Contradições
Estive há poucos dias em Cabo Verde numa feira do livro – a Festa da Palavra – em representação da Leya e a convite do Ministério da Cultura de Cabo Verde. Era uma feira relativamente pequena numa rua do centro da Cidade da Praia, o chamado Plateau; e, apesar de haver bastantes alunos de escolas secundárias nos colóquios que paralelamente se realizavam na Biblioteca Nacional, a verdade é que no recinto da feira não se via muita gente a comprar (nem mesmo a ver) e a quantidade de títulos disponíveis de livros «locais» era bastante reduzida (havia sobretudo autores considerados clássicos, muitos deles também publicados em Portugal, e livros de ensaio apoiados por organismos oficiais, mas nada de realmente novo). E, porém, 98% da população do arquipélago é alfabetizada, o que podia significar muitos potenciais leitores. Mas não: ou porque os livros são caros, ou porque não há ainda uma cultura da leitura, nem sequer na escola, os cabo-verdianos não compram nem lêem livros com regularidade. Aparentemente uma contradição, esta situação mostra que ter os instrumentos não chega para ser leitor. Porventura, faltam ainda incentivos – como o do preço acessível e a constituição de bibliotecas escolares – e o estímulo que as famílias de não leitores e os professores sem hábitos de leitura ainda não conseguiram dar.
Disse bem… o casamento entre ‘famílias leitoras’ e as bibliotecas escolares é a plataforma para a constituição de leitores: em casa fomenta-se a fome, esfomeia-se a criançada desde o berço e na rua dá-se-lhes de comer no ‘restaurante’ principal da escola, a Biblioteca. É em casa, com o gatinhar, os primeiros passos, a passagem das papas para os comeres sólidos e todas essas coisas que se criam leitores e dificilmente com programas que caem em cima da cabeça de crianças e adolescentes que olham o livro como objecto de decoração do móvel da sala. E depois de se ter o vício... haja dinheiro e mais Bibliotecas!
ResponderEliminarSim, é estranho e contraditório, os africanos que adoram contar e ouvir histórias (têm uma tradição oral fortíssima), são grandes adeptos do teatro, todos representando bem e diria que expontâneamente. Todavia lêem pouco!
ResponderEliminarCreio que uma das causas pode estar no preço e acessibilidade dos livros! Ainda há pouco pude verificar que numa grande cidade como Luanda, além da escassa oferta são estúpidamente caros, chegando fácilmente aos 40 e 50 euros! Os mesmos romances que custam por aí 20, 25...
Ora, quem tenha dinheiro (a elite dos negócios) está direccionada para roupas e acessórios, ou plasmas, aparelhagens e carros, não tem nem liga a cultura, e são de uma ignorância tão grande quanto a sua toleima, festas e discotecas são a sua meta.
A escassa classe média, onde estão potenciais interessados na cultura, não pode comprar livros tão caros!
Depois a imensa classe mais baixa... essa sobrevive apenas e não tem tempo nem forma de lhes chegar, e segue de longe os passos da tal elite a que aspira, não da classe média. As secretárias, assistentes, administrativas ou recepcionistas, vindas dos musseques, que já passaram fome e vinham de chapa para a escola de secretariado, onde aprenderam a usar desodorizante e calças justas com sapatos de salto, não têm objectivos culturais! Garanto...
Mesmo tendo encontrado quem escreva poesia, de universitários a um motorista, não existem hábitos de leitura.
Muitos jovens fazem teatro em grupos amadores ou de universitários, cantando e dançando com uma qualidade que me deixou espantado!
Mas não lêem... em compensação, mesmo nas cidades ou vilas do interior, usam pc, internet, e aquelas coisas Ipods e phones e não-sei-o-quê com desenvoltura, e, recorrem à net com frequência para obter informação (mas sem terem "crivo" é normal que esta seja deficiente) o que julgo ainda menos desenvolve o hábito da leitura.
Creio que as necessidades do corpo ainda se sobrepõem...
