Excerto da Quinzena

Lisboa, 21 de janeiro de 2017 (sábado) – Dívidas de gratidão para com o meu corpo. À parte uma asma alérgica trazida de África, entretanto debelada, uma apendicite operada de urgência em Espanha, já sob ameaça de peritonite, a artrite reumatoide do pulso, o meu foi sempre um corpo amável, cordato, satisfatoriamente competente em dar-me o que podia e em receber o que lhe era devido. Em 2014 veio-lhe um sobressalto, um desvio de rumo, talvez uma distorção. Sem nunca o censurar nem ofender, continuarei a cuidar dele, corpo de mim mesmo. Aprenderei a escutar os seus silêncios e o menor suspiro que dele me venha, sabendo que daqui em diante paira sobre nós os dois uma sombra, uma ameaça. Nele, corpo, mora a minha vida. Nada há mais saudável do que estarmos vivos.


 


João de Melo, Novas Fases da Lua (primeira entrada do diário)

Comentários

  1. Comungo da gratidão de João de Melo pela dádiva da vida. E semelhante para o cuidado que devo ao corpo que me pertence, agora que a sua fragilidade mais recôndita vem à superfície. Talvez passe a tratá-lo como Pessoa ao seu menino Jesus: com extremada ternura, levo-o mesmo ao colo, imitando ainda o poeta.
    Bom, estou lendo com vagar o volume III de Em busca do Tempo Perdido. Não é actual nem muito cativante, mas gosto quando me aborrecem os outros livros.
    Bom fim de semana

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  2. O excesso de informação dificulta o raciocínio e o excesso de reflexão, a sabedoria. É preciso escolher. Nenhuma posse supera a renúncia eficaz. Bem entendida, a cultura é um instrumento para ignorar com conhecimento de causa.

    excerto de □ Não sou um robô, de Juan Villoro (Zigurate)


    Boas Leituras

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  3. Claudia da Silva Tomazi14 de novembro de 2025 às 04:25

    Fulano, beltrano e sic…
    Certas expressões são muito mais comuns na língua oral do que na escrita. Muita coisa que se fala raramente se escreve. Um desses casos é o da sequência “fulano, beltrano e sic…”. E agora? Com “l” ou com “r” ? Bem, talvez você tenha estranhado o “s” no início dessa palavra (ainda incompleta). Muita gente talvez apostasse bons tostões no “c”, mas a letra inicial é mesmo “s”: “sic…”. E então? É com “r”: “sicrano”. O saudoso poeta e professor de literatura Antônio Carlos de Brito, mais conhecido como Cacaso, escreveu a letra de “Lero-Lero” (com música de Edu Lobo), em que se encontra esta passagem: “Brasileiro, de estatura mediana, gosto muito de fulana, mas sicrana é quem me quer…”. Sicrana? Sim. O terceiro elemento dessa sequência tão comum na tradição oral brasileira é “sicrano”, com s e com r: fulano, beltrano e sicrano. Em tempo: “fulano” vem do árabe (significa “alguém”, “um certo alguém”); “beltrano” vem de “Beltrão”, transformado em “beltrano” para rimar com “fulano”; “sicrano” é de origem incerta.

    Nossa Língua Curiosa de Pasquale Cipro Neto

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  4. Comecei a ler “O Mar de Madrid” de João de Melo.Ainda é cedo para me pronunciar,mas parece-me que promete.Autor prestigiado,nomeadamente com “Gente feliz com lágrimas “esse maravilhoso romance que o tornou famoso-muito justamente

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  5. Saramago, entre outras coisas, ensinou-me a dar muito valor à leitura de diários. Talvez chegue ao fim dos seus Cadernos com a sensação de que se trata da sua melhor obra.

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