Agustina

Um olhar muito vivo e um discurso calmo mas decididamente desarmante, uma inteligência fina e uma atracção por coisas boas (uma carteira de crocodilo, por exemplo, comprada na Suíça na minha presença – e quanto custou!), são tudo características que recordo da figura. Vi recentemente no jornal que Agustina Bessa Luís fez 89 anos. Talvez pela situação em que se encontra – afectada na sua capacidade criativa por uma doença, tanto quanto sei, irreversível –, Agustina não tem sido muito falada nos nossos meios de comunicação nos últimos tempos, embora não se possa obviamente dizer que já foi esquecida. A verdade, porém, é que, nesta fogueira de vaidades que é o nosso meio artístico, quem não aparece arrisca-se a ser riscado do mapa – e isso seria grave para uma autora como ela. Ignoro se os jovens continuam a ler A Sibila na escola secundária (espero que sim), mas, para quem não teve ainda oportunidade de tomar contacto com a senhora do Norte, essa é talvez a melhor obra para começar; de qualquer modo, Agustina foi relativamente prolífica e não faltarão títulos a que deitar a mão. O que não podemos é esquecer o que escreveu por ela estar de algum modo retirada, pois trata-se de uma das mais importantes vozes literárias do século xx.

Comentários

  1. Não, Maria do Rosário, A Sibila já não faz parte dos programas de Português há muito tempo. Na disciplina (opcional, poucos alunos matriculados) de Literatura Portuguesa cabe ao professor escolher, de entre as obras propostas pelo programa, as que achar que melhor servem os seus propósitos. Os meus alunos leram A Sibila. Claro.
    Creio que, para um leitor de primeira viagem, também se começa bem pelos contos. Aquele universo vicia rapidamente. Depois é ler tudo o resto.

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  2. acho que a Agustina vai ficar, para sempre.

    tem obras intemporais.

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  3. Agustina é uma árvore que as tempestades não abatem.
    E mesmo quando um dia a árvore morrer, o lugar fica. Ocupado por construções, parques ou estradas, sempre se há-de dizer, ali está a Agustina.
    E mesmo que se não leia, mesmo que aparentemente se esqueça, quando a encontramos somos o Ali Babá a abrir a caverna do ouro, somos o pastor que inadvertidamente descobre a gruta que se transformará em local de peregrinação provocando admiração profunda sobre como ‘aquilo’ nasceu e cresceu, somos o agricultor que levanta a enxada e a deixa cair provocando um som cavo ao bater numa arca com um tesouro.
    Agustina não está, Agustina é.
    Cumpre-nos apresentá-la aos nossos filhos e amigos.

    Ps. Continuo a procurar os Aforismos que estão 'na gráfica' há alguns anos... compro mesmo usados, porque mesmo usados são sempre novos.

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  4. Na disciplina de Língua Portuguesa, no secundário, penso que lêem obras escolhidas pelos alunos, de entre uma lista ou não, e o "Memorial do convento".

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  5. Dos grandes, enormes autores portugueses do século XX poucos, pouquíssimos mesmo são falados nos dias de hoje. Veja-se o caso, por exemplo, de José Cardoso Pires. Veja-se o caso de Vergílio Ferreira e dos longos bocejos que provocam os seus livros nas salas de aula.
    De vez em quando há uns ressuscitados como foi o caso, este ano, de Maria Judite de Carvalho, mas... e os outros? Os outros todos (naturalmente que não falo de Saramago!)
    Refiro-me a ficcionistas mais até que poetas.

    Tudo passa, todos passam. Os professores nas escolas têm grandes responsabilidades. Os editores e livreiros e divulgadores da nossa cultura têm todas as responsabilidades em não deixar esquecer tanto valor, tanta qualidade literária!

    Bolo rei seco e esfarelado

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    Respostas
    1. Ah, como é possível bocejar com Cardoso Pires?!?!...

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  6. Completamente de acordo. Sabem… é apenas um sentimento mas.. tenho a sensação que existem escritores que estão irremediavelmente esquecidos. Infelizmente penso que a Agustina é um desses casos.

    Será um dos escritores cujo merecido valor só vai ser reconhecido daqui a muitos anos (ou talvez não).

    Embora já tenham falecido, sinto o mesmo em relação ao José Cardoso Pires (alguém se lembra pelo menos da Alexandra Alpha ?) e ao Diniz Machado (Para além do Molero , o McShade muito acarinhado na Big Apple pelos seus policiais). Não se ouve falar nem nas figuras, nem nas obras. Não entendo.

