A vida dos ricos contada pelos próprios
Hoje, fala-se muito de autoficção quando, num conto ou romance, o lado autobiográfico é assumido pelo autor desde o início; e, por muito que alguns achem que isso é uma espécie de literatura menor por contar o real sem ter de recorrer à imaginação, a verdade é existem obras completas autoficcionais que dão direito ao Prémio Nobel da Literatura, como foi o caso da de Annie Ernaux, autora que nunca escondeu que os seus livros falavam acima de tudo de si própria. Foi, de resto, esta escritora e o seu O Acontecimento (a história de um aborto que terá feito) que espicaçou a escritora Colombe Schneck, judia parisiense nascida em 1966, cuja mãe se salvou dos campos de extermínio escondida num convento católico durante a Segunda Guerra Mundial, a escrever também uma ficção sobre uma gravidez indesejada (e descuidada) que lhe "aconteceu" aos dezassete anos e que desencadeou um aborto. E essa é só a primeira e maravilhosa história de Trilogia de Paris, um tríptico esplendoroso no qual aprendemos como vivem os verdadeiramente ricos, as roupas de alta-costura que recebem das avós e as férias em Saint-Tropez, mas em tudo o resto iguais a nós, excepto numa espécie de contenção a que o estatuto aristocrático os obriga e que aqui é especialmente visível na ficção chamada «Duas Burguesinhas», título que pressupõe já uma certa frontalidade que não inclui qualquer vergonha (não escolhemos em que família nascemos). Esta trilogia de momentos vividos em Paris é de uma sinceridade sem limites e, como a descreveu Deborah Levy, possui uma «escrita valiosa», representa «um estudo profundo sobre a existência em várias idades e fases da vida». Eu adorei.
Não é um género de escrita que eu aprecie particularmente, sem que o considere escrita menor, de modo algum. Confesso que esse conceito de menoridade nem cabe no meu fraco entendimento de traça dos livros, ignara, e não o aplico a escrita alguma. Gosto mais ou gosto menos, pode até acontecer adorar ou não gostar nada, e, fico-me por aí, porém não sou crítico literário.
ResponderEliminarEm práticamente 70 anos de vida, conheci muitas vidas e muitíssimas pessoas, assisti a práticamente tudo, no meu país e fora dele. Conheci e tenho conhecido vidas de gente rica e até muitíssimo rica, sem me deslumbrar e sem ter mais do que uma saudável inveja pontual porque gostaria de poder fazer algumas coisas que fazem ou possuem, alguns desses muito ricos. Também concluí que se não escolhemos a família em que nascemos, no entanto, aquilo que somos ou em que nos tornamos já entra no domínio da escolha e da consciência de cada um, se bem que as voltas da vida nos levem muitas vezes a não ter grande escolha e podemos não conseguir ser diferentes do que somos.
É rebuscado e complicado. Felizmente a nossa Extraordinária Literatura nos leva por esses caminhos e conduz a esses Mundos, levados pela mão de escritores mais capazes uns do que outros. Normalmente e neste tema concreto tendo a desconfiar mais dos que ficcionam e a aceitar melhor os que escrevem sobre a sua vivência directa.
Por muito bem que escreva, um Saramago será sempre suspeito e um Lobo Antunes mais realista, fruto precisamente das suas origens e do seu percurso, até ideológico.
Quem ficciona a vida do rico tem menos credibilidade e menos ainda quando lhe veste a pele... enfim, "nós os ricos" parodiava bastante bem o tema.
Votos de uma rica continuação, ainda cá na Cidade Morena, são os meus votos já em modo de viagem rumo a umas férias no meu Bairro Ribatejano.
Não conheço nenhum dos livros que refere, mas este verão li e gostei do livro "Retrato Huaco" de Gabriela Wiener, que penso que pertencerá ao registo de autoficção.
ResponderEliminarA "Comunidade" incluída nos "Exercícios de Estilo", de Luiz Pacheco é uma obra do género (talvez do subgénero abjecionista) que muito me impressionou na longínqua data em que o li.
ResponderEliminarNão li nenhum livro de Annie Ernaux. Vi o "seu" filme super-8, ouvindo com particular atenção o texto literário que ela escreveu e que lê sobre as imagens. Pareceu-me de
ResponderEliminaruma banalidade confrangedora. O prémio Nobel anda levezinho, literariamente falando.
Gostava de saber como vive essa gente que me parece de outro planeta. Mas julgo não me ser prioritário. Ignoro como pensam e em quê, o que lhes será necessário, como passam o tempo dourado.
ResponderEliminarDaquilo que vou lendo,e não é pouco.parece-me muito mais frequente e publicado,tudo o que tem a ver com pobreza e miséria.Independentemente do estilo ou do conteúdo,dá a impressão que é mais atraente conhecer vidas desgraçadas e saber como se vive em tais circunstâncias.
ResponderEliminarPorque será?Nao haverá curiosidade em pelo menos espreitar e depois julgar?
Acho que todos temos através dos livros a possibilidade de levantar voo,conhecer outros mundos,viajar sem sair do lugar.Desta maneira podemos penetrar nas vidas dos ricos e dos pobres,nos educados e nos selvagens,nos aristocratas e nos “da ralé “.Porque não nos interessam “as vidas douradas”só porque sim?
Acho sinceramente redutor negar à partida aquilo que pensamos que será oco,só com tiques e manias e desprovido de profundidade.Talvez assim tenhamos um vislumbre dessa vida,que em muitos casos não tem nada de “dourada”
Obrigado! Mais um livro para a longa lista.
ResponderEliminarViva!
ResponderEliminarÉ dos meus géneros favoritos. Mais uma para a minha lista... e tive com a Trilogia de Paris nas minhas mãos recentemente e pensei que capa gira mas como não conhecia a autora não o trouxe, não tinha qualquer referência e já tenho tantos livros.
Pessoalmente estou a ler As pequenas Virtudes de Natalia Ginzburg , comecei a lê-lo ontem, já o tinha na estante à espera há muito tempo e ... que delicia! A introdução de Rachel Cusk é muito boa também.
Estes autores escrevem sobre eles não para buscar conforto ou consolação. é um oficio violento, onde as visceras são expostas e não conseguem deixar de o fazer. Uma auto-terapia forçada pois não sabem o que mais fazer com tanto mundo interior.
Recomendo !