Não desfazendo da tradição oral, importantíssima, uma grande marca da cultura africana (nunca esquecerei aquelas cenas da série "Raízes"), talvez ela seja precisamente o "problema".
EliminarA nossa cultura "ocidental" aprendeu a respeitar a palavra escrita há milénios. Trata-se de uma tradição que começou com as tábuas dos Dez Mandamentos. Aliás, os muçulmanos consideram as religiões judaica, cristã e a própria como "religiões do livro". Mesmo que se tivessem passado muitos séculos em que o analfabetismo rondava os 98%, sempre se respeitaram aqueles que sabiam ler e escrever e lidavam com livros (ou rolos de papiro, na Antiguidade).
Claro que a tudo isto, há a acrescentar, no caso africano, a era do consumismo e da "cultura fácil e pindérica". Os africanos passaram directamente da tradição oral para o consumismo dos nossos dias.
Poder-se-á dizer que isto representa mais um dos estragos do colonialismo?
E, por muito que amemos os livros, tentar convencer os africanos a ler não será mais uma atitude de tipo colonial, ou seja: "nós é que sabemos e compete-nos missionar-vos"?
"os cabo-verdianos não compram nem lêem livros com regularidade"
ResponderEliminarMas qual é o povo que compra e lê livros com regularidade?
É uma pergunta, sinceramente não sei.
Contudo, apercebo-me que os Ingleses querem é cerveja, ainda não há muito tempo, a mulher do futebolista David Beckam, não me lembro agora do nome da galinha, confessou que não lê absolutamente nada, nem se lembra de quando leu um livro porque tem falta de tempo (esta da falta de tempo é a desculpa que ouço a todos os que não lêem). Os Franceses não me parece que leiam, idem para os espanhóis, brasileiros, argentinos, italianos... sim porque não são só os portugueses que não lêem.
Por exemplo, no prédio onde vivo (12 condóminos) apenas um lê alguma coisa, os outros zero mas absolutamente zero, nem sei se alguma vez leram um livro. É um sintoma, creio que universal e de todos os tempos!
Caro ASeverino
EliminarPeço-lhe que visite as bibliotecas públicas em qualquer arredor ou subúrbio londrino e constate que têm vários andares, escadas rolantes no interior e que as pessoas não se importam de estar nas filas para levar livros emprestados para casa. O mobiliário é velho porque os gestores destes serviços preferem comprar livros em vez de ter estantes estilizadas e agradáveis à vista, e porquê? Porque têm clientes.
Um dos critérios para determinar os índices de leitura é o da leitura de periódicos diários: a Finlândia, a Suécia e a Alemanha levam as medalhas e, para termos nível de comparação, a nível da circulação de diários por mil habitantes, quando em Portugal era de 91 exemplares, na Noruega era de 705! Considerável a diferença, verdade?
Há povos que compram livros e se entregam à leitura com regularidade. Se os preços são outros, se a cultura de base, de raiz, é outra, não discuto, mas lá que se lê, não há dúvidas. Lê-se novo, usado, emprestado, lê-se tudo, coisa que por estas bandas não fica bem, caso contrário veja-se o mercado de livros em segunda mão… que é dele? Não falo de livro antigo, de alfarrabistas, e sim de livro usado que, em Espanha, por exemplo, tem uma dimensão enorme, muito ligado às universidades onde existem redes de venda e revenda de livros, para além de redes de bookcrossing efectivas, que vão para lá das necessidades académicas, cruzando interesses e dinamizando a vida do livro.
Oh amigo Severino, não sei o que será mais impressionante, se não saber que a mulher do David se chama Victoria (está no evangelho segundo São Lucas a obrigatoriedade de se saber o nome de todas as mulheres boas), ou se o facto de falar de literatura com todos os condóminos do seu prédio! Não me diga que é aquele individuo que à pergunta "está bom?" responde "nem por isso..." causando imediatamente um inexorável terror pânico ao seu interlocutor! Estou a brincar. Concordo consigo, quase ninguém lê, em lado nenhum, por um lado ajuda a nossa auto-estima de raros leitores, por outro prejudica as nossas vidas enquanto células de um composto.