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  7. Acerca do comentário de Mário Santos, de facto, é revoltante tanto esquecimento, tanto abandono.
    Naquele tempo do século XX, anos 60,70,80,90 a velocidade de informação e publicidade era diminuta comparada com o que é hoje: youtube, facebook, twitter, internet em geral, televisões, rádios, telemóveis, ipad, etc, etc, etc.
    Imagino que se esses escritores vivessem nos dias de hoje talvez não ficassem tão esquecidos, mas isto sou eu a falar e a "esfarelar".
    O que hoje se verifica, falando de mediatismo atribuído a certos "fazedores de livros" (não posso chamar-lhes escritores, não é?) é no mínimo, repugnante e injusto. Fala-se e fala-se e fala-se de assuntos e de livros sem a menor qualidade literária nem coisa nenhuma! Exalta-se a brutalidade, a violência verbal, a desconexão, os desequilíbrios de escrita como se fosse uma grande, moderna e inovadora novidade.
    Ahh! Como é que não se percebe, como é que não se entende que o que vinga, o que fica, o que permanece são outras linguagens?? Como é que isto não se percebe?
    Como é que deixamos cair no esquecimento tanto escritor do passado bem recente?
    Não há direito!!!

    Bolo rei seco e esfarelado

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  8. Vicente Lopes Saudade27 de outubro de 2011 às 10:31

    Agustina, a melhor ficcionista portuguesa viva!
    Sorriso contagiante, apesar da sobriedade.
    Ora vejam...
    http://www.tsf.pt/podcast/files/pet_20080730.mp3

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  9. António Luiz Pacheco27 de outubro de 2011 às 11:00

    Meu Caro Bolo Rei
    (deixo o seco e esfarelado de lado)

    Pegando na sua questão - pertinente no meu entender - sobre porque ou como deixamos esquecer este ou aquele escritor, sempre na minha fraquíssima opinião, creio que a leitura é como tudo o mais que envolva seres humanos... anda ao sabor das paixões do momento, das modas e até de outros interesses... porém sabemos e podemos estar certos de que o que tem valor e qualidade, permanece!

    Por isso chegaram até nós Homero e Virgílio...
    Hoje ninguém liga a Camilo ou Júlio Diniz, como se liga pouco a Agustina e a tantos outros!
    Só existem Saramago, Lobo Antunes, os fenómenos VHMãe e Gonçalo MTavares, o discutível José R. dos Santos... a novíssima Dulce...
    Porque são bons? Ou porque o que escrevem é actual ou agrada a um grupo qualquer que os promove? Porque vendem ou porque são moda?

    O tempo dirá se são bons... e não é no nosso tempo que isso vai acontecer... por isso nem se preocupe nem angustie!
    Continuemos a ler o que gostamos e a falar disso e destas coisas que o resto não vale a pena tentar perceber (se bem que seja interessante analisar e discutir)... são gostos!
    E não me digam que é "cultura" ou "educação", pois que não é!

    Cuidado com as migalhas que no lençol são muito desagradáveis!

    Saudações do campo

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  10. Caro António Luiz Pacheco!

    Angustio, angustio!! Porque há, de momento muitas situações literárias angustiantes! Porque ocupam espaço e ocupam um espaço que, num país realmente cultivado (culto) não ocupariam. Porque este já é um território tão ignorante, de gente tão desinteressante e desinteressada, que tudo custa cada vez mais. E, se as contribuições literárias que vão aparecendo, remetem as pessoas para a total alarvice e grunhice, como é que se pode encarar isto tudo? Que raça de romances são estes que aparecem por aí e que são objecto de culto? Mas porquê? Que raio é que certos editores vêem nestes escritores que mal sabem distinguir formas e ideias, quanto mais! É tornar-nos grunhos à força toda! Dir-me-à, caro amigo: mas isto também é preciso, faz parte, é natural... Acredito que o amigo me diga isto com a sua bonomia campestre mas eu não aguento! Não! Um povo iletrado é um povo submisso. Era preferível ler-se todos os dias um Almanaque Patinhas ou Mickey a ler-se certos romances que , pomposamente, se empilham nas prateleiras das Fnacs. Não se aprende nada! Nem sequer um sonho bom! Ou mau! Mas um sonho!

    Quanto às migalhas, já hoje aspirei o chão domeu escritório 3 vezes porque quanto mais me irrito mais me esfarelo!

    Com licença. Vamos falando.

    Olhe que eu, mesmo torrado e com manteiga ou um pouco de mel sou intragável de rijo!!

    Bolo rei seco e esfarelado

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  11. António Luiz Pacheco27 de outubro de 2011 às 15:05

    Meu caro Bolo Rei (see):
    Bem observado! Mas, não serão essas, não lhes chamaria contribuições e sim fantasias literárias, a que alude, consequência de se ter vulgarizado algo por força da divulgação e até o acesso a uma cultura? Não aquela a que você pertence e reconhece, mas a uma outra?
    E que essoutra cultura que se pode entender como a do momento, é instantânea e como tal até fugaz como tudo o que faz parte desta actualidade moderna, ao contrário de uma mais clássica? Mais clássica mas mais profunda e até filosófica?

    O moderno (actual) é exactamente o ligeiro e o fugaz, num Mundo onde tudo passa depressa?
    Repare que há 10 anos, teríamos esperar pelo correio para esta troca de escritos...

