Irmãos na desgraça

Já aqui aludi a um acontecimento dedicado às letras a que recentemente assisti na Cidade da Praia, em Cabo Verde. O convidado especial era, nesta primeira edição da Festa da Palavra, o Ceará, e – para falar com franqueza – não tinha ideia nenhuma de que havia uma afinidade entre este Estado brasileiro específico e o arquipélago, mas parece que é até bastante antiga. Aprendi, aliás, uma enormidade de coisas numa palestra muito interessante proferida por Simone Caputo Gomes, professora universitária em S. Paulo e especialista em literatura cabo-verdiana, sobre a irmandade das duas culturas. É que, tanto no Nordeste brasileiro como em Cabo Verde, a seca é recorrente, e os romances e poemas de ambos os lados do Atlântico (o Ceará é o estado brasileiro mais próximo do arquipélago) reflectem sobre essa circunstância e, pelos vistos, de forma muito obsessiva. Simone quis até citar uma canção cearense que bem podia ter sido escrita por um autor cabo-verdiano para ilustrar as parecenças. Porém, como o jovem que apoiava a sessão no auditório não percebia grande coisa de informática e trocava sistematicamente a peça musical pela música do próprio telemóvel – gerando umas gargalhadas –, a professora cansou-se e cantou ali em directo a canção Asa Branca sem inibição e com aquela graça que os brasileiros têm quando cantam. Foi um sucesso!

Comentários

  1. Maria do Rosário, parabéns pelo seu blog e um obrigado pelas curiosidades e sugestões de leitura que publica.

    Em 2012, gostava de ver anunciado um livro meu no seu blog... Como lhe posso fazer chegar o meus textos, para que os possa avaliar?

    Feliz 2012!!!! Continuação de boas leituras!!!!!

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  2. Irmãos na desventura somos tantos, aqui no mais extraordinário blog da net, mas nem por isso nos deixamos abater!

    Um bom ano para todos e que reencontremos as coisas que nos façam felizes, sem ser dinheiro!
    Para já, vão às estantes e procurem os livros que não leram, os que já leram há muito, ou os de que gostam e releiam-nos! Acabei ontem de reler o Lituma nos Andes! valeu a pena, 20 e tal anos depois...

    BOM ANO cá do campo, o meu há-de passar-se à lareira... pelo menos tenho calor.

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  3. Eu nunca fui ao Brasil, o meu pai já e até sabe bastante sobre o país. O Ceará, ao contrário do que se pensa, tem terras fenomenais, o que ainda aumenta a frustração trazida pelas secas recorrentes. Para além da seca, a região dificilmente se pode considerar um "estado" de direito, a relação policia km2 é ridícula , como ridículos são os inúmeros exércitos pessoas de figuras semi-mafiosas que ainda são reverênciadas pelo povo.

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    Respostas
    1. Ííííítááá!
      Uma sugestão a propósito deste post:
      - A descoberta do Ceará e do Brazil, um outro que não o do carnaval e das praias... e há tanto escritor brasileiro que vale a pena ler!
      Quase todos têm aquela que eu no meu enorme atrevimento de ígnaro diria que é a capacidade dos escritores Sul-americanos de escrever para os outros, de contar histórias, baseadas quer na sua espantosa capacidade de ver a realidade das coisas quer de transmitir personagens fabulosos!
      Não falam dos seus fantasmas e depressões ou fantasias deprimentes e até mórbidas! Trazem-nos situações e personagens vivos e reais que nos fazem rir, apaixonar, odiar... enfim, viver!

      Conhecem o Pau-de-arara " cantado por Zélia Barbosa (coisa de anos 60/70)? Podia ser o hino do Ceará! Conta a história do Zé-Cum-Fome
      que veio lá do seu Ceará e passou a dançar o
      xaxado " pr'a lá e p'ra cá, vendo aquela gente
      no come-que-come...
      Vale a pena ouvir... e ler, sobre os coronéis e jagunços.

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  4. A propósito da afinidade entre o Ceará e Cabo Verde, no que concerne ao tema recorrente na literatura _ a seca _, registo os romances Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e Flagelados do Vento Leste, de Manuel Lopes.

    António Breda Carvalho

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  5. A propósito, transcrevo uma passagem de um poema de Jorge Barbosa que eu li, no mês passado, num blog brasileiro chamado 'Brasil & Caboverde', http://brasilcaboverde.blogspot.com/2011/11/voce-brasil.html :

    '...
    Você, Brasil, é parecido com a minha terra,
    as secas do Ceará são as nossas estiagens,
    com a mesma intensidade de dramas e renúncias.
    Mas há no entanto uma diferença:
    é que os seus retirantes
    têm léguas sem conta para fugir dos flagelos,
    ao passo que aqui nem chega a haver os que fogem
    porque seria para se afogarem no mar...

    ..."

    Concordo com a indicação dos livros acima referidos, nomeadamente, 'Nós Somos os Flagelados do Vento Leste', de Manuel Lopes, aproveitando para referir também o pungente poema com o mesmo nome, 'Nós Somos os Flagelados do Vento Leste', de Ovídio Martins.

    Olinda

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  6. Obrigada pelo elogio, Maria do Rosário. Sou sua leitora.
    Abração,
    Simone Caputo gomes

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    1. Olá Simone... apesar de tudo você está bem longe do Ceará! Conhece a minha amiga Lúcia Helena da Silva da CETEC educacional e da escola Nênê da Vila Matilde?

      Saudações cá deste lado do Atlântico!

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