EliminarEu leio tanto que nem sabia que o DB era casado ... eh eh eh eh
EliminarAreia às Ondas - Tenho sérias dúvidas se a maioria da população de qualquer país do planeta (admito exceptuar três ou quatro, não mais) lê. O comentário abaixo do nosso amigo Bento não poderia ser mais oportuno. Ler? eh pá isso dá muito trabalho, sinceramente eu vejo é o dia a dia, na minha empresa dos cerca de trezentos funcionários, não mais de cinco, lêem mais de dois livros por ano, e esta, atrevo-me a dizer, é a média geral. Não tenhamos dúvidas o retrato ideal da população portuguesa está na fauna que compõe A CASA DOS SEGREDOS, aonde incluo todo o staff, a começar pelas duas galinhas apresentadoras, nomeadamente a galinha-mãe Stª. Teresa Guilhermina.Aquela fauna é o protótipo do português real, acredito eu piamente. E essa das bibliotecas londrinas não me diz nada porque eu bem vejo os ingleses que nos visitam, entre cem dois lêem e estes dois é literatura de ler e deitar fora -mas é mesmo- (basta vê-los com os livros todos dobrados e olho (olho sempre) para o livro que estão a ler e vejo o nome do autor, penso este/a lê do mesmo modo que come uma pizza (lê e deita fora), para não me chamarem pre-conceituoso não referencio os autores que lêem... Mas lêem e ler é o que importa como dizia um amigo meu.
EliminarConcordo com a ideia das bibliotecas, são sítios brilhantes, quando estive a viver em Reguengos e sempre que me era possível estar sóbrio, dava uma voltinha pela biblioteca e quando dava por mim já levava uma sacada de livros para casa. Outro aspecto importante é a tal literatura de desbrave que eu, de forma tão avisada, trouxe ontem a público. Quais são os interesses da população? Os escritores locais escrevem para a generalidade ou para a tal elite que o meu mui estimado amigo e irrepreensível caçador Luiz Pacheco mencionava? Por outro lado, será prudente, aos olhos dos governantes, que as gentes desatem a ler como se não houvesse amanhã? Não faço a mais pequena ideia porque nunca tinha pensado sobre isso. É mister reflectir sobre tão elevada matéria, principalmente para a Leya que ainda saca de lá uns cobres!
ResponderEliminarCriar hábitos de leitura é uma missão cada vez mais difícil num mundo globalmente inebriado pelo entretenimento fácil, imediato e que não fatigue muito...
ResponderEliminarNo resto, subscrevo, na íntegra, todos os comentários supra...
Vai interessantissima a conversa! Pena é que não seja difundida na rádio ou tv ... falo a sério, e pela qualidade dos intervenientes e argumentos.
ResponderEliminarAlém de que é esclarecedor ler pontos de vista tão diversos e variados.
E é viva!!! Feita por pessoas comuns... o que não deixa de ser a prova de que a cultura não está tão morta como se diz!
Quem tem uma boa parte da culpa da morte da cultura, são os comentadores e os programas que existem e se fazem, na maioria dos casos são CHATOS! Os apresentadores/as são presumidos, arrogantes e chatos! Os convidados são sempre intelectuais-tipo, misóginos, com má cara, introvertidos sem chama nem ponta de capacidade de despertar interesse ou sequer de ter graça: chatíssimos! Ao contrário do que se passa aqui...
Ora quem veja, ainda que só de passagem ao zapar, assusta-se e dirá para si: "Credo! Que gente tão maçadora e sem graça... aquilo que escrevem não deve interessar para nada...", e então nem os lêem e mudam para os tais gaiolas onde galinácios, patos, galos, pavões e perús se expõem e à suas vidas na novela da vida que o pessoal prefere seguir para se distrair da crise e do trabalho e das desgraças variadas...
