Clarissa, meu amor
Dificilmente encontrei entre as minhas leituras um autor mais visionário e moderno para a sua época do que Virginia Woolf. E os seus romances são talvez os únicos em que os pontos de exclamação espalhados pelas páginas nunca me incomodaram. É absolutamente fantástico pensar hoje que Mrs. Dalloway – a obra aonde Michael Cunningham foi beber para escrever o também extraordinário As Horas – foi escrito em 1925! (E aqui a exclamação é minha, e justifica-se.) Pois bem: a senhora Dalloway desta imperdível obra-prima é Clarissa, que começa o livro a comprar flores para mais uma das suas muitas festas (à qual não faltará sequer o primeiro-ministro) e o termina aparecendo junto a um convidado muito especial – Peter Walsh, o homem que se apaixonou por ela na juventude e, apesar de preterido por Richard Dalloway, nunca deixou de a amar um único minuto da sua vida (com tudo o que ela tem de snob e detestável, o que é ainda mais engraçado). Entre o primeiro e o segundo momentos, existe, porém, um tempo que contém tudo: as memórias, a crítica implacável, os efeitos da Primeira Guerra Mundial, a relação da Inglaterra com a Índia, o fosso entre as classes sociais, enfim, um sem-número de questões, dramas e análises impiedosas numa escrita que parece por vezes quase automática, mas que é de extraordinária inovação ainda hoje. Uma das coisas melhores nos bons autores é que nunca envelhecem, e o caso de Woolf é paradigmático.
Bom dia,
ResponderEliminarcomo leio este blogue post a post com grande prazer, hoje sinto-me motivado a dar a minha opinião, visto Virginia Woolf ser umas das escritoras preferidas de sempre.
A minha obra favorita: As Ondas. Foi-me difícil orientar na leitura deste romance com seis vozes de personagens na primeira pessoa como método de narrativa, enredo, passagem do tempo, etc. Dá ao leitor o trabalho todo. Um livro que se lê com suor e estafa, salvo o exagero. Dá-nos luta, não facilita. Gosto de livros assim.
E notamos influências de V. Woolf em muitos escritores da atualidade, como por exemplo António Lobo Antunes embora em cada livro que escreva se note menos. Há muito que ALA se tornou por assim dizer, único.
É bom lembrar Virginia Woolf. E quem tem medo de Virginia Woolf? Espero que ninguém.
Grato por este blogue - um verdadeiro cantinho de boas sugestões.
Um bom dia para si.
Atentamente,
Carlos Teixeira Luis.
Nunca li nada da Virginia Woolf mas se há semelhanças com a escrita do António Lobo Antunes então já fico de pé atrás....é que do António Lobo Antunes não consigo, actualmente, ir além da página 20; contudo, curiosamente, lembro-me que quando sairam os 3 primeiros livros dele (Memória de Elefante, Conhecimento do Inferno e os Cus de Judas) os li de enfiada e com muito prazer, mas actualmente é escusado...é "muita fruta" para mim, ainda não consegui...
EliminarConcordo totalmente consigo, os bons autores são intemporais. Para além dos belíssimos romances que escreveu , destaco um livro que me é muito querido. Trata-se de "Um quarto que seja seu". Li-o era ainda muito jovem e considero-o um dos livros que mais me marcaram e que, estou certa, foi fundamental na minha formação.
ResponderEliminarGosto muito de usar os pontos de exclamação!
ResponderEliminarQuiçá, porque tudo, ou quase tudo, ainda me surpreende!
Então, permita Sr. Simão Gamito ouse e use!
EliminarOrlando...
ResponderEliminarAs Ondas e Orlando são as obras de V Woolf que conheço. Muito bons, quase sem aquele filtro dos autores. Genuíno. E consegui ler estes dois com a voz de Maria Callas no fundo, baixinho...
ResponderEliminarNunca li Mrs. Dalloway, mas fiquei com vontade!!