Os homens não lêem mulheres?

Num estudo realizado no Reino Unido por uma ONG chamada Women's Prize Trust (WPT) envolvendo 54.000 livros, concluiu-se que os homens compram sobretudo livros escritos por homens (mais de 80%), parecendo desconfiar de que os livros escritos por mulheres são xaroposos e ocos. Num post de um clube de livro que pelos vistos a rainha Camilla tem, o comentário do argumentista de cinema Richard Curtis (Notting Hill, O Diário de Bridget Jones...) em relação ao livro proposto de uma escritora foi excessivo (qualquer coisa como «Que nojo!»). Felizmente, a própria filha do argumentista parece ter-lhe dado uma lição e sugerido bastantes autoras muito boas; e a atrás referida ONG lançou uma campanha chamada «Homens Que Lêem Mulheres», pedindo a escritores consagrados (Salman Rushdie, Ian McEwan e outros) que falassem das suas escritoras preferidas, levando então o senhor Curtis a mudar de ideias e maravilhar-se com Elizabeth Strout, Chimamanda, Arundhati Roy e mais uma dezena de mulheres escritoras, confessando ter descoberto nelas uma humanidade que até era mais ao seu gosto do que a encontrava nos livros escritos por alguns dos seus autores preferidos. Em Portugal, ao que parece, segundo uma tese defendida na Universidade Nova de Lisboa por Clara Nunes da Silva que teve por amostra 400 leitores (200 homens e 200 mulheres), 81% dos homens inquiridos escolheram livros escritos por homens, o que significa que o padrão se repete provavelmente em todos os países. Faz-nos falta uma ONG como a WPT a ver se as coisas mudam por cá, até porque as mulheres não são esquisitas (lêem livros de homens e mulheres indiferentemente) e, como até lêem mais livros do que os homens, mereciam ser mais lidas por eles.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco29 de julho de 2025 às 03:21

    ONG's? Hum...
    Sou muito crítico em relação a elas. Creio que não precisamos de uma para isso.

    Na verdade, nunca me havia interrogado sobre essa questão... nem foi coisa que me ocorresse alguma vez. Deve ser um problema da modernidade em que tudo tem de ser classificado e dividido como homofóbico, sexista, racista, xenófobo, pedófilo, política e ecológicamente correcto a ponto de haver quem nem lê livros por serem de papel e porem em causa as árvores. Enfim. É a modernidade que também nos trouxe muita coisa inútil ou mesmo indesejável.
    A última coisa que faço enquanto leitor, é escolher o livro pelo sexo, nacionalidade ou ideologia do autor! Nunca liguei a isso, ou teria perdido obras muito boas!
    No entanto, reflectindo um pouco, suponho que leia muito mais autores do sexo masculino do que do sexo feminino. Por razões sexistas? Conscientes não! Porque os homens escrevem mais sobre os temas que me interessam? Talvez...
    Mas não deixa de ser uma questão curiosa, se bem que não seja tão importante assim, na minha maneira de ver.

    Saudações literáriamente assexuadas, cá desde a Cidade Morena.

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  2. Tenho um filho com cinco anos (homem) e quase todos os livros que leu (que lhe foram lidos) foram escritos e ilustrados por mulheres.
    Algo estará errado nessa estatística.
    Enid Blyton e J. K. Rowling foram/são mulheres, será que alguém lê "Os cinco", "0s sete" ou o Harry Potter por uma questão de sexo das autoras?

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  3. Fiquei a pensar nisso durante uns minutos. O único aspecto que pende na escolha de um livro entre os demais na longa lista para ler é a data de publicação. Resisto muito em ler obras contemporâneas, com exceção de dois/três autores.

    Fui espreitar a minha lista deste ano e, de facto, só tenho um livro escrito por uma mulher: Jan Morris, Veneza. Não deixa de ser curioso.

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  4. Filipa Fonseca Silva29 de julho de 2025 às 09:59

    Já existe um movimento em Portugal com esse objectivo, bem como o de promover a literatura portuguesa em geral. Chama-se Clube das Mulheres Escritoras e tem dois anos e meio de trabalho.

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  5. Muito curioso, na verdade😉
    Gosto muito de Jan Morris, mas penso sempre nel@ como se fosse um homem.
    Um ser extraordinário, cuja história de vida bem merece ser estudada.
    Boas leituras!📚

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  6. Também fui ver a minha estatística dos livros lidos este ano (não contando com os de poesia, que esses vou debicando). Dos 12 que li, 5 são de autores homens e 7 de mulheres.
    E o que estou a ler presentemente é de um autor homem.
    Confirma-se, está equilibrado.
    Boa noite e boas leituras a todos!

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  7. Não percebo estas fronteiras entre escritores homens e mulheres.Um livro agrada-nos pela sua forma de escrita,pelo seu conteúdo,pela maneira como nos toca.Às vezes nem sabemos se é escrito por um homem ou uma mulher.Há nomes dúbios-por exemplo Celine,entre outros.
    .O que verdadeiramente interessa não está no género.Vai muito além disso.Por isso adoramos viajar em boa companhia(os livros)e vimos diariamente a este blog para nos ajudar a alargar horizontes e a dar sugestões que nos possam elevar.

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  8. Bravo! Movimento que acompabho com muito interesse e sempre que posso apoio ao comprar autoras nacionais.

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  9. Eu leio essencialmente mulheres. Porque gosto, porque prefiro e porque devo ler mulheres.
    Dou por mim a pensar em ler mais autores homens para equilibrar a minha balança mas tirando o Afonso Reis Cabral e o Eça de Queirós não tenho grande interesse em comprar livros de homens. No entanto sigo o trabalho de Andrew St. Aubny e Julian Barnes mas todos ingleses que coincidência ?
    Todavia, estou a ler um livro da biblioteca municipal de Gaia do Hermann Hess " Uma biblioteca da literatura Universal" e a adorar!
    Leiam mais mulheres! E nacionais se possivel ao comprar os seus livros!
    Bjinho.

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  10. Se me é permitido o meu (sempre atrasado) comentário, julgo que a análise deveria ser feita de outra forma, porque, na minha opinião não se trata de homens lerem homens e mulheres lerem mulheres, em função do sexo.
    Trata-se antes de perceber o que lêem as mulheres e o que lêem os homens.
    E de facto, os homens tendem mais para escolher ensaios em detrimento de romances. Ora, os ensaios são maioritariamente escritos por homens ; já no romance, apesar de estar melhor distribuído, a verdade é que as mulheres têm sido muito valorizadas.
    No outro dia, um amigo meu, escritor de romances, dizia-me a propósito da feira do livro em que esteve em junho, "este ano, não falei senão para mulheres, por e simplesmente, não havia homens nas minhas sessões".

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