Escritores de canções
Grande foi a polémica quando o Prémio Nobel da Literatura foi atribuído a Bob Dylan. Além de ele ser autor de canções, só tinha escrito duas ou três obras ditas literárias; e para a maioria das pessoas que acompanha a literatura contemporânea pareceu injusto. Sérgio Godinho, porém, achou muito bem, defendendo que um escritor de canções é efectivamente um escritor e que a canção é um género como qualquer outro, não necessariamente menor. Já não ficámos tão surpreendidos quando o Prémio Camões foi entregue a Chico Buarque: ou por já estarmos habituados, ou pelos olhos azuis e a beleza do homem, ou porque a língua portuguesa se faz bonita poesia na voz do cantor brasileiro, ou porque ele escreveu vários romances bons e isso lhe dá o direito a ser considerado um grande escritor. E este ano a Feira do Livro do Porto, depois de ter homenageado uma data de poetas e romancistas naturais da Invicta (Ana Luísa Amaral, Agustina, Mário Cláudio...), lembrou-de de eleger como escritor homenageado Sérgio Godinho no ano em que faz 80 anos, com uma programação alusiva à sua vida e obra, que inclui alguns livros de ficção, um dos quais recente, sobre suicidas, mas é sobretudo feita de maravilhosas canções. Pergunto apenas porque não ganhou um prémio (literário, pois claro) Leonard Cohen, que também merecia tanto? (A Feira do Porto acaba no próximo domingo, só para avisar.)
Na minha atrevida porém eventualmente ignorante opinião de traça dos livros, considero que escrever poemas ou escrever canções é quase a mesma coisa, portanto se o poeta ou o letrista escrevem ambas, são ambos homens das letras (literalmente) por conseguinte, escritores.
ResponderEliminarNotem que nunca escrevi nem uma coisa nem outra. Porém tenho lido poemas e conheço letras, pelo que pergunto quantas canções (sejam elas fado, country, folk, blues, rock and roll, ópera (perdoem os puristas, eu sei que se diz árias...), não contam histórias? Já pensaram nisso?
Desde a Anita cantada por Marco Paulo, ao Cavalo Russo de José Vidal, o Hurricane de B. Dylan, passando pelo Etelvina de Sérgio Godinho, a fabulosa Estrela do Mar de Jorge Palma (um dos mais bonitos temas da música portuguesa)... tantas histórias que nos são contadas em canções, tantas!
Daí eu aplaudir que se premeiem como escritores os geniais autores de canções, como foi o caso de Dylan, e, merecidamente Sérgio Godinho de quem se fala hoje e quem aliás muito aprecio.
Para quando Carlos Tê? Jorge Palma?
Votos de um extraordinário fim de semana, cá desde a Cidade Morena.
Um autor de belos poemas para canções foi Ary dos Santos mas creio que nunca lhe foi atribuída qualquer distinção de natureza literária.
ResponderEliminar«Pergunto apenas porque não ganhou um prémio (literário, pois claro) Leonard Cohen, que também merecia tanto?»
ResponderEliminarLeonard Cohen ganhou em 2011 o Prémio Príncipe das Astúrias em literatura; também recebeu outras distinções literárias, em especial no Canadá e nos Estados Unidos.
Tem razão, já não me lembrava.
ResponderEliminarHá poetas que são cantautores e cantautores que são poetas. Por exemplo: Leonard Cohen, Silvio Rodríguez, Joaquín Sabina, Jacques Brel, Chico Buarque, etc., etc., etc... Bob Dylan é só cantautor. Uma vergonha terem-lhe atribuído o Nobel, até Aznavour o merecia mais e ainda estava vivo.
ResponderEliminarhttps://ocasosluiscaminha.blogspot.com/search?q=buarque
https://ocasosluiscaminha.blogspot.com/2019/08/soneto-de-facto.html
https://ocasosluiscaminha.blogspot.com/search?q=cohen
Extraordinário Luis Caminha
ResponderEliminarNão sendo eu especialista na matéria, não contesto o que diz, no entanto e porque interessado, pergunto-lhe em que se baseia para dizer que B. Dylan não é poeta?
Se escreve canções, tem de ser poeta, isto na minha maneira de ver. As letras das canções são poemas, e sempre ouvi considerá-lo como tal, um trovador e poeta.
Há quem não goste de Dylan, o que não discuto evidentemente.
Abraço cá da Cidade Morena.
Fui duas vezes à FdL do Porto e, como é habitual, o ambiente criado pelo espaço é formidável. Sou de cá, vou todos os anos várias vezes, mas espero conhecer a FdL de Lisboa no próximo ano.
ResponderEliminarQuanto a Cohen, concordo, claro.
No Brasil, há também o caso de Vinicius de Moraes, que iniciou sua trajetória como poeta, publicando em jornais e livros, e passaria logo a enveredar pela música, ganhando assim maior projeção. O sucesso de suas canções acabaram por superar o de seus livros. Ao fim e ao cabo, ainda hoje Vinicius é lembrado como “poetinha”.
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