Os três males

Uma das coisas boas na vida de um editor é conhecer autores inteligentes e interessados que nos ensinam coisas e passam boa informação. Há algum tempo, o Nuno Camarneiro, autor de No Meu Peito não Cabem Pássaros, publicado em Junho, enviou-me um link para o segmento de uma longa entrevista a Gilles Deleuze sobre cultura no qual ele falava de literatura e edição. Antes de mais, foi um consolo saber que um homem como ele acreditava que, apesar de a cultura e a educação estarem a viver um péssimo momento em todo o mundo, quase a baterem no fundo, isso não queria dizer que não fosse possível suceder-lhe um período rico (o Renascimento sucedeu, afinal, à Idade Média). Mas o que mais me fascinou foram os três males que apontou para que as coisas tivessem chegado ao ponto a que chegaram no mundo das letras: 1) Que os jornalistas se tivessem posto a escrever livros (Deleuze dizia que sempre houve escritores jornalistas, claro, mas que muitos dos que hoje publicam livros não são, realmente, escritores). 2) Que, em parte por causa disso, toda a gente achasse que podia escrever um livro (não podia estar mais de acordo: o talento tem de ser a excepção, e não a regra). 3) Que a relação entre o livro e o leitor passou a ser, infelizmente, mediada pelo ponto de venda, que subverte tudo, porque precisa de facturar – e depressa –, devolvendo livros aos editores que ainda não tiveram tempo de se afirmar no mercado e obrigando os editores a produzir um número de novidades muito superior ao razoável e, por isso, de qualidade muitas vezes duvidosa. Muito bem, monsieur.

Comentários

  1. MRP:
    Vivemos os efeitos de «um tempo detergente», em que cada momento incessantemente procura «lavar mais branco» do que o anterior.

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    1. Tempo detergente e também, se me permite, tempo laxante: a trampa editorial sai em catadupas e sem dor, porque já vem muito diluída.

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    2. Prof. Manoel dizer-vos-ei que em todos os tempos fora de apropriada tonalidade como para cada instante.

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  2. Fala de "a cultura e a educação estarem a viver um péssimo momento em todo o mundo, quase a baterem no fundo", a que se lhe poderá suceder "um período rico". Como exemplo, chama a atenção para o facto de o Renascimento ter sucedido à Idade Média.

    Só quem não tem conhecimento de causa pode dizer que a Idade Média foi um momento em que a cultura e a educação bateram no fundo. Nada mais falso!

    A cultura medieval é riquíssima. Ofereceu-nos, por exemplo, livros maravilhosos, com ilustrações sensacionais. E que dizer das catedrais góticas, verdadeiras maravilhas arquitectónicas? Além disso, foi um rei medieval que estabeleceu o Português como língua oficial, no nosso país, contribuindo para o seu desenvolvimento e uniformização.

    Isto só para dar três exemplos...

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    1. Tem razão, evidentemente, e peço desculpa pela precipitação; mas os livros sem a invenção renascentista da imprensa eram, de qualquer modo, para muito poucos e quase sempre para os mesmos.

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    2. É verdade. E no Renascimento deu-se, sem sombra de dúvidas, uma explosão cultural. Por acaso, estive, a semana passada, em Magdeburgo e, na Sé Catedral, havia uma exposição muito interessante sobre a Bíblia ao longo dos tempos, com representações lindíssimas de páginas de Bíblias medievais. Claro que não faltava a invenção da imprensa pelo Gutemberg. Até lá estavam uns jovens com uma prensa igual à dele, a imprimir uma passagem da Bíblia, que se podia trazer como recordação (também trouxe).

      Mas isso de dizer que na Idade Média não houve cultura, hoje em dia, não passa de um cliché. E foi para isso que quis chamar a atenção.

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  3. Não podia estar mais de acordo.
    Acrescentaria apenas que, por vezes, as editoras também não ficam muito bem no retrato. Promovem até à exaustão livros de qualidade mais que duvidosa, apenas pelo mediatismo do escritor (?) em causa, enquanto algumas novidades verdadeiramente interessantes, passam quase despercebidos, não tendo, nem de longe, a mesma promoção. Enfim, é assim uma espécie de pescadinha com o rabo na boca, em que a necessidade de faturar , (mais que necessária, aliás) subverte um pouco os critérios que deviam presidir à edição dos livros.

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  4. Fiquei surpreendida com este seu post, acho a opinião de GD absurda e tipicamente corporativista. Penso que o ponto 3) resume perfeitamente a questão, podendo incluir o que de mal têm os dois pontos anteriores, que só por si são absurdos de tão simplistas. O problema não é “toda a gente”, nomeadamente “os jornalistas”, achar que pode escrever um livro, o problema é precisamente as editoras quererem facturar, e depressa, e por isso valorizarem tanto as caras mediáticas na contracapa, em desfavor da qualidade dos livros. Toda a gente pode achar que tem condições para escrever um livro, sim, os editores é que têm que ter qualidade e independência para escolherem aqueles que devem ser editados. E no limite, todos os livros podem ser editados, sim, desde que sejam lidos e proporcionem o prazer (ou simplesmente o interesse) que lhes é característico. Devem é ser editados e promovidos de forma diferente, tendo em conta os vários públicos a que se destinam. Até porque toda a gente tem direito a tirar prazer de um livro, e infelizmente, nem toda a gente é inteligente, ou culta ou tem um gosto literário refinado. E se só se vendem os “maus livros” não é tanto por culpa dos “maus escritores” mas de quem não promove, ou promove mal, os “bons livros”. A cada um o seu papel, a sua responsabilidade. Porque não trabalharem mais com as escolas, com as faculdades, darem a conhecer os bons escritores de formas inovadoras e mais próximas das pessoas que os poderão ler? Os pontos de venda têm as costas muito largas, e o esmero, a iniciativa e a humildade dão muito trabalho... É pena.

