Os livros que somos

Enquanto me dedico a apreciar originais com vista à publicação, consigo dizer com relativa facilidade quais pertencem a autores que lêem e quais são escritos por gente que escreve sem ter lido. Em alguns casos, garanto, é até possível identificar algumas das leituras de um autor pelo que escreve (e não estou a falar de influências explícitas). Mas – escritores ou não – todos somos aquilo que lemos, pois os livros são como gente com que nos cruzamos ao longo da vida (e gostamos de uns mais do que doutros, mas todos são determinantes para o que nos tornamos). Não me tinha, porém, ocorrido essa fantástica perspectiva de Manuel António Pina numa crónica recentemente publicada na revista Notícias Magazine: a de que, curiosamente, também somos aquilo que não lemos; no seu artigo, Cavaco era, por exemplo, os livros todos de economia que lera, mas também Os Lusíadas que nunca lera – e acho que tem razão o nosso mais recente Prémio Camões. O pior é que agora, quando olho para as minhas estantes, descubro que sou imensa coisa que nunca me tinha passado pela cabeça (ou pelos olhos).

Comentários

  1. ‘os livros são como gente com que nos cruzamos ao longo da vida’: diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és…
    Concordo plenamente. Revisitamo-los como amigos que são ou como partes de nós que já fomos e, por isso mesmo, seremos sempre, em maior ou menor medida. Há livros que se nos colam, personagens que permanecem e que, por amor ou ódio, vivem connosco, numa lembrança nunca apagada e que, quantas vezes, sobressai nas nossas atitudes ou palavras.

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  2. Um autor não é só os livros que leu e os que ainda não leu. Um autor é também a vida que viveu e a que lê nos outros.

    Barrius

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  3. Então no tempo do presidente ainda não era obrigatória a leitura dos Lusíadas? Eu tive que os ler e dividir as orações todas daqueles cânticos todos (Isto antes do 25 de Abril). Talvez por isso e com alguma pena, hoje não sou capaz sequer de olhar para o Camões que tenho na prateleira.

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    Respostas
    1. Pelo que li, há uns anos atrás, ainda o dr. Cavaco era 1.º ministro, o percurso académico foi um pouco diferente do usual para quem conseguiu a licenciatura nesses tempos.
      O usual era, relembro, a frequência do liceu até ao 7.º ano (atual 12.º) e ingresso na faculdade.
      O dr. Cavaco frequentou um curso técnico (curso comercial) e daí passou ao ensino politécnico (Inst Comercial), ingressando na faculadade diretamente no 3.º ano do curso.
      Os cursos técnicos de antigamente eram cursos com uma componente prática muito forte, com equivalência ao 5.º ano do liceu (atual 9.º ano).
      Havia o Curso Geral de Comércio, para a formação de contabilistas; e havia os cursos industriais, para a formação de eletricistas, radiotécnicos, técnicos de laboratório químico, serralheiros, construção civil, etc.
      Havia ainda na área das artes, os cursos de formação de pintores, escultores, artistas gráficos.
      Muita gente tirou esses cursos e puderam ingressar diretamente no mercado de trabalho como trabalhadores qualificados e razoavelmente pagos. Muitos dos fundadores das PME mais conceituadas tiveram essa formação e chegou para singrarem com segurança.
      O curriculo desses cursos era, até à reforma Veiga Simão, no 1.º e no 2.º ano, uma cadeira de Português, outra de Francês, Matemática, e 2 ou 3 de introdução à matéria do curso. No 3.º ano, só havia matérias do curso.
      Eu, que tirei um curso de analista químico na EScola Industrial Infante D. Henrique, no Porto, tive durante os 3 anos do curso, parte do dia ocupado com aulas práticas de laboratório (4 horas por dia). Quando acabámos, uns seguiram para o Instituto Industrial (hoje, Instuto Superior de Engenharia) e daí para a faculdade de Engenharia; outros, a maioria, ingressaram logo no mercado de trabalho (saídas mais correntes: laboratórios da Sacor (GALP), da Robbialac, da Nestlé, etc., para a área de controlo de qualidade).
      Voltando à ausência das Lusíadas no currículo do dr. Cavaco -- a Língua Portuguesa que ele estudou deve ter ficado por um estudo mais abreviado e elementar (não me lembro de ter estudado algum escritor em particular).
      Daí algumas lacunas, alguns lapsos, pois a formação do dr. Cavaco, na área de Humanidades não deve ter sido muito aprofundada. E nem ter casado com a dra. Maria Cavaco, ao que julgo ex-professora na faculdade de letras da UL, lhe valeu.
      Só para acabar -- foi uma pena terem acabado com os referidos cursos que davam acesso direto ao mercado de trabalho em condições vantajosas (os empregos existentes eram razoavemente pagos) e não impediram ninguém de prosseguir para os graus de ensino imediatos. A reforma Veiga Simão (início dos anos 70) "acabou" com a qualidade desses cursos porque lhes vieram introduzir cadeiras de história, geografia, ciências naturais,etc., e tiveram que cortar nas aulas práticas. Daí para a frente os formandos tiveram um currículo ± idêntico ao liceu. Pensaram, e pensaram mal, que assim ficavam mais equiparados aos alunos do ensino liceal.
      Hoje tentamos recuperar esses cursos de formação pois o nosso mercado precisa desses técnicos médios (e não os há). Em contrapartida, avançámos para as licenciaturas em massa e verifica.se que o mercado não consegue absorver tanto licenciado.
      Como dizia, há uns dias atrás, o reitor da Universidade de Coimbra -- não basta o canudo, é preciso saber.

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  4. Acredito que cada escritor é um cadinho poisado em lume crescente, onde recrudescem constantemente todas as palavras que já leu e viveu, suponho que não poderá nunca ser de outra forma. O talento depois, reside em conseguir instrumentalizar essas influências de uma forma que lhe seja própria, original. Por estranho que me pareça dize-lo, alguns dos meus melhores amigos, são livros.
    http:/ neomiro.blogspot.com /2011/08 amigo.html

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