Um novo evangelho
Acabo de lançar um romance intitulado Os Últimos Dias de Pôncio Pilatos, da autoria da açoriana Paula de Sousa Lima. Centrado na figura de Pilatos – e na da sua mulher, Cláudia Prócula, uma das primeiras seguidoras de Cristo –, ele conta a história do casal nos seus últimos dias, quando Pedro e Paulo, perseguidos pelos Romanos, enfrentam a morte, e Pilatos se encontra, já ancião, a escrever um evangelho, única forma que descobriu de expiar a culpa e o arrependimento pelo destino trágico de Jesus. A narração dos sonhos premonitórios de Cláudia – que sabe desde a infância estar destinada a um marido que reconhece mais tarde na figura de Pôncio Pilatos – é fulgurante, bem como a recuperação dos episódios da vida de Cristo narrados por Pôncio nos seus escritos ou a descrição belíssima das investidas romanas no seio da seita cristã através das imagens de pássaros negros e nuvens vermelhas. E, com o prazer da leitura, vem igualmente o da tomada de conhecimento de factos menos difundidos, como o da intervenção de Cláudia na escolha dos seguidores de S. Pedro ou o fim do imperador afastado do poder. Para apreciadores de romance histórico, mas não só, este é um romance que sugere a existência de um evangelho que ainda não foi encontrado.
Parece interessante pegar na figura de Pilatos no âmbito desta deriva Dan Browniana, um pouco redutora, que atinge a criação narrativa atual obsecada com a figura de Cristo. Ao ler o texto da Rosário fiquei na dúvida se a mulher de Pilatos, enquanto discípula de Cristo, é uma figura histórica ou personagem de ficção (é que nunca ouvi falar que a mulher do consul fosse uma das primeiras discípulas de Cristo). Será que um dia destes, à procura de novas clientelas consumidoras, os discípulos de Dan Brown se vão virar para a Virgem?.Afinal a igreja catolica tem muitos mais devotos da Nossa Senhora do que de Cristo: está aí um mercado browniano a explorar...
ResponderEliminarCláudia Prócula existiu mesmo e há muitos textos sobre ela. E este livro não tem mesmo nada de Dan Brown nem de thriller. É um livro bastante poético, até.
EliminarPara quem gostar do tema, vale a pena ler "O Evangelho Segundo Pilatos" de Eric-Emmanuel Schmitt.
ResponderEliminarCristina
O título é melodia do povo.
ResponderEliminarInclusive por Pilatos ter lavado as mãos deu fé da consciência de quem era Cristo.
E seus últimos dias houve de permanecer mais romano.
Tanto evangelho...
ResponderEliminarUm evangelho inventado?!
ResponderEliminarNum sei...
a palavra «evangelho», segundo o dicionário, tanto pode referir-se especificamente aos evangelhos escritos pelos discípulos de Jesus, constantes da Biblía e tidos pelos crentes cristãos como uma doutina inabalável e indiscutível; como pode designar qualquer doutrina que tente propor princípios de prática ou mudança social/ humana.
ResponderEliminarnesta perspectiva, por que não um evangelho inventado? em todo o caso, penso que literatura histórica baseia-se sempre em factos, a partir dos quais depois se inventa, reinventa, cria.
parece-me interessante esta ideia de escrever imaginando o ponto de vista de Pilatos. em todo o caso, os evangelhos dos apóstolos não deixam também de ser uma visão pessoal dos acontecimentos, creio.
Doutrina de Cristo.
2. Cada um dos quatro livros principais que a encerram (o Evangelho de S. Mateus, o de S. Lucas, o de S. Marcos e o de S. João).
desculpem, tinha começado a especificar os autores dos evangelhos, depois alterei e esqueci o apontamento em baixo do meu comentário.
ResponderEliminarA capa é assustadora, como na maioria dos livros, aliás. São raras as editoras que prezam um grafismo de qualidade.
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