A sorte grande

Leio tantas coisas más e sofríveis ao longo do ano à procura daquela que fará realmente a diferença que considero ter ganho a sorte grande na escolha do pacote de livros que levei comigo para férias, pois fui acertando título a título (como se de algarismos se tratasse) até ver desenhado o número premiado. Sorte pura, pois os avisos da crítica nem sempre se casam com o nosso gosto pessoal. No monte, uma obra-prima que seria um festim para Almodóvar, se ele gostasse de basear os seus filmes em textos alheios. Rabos de Lagartixa, de Juan Marsé – o autodidacta (julgo que fazia jóias) que se tornou um dos maiores escritores espanhóis contemporâneos –, é notável a vários títulos, entre os quais a composição do protagonista, o genial David, de catorze anos, que adora vestir-se de rapariga e colecciona rabos de lagartixa com vista a curar as hemorróidas do seu amigo Paulino, aprendiz de barbeiro a quem o destino prega bastantes partidas. Passado no mesmo ano em que os Aliados lançaram as bombas atómicas, numa Barcelona refém do racionamento e vítima dos esbirros de Franco, a história – não se assustem – é contada por um feto (o irmão de David a quem este não raro chama rãzinha peluda, girino ou verme nojento e que manda agarrar à placenta quando quer pregar um susto à mãe) e inclui um leque de personagens que se agarram a nós para todo o sempre, entre vivos e fantasmas (sim, também há alguns). Francamente imaginativo, mas sem nunca perder o pé ao que realmente interessa, este romance, publicado originalmente em 2001, ganhou os principais prémios literários de Espanha e um lugar muito especial no meu coração.

Comentários

  1. Já anotei a sugestão. Ou muito me engano ou é mais uma pérola a juntar às muitas que já aqui conheci . A mais recente das quais, um Copo de Cólera, verdadeiramente preciosa. Obrigada.

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  2. Quando leio estas sugestões todas apetecíveis, mais me convenço que por muito tempo que passasse a ler nunca conseguiria ler os livros todos que gostaria durante a minha vida. Que pena...
    Isabel C.

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  3. Já o tinha dito. Quando se lê estes textos, breves, sucintos e eficazes é uma delicia. Mais importante do que isso é a paixão com que fala acerca dos temas ou livros que gosta.

    No entanto tenho uma dúvida. Não estou a ser irónico. Perdoem-me a ignorância Mas o que é um escritor autodidacta? (Marsé era aprendiz de Joelheiro !) É possível darem-me um exemplo de um ou dois escritores não autodidactas?

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    Respostas
    1. Percebo a questão, claro. Em relação ao ofício da escrita, todos os escritores são de certa forma autodidactas. Mas o termo refere-se sobretudo a pessoas que não estudaram, que não foram à universidade, que vieram de profissões mais ligadas ao manual do que ao intelectual.

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    2. Obrigado pela resposta. Entendi. Sinceramente imaginei que estivesse relacionado com isso, fiquei com curiosidade.
      Comecei a pensar em alguns nomes da literatura que eu aprecio, e uma boa percentagem encaixa-se nessa condição. Embora alguns possam ter frequentado temporariamente uma formação superior, não foi isso que fez com que as suas obras sejam magníficas (na minha modesta opinião). Meros exemplos:
      O grande Céline ; Kerouac; O grande Cervantes; O grande Philip K. Dick; O grande F. Scott Fitzgerald; Ernest Hemingway; Gorki e o grande William Faulkner(Bancário, carpinteiro, pintor de paredes e chefe dos Correios )

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  4. Li este livro na Primavera, quando ele saiu, e adorei-o! É de facto uma das pérolas das minhas leituras deste ano.

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  5. Reconheço a começar por mim o sintoma de discriminar uma obra pelo título, então diante deste depoimento de MRP é facto recobrar a importância em dismistificar o que parece ter a vestimenta a encobrir vulgarmente em relação a um bom escritor.

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