais difícil...

    Se é favorável ao regime e abençoado pelos clérigos, vai-se safando... caso contrário, corre riscos!

    Creio que é algo que nos deveria dar que pensar, a liberdade que todavia conquistámos e mantemos em Portugal e na maior parte da Europa, de podermos ser contra ou a favor, de dizer o que pensamos... de escrever o que entendemos ou queremos escrever.

    No entanto há sempre "cruzados" disto ou daquilo a criticar e a tentar condicionar, o que também é verdade como bem sabemos, mas a liberdade mantém-se e quando muito não se é lido por uma ou outra facção e eventualmente ataca-se esse autor ou obra porque se entende que pertence a outra facção, e seja desprezível só por isso!

    Também devíamos pensar nisso!

    Saudações libertárias cá da Cidade Morena!

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