O futuro da edição
Embora trabalhe num grupo editorial de peso, não me são estranhas as preocupações das editoras independentes, não só em Portugal, onde a ausência de livrarias de nicho ou de fundo é marcante, mas também lá fora, em países onde as coisas vão de mal a pior. Num artigo da Bookseller, divulgado pelo consultor editorial Nuno Seabra Lopes, tomo conhecimento de que cerca de vinte editoras independentes do Reino Unido publicaram uma carta aberta explicando que se encontram numa «crise existencial», pedindo ajuda para poderem sobreviver. Elencam os problemas que as afectam, entre os quais o aumento dos custos de produção (papel, energia...); as dificuldades logísticas e comerciais (parcialmente devidas à saída da União Europeia e às decorrentes complicações alfandegárias); a dificuldade em penetrar no mercado livreiro ou nas redes de distribuição (como cá, em que só as grandes editoras conseguem chegar a todo o retalho); a falta de cobertura mediática e a diminuição do espaço para a promoção de livros na imprensa; e ainda o excesso de trabalho dos funcionários destas editoras e a sua insegurança quanto ao futuro, que gera muitas vezes problemas de depressão e/ou esgotamento. Houve várias chancelas que acabaram e editoras que tiveram de fechar portas, afectando claramente o mercado, pois de repente tudo corre o risco de se tornar industrial e apenas entertaining, o que é perigosíssimo para o desenvolvimento das mentalidades. Cá (excepto no caso da não pertença à União Europeia) passa-se exactamente o mesmo, e não me parece que tenhamos um executivo especialmente preocupado com os livros e a leitura. Deveríamos escrever-lhe uma carta aberta?
Os livros e a leitura são algumas das entranhas da sociedade .Será sempre bem-vinda uma carta aberta !
ResponderEliminarSou, nesse aspecto, descrente convicta. Não reconheço no governo uma vontade específica no campo cultural. Contudo, uma carta aberta informa todos os portugueses interessados e julgo que aí estará também a cumprir a função.
ResponderEliminarEu acho que há mais pessoas a ler, o problema é que a maioria das produções são para entreter e para imbecilizar. E aí as grandes superfícies levam a melhor.
ResponderEliminarEstá a decorrer em Penafiel o Festival Escritaria, sendo homenageada este ano a nossa Extraordinária Anfitriã. Das notícias que nos dá sempre destes eventos, desta vez fez silêncio absoluto. Modéstia, certamente. Ainda assim muitos parabéns.
ResponderEliminarJá tenho chocado algumas pessoas quando afirmo que nenhum governo, ao centro ou à esquerda fez nada, absolutamente ZERO, pela promoção e apoio à leitura enquanto fundamental na cultura e educação do país!
ResponderEliminarO ramo editorial é um negócio, nada contra como é óbvio pois só sendo negócio é que existe e se desenvolve pelo bem de toda a fileira dos livros e a começar pelos autores, terminando nos leitores!
Sim, o ramo editorial é a pedra basilar e são legítimas as suas preocupações tanto quanto as aspirações.
É lendo que se cultiva o povo, que se educam e formam os estudantes que depois serão adultos cultos, informados, esclarecidos.
Afirmo convictamente que é em edição de papel, por muito que isso choque os pseudo-ecologistas, pois a indústria do papel é que mantém a floresta o que custa a entender e não querem aceitar aqueles que defendem os artefactos plásticos e digitais sintéticos ou minerais que poluem e consomem bem mais matérias que esventram e contaminam o solo e as águas, derrubando florestas que não são repostas... ao contrário das celuloses que vivem precisamente dessa renovação.
Enfim, perdoem a tergiversação, mas sim, livros, leituras, leitores, escritores, editores, bibliotecários, livreiros, devemos unir-nos e defender essa nossa necessidade, muito mais importante para nós do que o "Free Palestine". Pena não se aplicarem a estas empreitadas de que agora falamos, o mesmo empenho e energia do que a tantas outras que nem por isso nos afectam ou são úteis a toda a sociedade como é o caso presente que hoje nos é trazido.
Faça-se a carta, em português ou acordês, mas objectiva e pragmática, obriguem-se os políticos a olhar para o assunto que é de interesse nacional, ao mais alto nível!
Vamos a isso!
Contem com a minha assinatura, cá desde a Cidade Morena.
Nada do que se passa no nosso país me espanta, em relação à leitura e aos livros.
ResponderEliminarOs livros e a leitura, mesmo depois do 25 de Abril, nunca foram olhados com bons olhos pelos políticos. E ainda menos os leitores.
Essa gente detesta quem "pensa pela sua própria cabeça". E a leitura sempre foi um excelente auxiliar nesta coisa de pensarmos e de termos ideias próprias sobre o mundo (até mesmo os maus livros...).