E quem produz estes programas sabe-o tão bem como a Margarida Rebelo Pinto... olá se sabe! É que a malta da cultura acha-se superior e cai no erro maior e mais comum, que é o de não contar com a esperteza dos outros!
Enquanto não se perceber que a cultura pode não ser uma coisa chata, e esta estiver entregue a senhoras de ar profundamente adâmico (vidé a Morticia Adams ) ou cavalheiros de ar pensativo e cara de lume apagado, ou jovens hirsutos com óculinhos redondos e discurso fluente, fácil mas mau de perceber, preocupadíssimos com os seus umbigos... pois nem leitura nem coisa nenhuma!
Passem os olhos pelo suplemento cultural do Expresso... olhem os comentadores residentes e de serviço, tirando o Pedro Mexia aquilo é quase sempre uma passagem de chatos, com coisas que não interessam e a falar de si mesmos, mas como são pessoas que não fazem nada com interesse, aquilo é patético e de uma pobreza atroz! Basta olhar para as caras expostas nas fotos... quem é que quer ler o que diz uma senhora com expressão de cão de caça ou uma jovem com o olhar dum peixe cozido, ou um cavalheiro cuja foto parece tirada do anúncio da agência funerária do Helder Vacas?
Claro que quem diz isto (eu) é um assumido barrão , ignorante e inculto que não se enquadra em nenhum dos grupos, os da cultura e os que não lêem... mas podem dar-me porrada que eu aguento.
Pela minha parte faço um esforço para pôr a minha gente a ler, chateia-me que a minha sobrinha Rita (fez um estágio de ano e meio num hospital em Londres) ande a ler um romance em inglês, se bem que a Margarida e o Francisco tenham vivido em Inglaterra e nos EUA a esses desculpo melhor... mas como aquela leva regularmente livros daqui, eu perdôo!
O meu filho de 23 anos que é inteligente (sai ao pai e à mãe!) e tem sentido de humor, descobriu pela minha mão o Tom Sharpe numas férias, leu-o quase todo e fartou-se de rir... fui-lhe dando a ler depois e a propósito de um trabalho, Gervásio Lobato de quem o Lisboa em camisa é um retrato fiel da sociedade de então, depois John Kennedy Toole dado a personagem da conspiração de estúpidos ser igualzinha a um grande amigo meu que é de facto um cromo, e depois o David Lodge. Agora anda delirante a ler Giovanni Guareschi e D.Camilo, também a propósito de um trabalho qualquer, sobre o comunismo italiano no pós-guerra.
Ou seja, a tal literatura para desbravar que o nosso Comparsa Courinha (quando não está na adega do engº Joaquim Bação ) fala, deve ser adaptada a quem a lê. Acho que o ideal é o desbravante ser orientado por um desbravador que o conheça e saiba interessar... E isso não acontece quase nunca... sabem acho que o que fez de mim leitor foram am boa parte as Selectas Literárias escolares... e os livros de leitura, onde descobri que havia vários tipos de livros e quais os que me interessavam...
Já disse ta
É isso mesmo homem do campo e obrigado amigo por teres mencionado aqui esse grande livro que recomendo vivamente: "LISBOA EM CAMISA" de Gervásio Lobato.
EliminarE o actual suplemento literário do Diário de Notícias (aos sábados) uma autêntica borrada, uma pastelada de caixão à cova, e para cimentar tal facto, a escolha dos convidados recai normalmente em livros de títulos repimpados em inglês e escritos em inglês, obviamente, uma autêntica CASA DOS SEGREDOS ao contrário, sim que também as há daquele lado...
EliminarCaro António Luiz, no que diz respeito à TV portuguesa, limito-me, de vez em quando, a ver o Telejornal, na RTPi. O que tenho a dizer? Os pivôs, os comentadores, os jornalistas são presumidos, arrogantes e chatos! Arrogantíssimos! Chatíssimos! Chatérrimos! Então aquelas meninas que fazem os exteriores... E a correspondente em Espanha põe até o meu marido alemão à beira de um ataque de nervos!
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