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  5. Não podia estar mais em desacordo. Deleuze não tem qualquer razão ou está a ser citado fora de contexto. O facto de haver jornalistas que escrevem livros não tem significado. Eu preferia ser escritor profissional, mas tenho de ser jornalista de profissão e escrever ficção nos tempos livres. Como sabe, a nossa literatura não sustenta os seus autores.
    Julgo que o problema está mal colocado no post . Não havendo leitores, não há escritores profissionais, ou haverá poucos. E temos de nos interrogar sobre o afastamento entre leitores e livros (culpa certamente dos media, mas também dos editores, que gostam de um certo tipo de literatura).
    Antes de ser profissional, qualquer escritor é amador.
    Falando dos escritores amadores: não há nenhuma ligação entre talento e a profissão dos que escrevem. Há advogados talentosos, médicos talentosos, estudantes talentosos, jornalistas talentosos. Também há tudo isto medíocre.
    Acho também que o seu post só produz uma reacção de preconceito: este é um jornalista armado em escritor, nem vou ler.
    Segundo adianta a Maria do Rosário Pedreira, Deleuze reconhece que sempre houve jornalistas escritores (e sempre houve escritores-jornalistas ). Em Portugal, é muito longa a tradição. Trabalho no Diário de Notícias, onde em nenhum período dos últimos 140 anos houve menos de quatro ou cinco jornalistas-escritores ou poetas. No seu raciocínio, José Saramago (que foi director adjunto do DN) jamais teria publicado. Podia dar outros exemplos.
    Para chatear Deleuze , de franceses, cito apenas Camus . Em Itália, na redacção do Corriere della Sera julgo que ainda existe a secretária onde trabalhava Dino Buzzati .
    Nos EUA, Rússia ou Brasil, alguns dos melhores autores foram também jornalistas, Vassili Grossman , por exemplo.
    Cumprimentos
    Luís Naves

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  6. Na realidade as palavras exactas do Gilles Deleuze são "quando os jornalistas se apropriaram do formato livro". Mas o melhor é deixar o link para quem quiser ver (a partir dos 9 mins):

    http://www.youtube.com/watch?v=ULvc2FGT8Rw&feature=related

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    1. segui o link e vi o vídeo, de facto magnífico. No fundo, GD fala do empobrecimento da literatura pela escrita jornalística, ou seja, dos jornalistas escreverem livros como se escrevessem artigos de jornal.
      Tem razão, é óbvio. Não é a mesma coisa.

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    2. Olá Nuno,

      Seria indelicadeza pedir-te se podias ceder o link da tua entrevista? Fiquei curiosa.

      Obrigada

      Mafalda M.

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    3. Cara Mafalda, tudo o que aqui foi falado provém de uma conversa informal e não de qualquer entrevista. Se se refere ao meu livro deixo-lhe o link para uma entrevista dada ao programa "À Volta dos Livros" da Antena 1: http://ww1.rtp.pt/programas-rtp/index.php?p_id=2499&e_id&c_id=1&dif=radio&hora=03%3A12&dia=14-09-2011

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    4. Obrigada Nuno, vou ouvir com atenção.

      Tratei-te por tu porque estudamos no Liceu no mesmo ano, tinhamos muitos amigos em comum, cruzamo-nos umas tantas vezes, apenas por isso só quando vi a tua resposta me lembrei que não devias saber quem era, não foi por falta de respeito.

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    5. Nem tinha notado, usei a terceira pessoa na resposta por hábito. Um abraço, Mafalda.

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    6. mas no nosso país, acho que foram mais os editores que se aproveitaram dos jornalistas da televisão e de outras figuras públicas, que aceitaram fingir que tinham escrito um livro, que os jornalistas do formato livro, Nuno.

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  7. Não poderia estar mais de acordo. Deleuze é uma mente impar, sem dúvida (ando a ler o MILPLANALTOS , o último da trilogia ).

    Gosto da inteligência e da forma rizomática do mundo de Deleuze .

    E é uma opinião concertada no seu estilo de pensamento.
    Chapeau e já agora chapeau ao seu blog e aos seus post e às suas respostas aos comentários que venho seguindo faz algum tempo

    Parabéns :)

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  8. Estou quase de acordo com o Deluze se fizermos excepção para o Miguel Delibes,um maravilhoso escritor que foi jornalista. Já agora sobre o Mrs. Dolloway e a VWolf, conheces a Josephine Hart? Se não experimenta e, para quem quiser ler em inglês eu tenho vários em paperback, posso enviar pelo correio. É uma escritora arrebatadora.
    Um abraço
    Teresa

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  9. Intrigou-me uma observação sua no post, quando diz "o talento de ser a excepção, e não a regra". Tem de ser? Não vejo razão para que "tenha de" ser; apenas sucede que, pelo que nos é dado conhecer, tem sido assim. Posso ousar pedir-lhe que partilhe por que razão é necessário que o talento seja excepção? Grata.

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