    Definir bom gosto é impossível, porque ele varia tanto que não se pode parametrizar. Pode sim haver alguma concordância entre pessoas que eventualmente tenham gostos até diversos, mas que se unam em volta de coisas essenciais e comuns: Eu e você, alguns de nós que aqui postam, cada um tendo por referências Júlio Diniz e Torga (sabe que caço no mesmo grupo onde ele caçou, no Torrão, onde hoje caça já a quarta geração das mesmas famílias?), e o outro Vergílio Ferreira e José Cardoso Pires? Mas que inegávelmente partilhamos pelo menos uma certa estética e a alma que estes escritores tinham, ao contrário daqueles que hoje nos parece não a possuirem ? Mas que lhes sobra o vedetismo e vontade de exibir histórias que nem são suas nem a elas assistiram, apenas contam e ficcionam? E muitas vezes mal... sim...

    Verne não assistiu nem viu ou visitou nada do que contava, mas tinha algo que o inspirava! E que estes não têm! O mal está no falso sucesso que estes aparentam... na verdade não o têm, só económico e em aparecerem em tudo que é media, porque formaram uma corporação dos alegres e bonitos e felizes... é que os escritores são muitas vezes uns chatos, misóginos que parecem perturbados, imersos nos seus problemas, pensamentos e fantasmas, olhando para si mesmos. Talvez por isso as pessoas gostem mais e leiam mais os outros...

    Será?
    Isto sou eu a discorrer na minha ignorância...

    Saudações do campo

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  12. E os da presença? Régio e Torga: alguém os lê. Os do neo-realismo? Já viram a falta de respeito com que se fala, agora, de Fernando Namora?
    Ferreira de Castro - de cuja escrita nunca gostei - alguém o lê? Mesmo o Aquilino...

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  13. António Luiz Pacheco28 de outubro de 2011 às 04:43

    Meu Caro: Uma boa pergunta!
    Bom, eu li-os! E tenho-os... Leio-os. ainda de vez em quando, confesso, aquelas passagens que me agradam particularmente ou onde vou procurar algo. Sobretudo Aquilino acho-o um dos mestres da nossa língua e incontornável a quem pretenda escrever alguma coisa... para além dos temas que me dizem muito. Claro... detalhe importante!

    Mas faz essa pergunta a quem?
    Aqui aos frequentadores do blog?
    Ou para a "geral"? Para os modernos?

    É que os donos da cultura deste país, que também aqui vêm espreitar de certeza, pensam de uma outra forma e têm horror ao passado e às coisas antigas... mesmo as boas!

    Saudações do campo

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  14. Meu caro António Luiz Pacheco!

    Viva! Um bom dia para si e para os seus javalis que eu também tenho os meus e já hoje os saudei!!

    Estou inteiramente de acordo consigo! Mas, hélas! Sofro! Sofro na mesma apesar de encontrar por aqui, no blogue desta nossa amiga, alguém com quem me entendo.
    Vou vociferar:
    NÃO AGUENTO! Todos os dias vejo as maiores bajulices, há bajuladores oficiais, mais conhecidos pelos "bajulas!" Desses que publicam os tais romances porque até essa altura, a da gloriosa publicação, bajularam até mais não e conseguiram!
    Actualmente, como o ALP diz, vivemos em alegre convívio com as ninharias, as repugnâncias, as escuras literaturas com saídas de romances e livros péssimos! Mais o respectivo chinfrim à volta: tudo vai à televisão falar da sua grandiosa obra, tudo sai nos jornais, há os verdadeiros festivais folclóricos com bandas de música e tudo que constituem um vulgar lançamento de livro. Passada uma semana tudo esquece.
    Mas isto serve a quem? Estes cenários de altíssima indigência cultural, servem a quem? Quem é que ganha com isto? Os leitores? Duvido.
    Voltando à estética: sim, há uma linha comum.
    "Os gostos não se discutem!" ou os "Gostos discutem-se!" Sim! Os gostos discutem-se! Porque a minha linha orientadora e a sua não é a mesma da cabeleireira ali da frente nem da pessoa que nunca leu nada na vida e passou, ultimamente, os olhos de raspão por alguns livros apenas para botar figura. A estética existe e o conhecimento que a estética proporciona são uma realidade. Eu não gosto de quadros com cavalos brancos a correr na fímbria do mar, crinas ao vento, nem gosto de lojas dos trezentos nem gosto dos livros do Paulo Coelho que são os mais vendidos no mundo inteiro. E então? Desconfio de quem gosta destes artigos. Desconfio e PRONTUS! A linha da estética e um puro e assumido elitismo intelectual faz com que eu desconfie desses artigos porque se assim não fosse, era então o quê?

    "Com licença, com licença
    Com rumo à estrela polar" (António Gedeão)

    Este fim de semana, quase de certeza não vou poder vir aqui ao FB.

    Aceite um abraço e uma chávena de bom chá deste seu Bolo rei Seco e Esfarelado

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    1. António Luiz Pacheco28 de outubro de 2011 às 09:42

      Certamente que os gostos se discutem... e é até muito agradável fazê-lo, quando se discutem com argumentos esclarecidos, de quem gosta pelas razões que sabe e não de quem gosta porque sim!

      Aliás é por isso - sem bajulações - que me é tão agradável vir a este blog!

      Um bom fim de semana para si e para todos!

      Vou andar entretido a juntar lenha com a minha malta que vem ver o irmão/pai/tio e a provar água-pé!

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