E o mesmo se verifica com a imprensa e outros meios de comunicação, a sua sustentabilidade está ameaçada. (Recordemos o processo em curso para Balsemão alienar parte do capital social do seu grupo empresarial, Jornal de Letras, TSF, imprensa regional etc.)
ResponderEliminarA raíz do problema é a mesma: o dia continua com 24h, a oferta é torrencial, e a população gosta mais de redes sociais do que os ursos do mel. Com a agravante de as redes nem serem europeiais, funcionam antes como uma espécie de cavalo de Tróia, servindo para tudo e mais um pouco. Desde influenciar eleições a estupidificar a população.
Donde, o meu ponto é o seguinte: de nada serve fazer cartas, petições ou requerer apoios para pequenas editoras ou livrarias, o que seja do lado da oferta, pois a procura parece rarear.
Basta ver que o cheque livro não foi aproveitado na íntegra, menos de 4% da população utiliza os serviços das bibliotecas públicas, e que as tiragens de jornais minguam - apesar do digital.
O que precisamos é de legislação, urgente, para o espaço digital. Na Economia da Atenção em que vivemos, a falta de intervenção pública coloca em risco a própria democraciaa
Boas leituras
Cara Maria do Rosário,
ResponderEliminarComecei a minha vida profissional na Editorial Presença e já fiz traduções e revisões para várias editoras, colaborando mais diretamente, de momento, com o grupo PRHPT. Conheço bem as dificuldades de ter de vender para (sobre)viver sem vender a alma ao Diabo – ou seja, sem publicar xaropadas e mero entretenimento fácil. Lamentavelmente, o nosso país revela há décadas um enorme descaso pela leitura. Muitos cheques-leitura – tão acarinhados por Pedro Sobral – ficaram por resgatar, o que demonstra um profundo e grave desinteresse pela leitura e pelas possibilidades que ela encerra.
A mãe de um amiguinho do meu filho confessava não conseguir convencer os filhos a ler, mas compreendia porquê: nem ela nem o marido têm hábitos de leitura. E trata-se de pessoas de classe alta; os livros simplesmente nada lhes dizem… Em contraste, em minha casa sempre tivemos imensos livros (ficção, não ficção) e faço questão de ir frequentemente à biblioteca local escolher as coleções favoritas do meu filho. Compro livros em datas festivas e ainda procuro merchandising das personagens favoritas; tudo para manter viva a chama da leitura.
Enquanto vivi nos Países Baixos, notava que a escola se focava muito mais na leitura e compreensão do que em enviar ditados ou cópias para casa. A leitura era estimulada com idas regulares à biblioteca desde muito cedo. Além disso, o Ministério da Educação, Cultura e Ciência permitia uma sinergia notável entre escolas, museus, bibliotecas e institutos – é impossível não sentir saudades disto!
Portugal vai seguindo no seu rom-rom do costume. Com o atual governo mais preocupado em resolver faits divers e ignorar questões de fundo graves, temo que fiquemos em marcha-atrás – ou, na melhor das hipóteses, em ponto morto – nesta e noutras matérias.
Duas observações se me permite:
ResponderEliminar- Faria uma correcção, não é o "actual" governo, foram todos! TODOS! No entanto sendo este que está em exercício é a ele que se deve pressionar, Se não fizer nada, como fizeram todos os anteriores... é mais um. Mas não deixemos de nos manifestar.
- Quando refere xaropadas e entretenimento fácil, eu faço notar que os gostos de cada um, são um direito e pessoais. Esse é um erro que se calhar é muito vulgarmente cometido pelos profissionais do sectro, ignorarem aquilo que as pessoas querem ou gostam de ler! Aliás o que importa é que leiam, esse o objectivo. Depois de lerem, logo poderão ser conduzidos, sem interferir com a liberdade individual de cada um, nas suas opções.
Faço este reparo, porque li atentamente o que escreveu, respeitando e mesmo concordando consigo, mas fazendo estas duas ressalvas.
Saudações cá da Cidade Morena.
Agradeço os seus reparos e concordo inteiramente: este governo herda essa responsabilidade e é a ele que devemos exigir ação, mas o problema vem de longe.
ResponderEliminarQuanto à questão da leitura, permita-me discordar respeitosamente. Não creio que "o importante é que se leia" seja suficiente. Atualmente abundam no mercado biografias não autorizadas de celebridades, romances de k-pop ou memórias de alguém cuja única realização na vida foi participar/ganhar (n)o Big Brother. Muitos leitores nunca fazem a transição para outros tipos de livros, ficando presos num nicho de conteúdo muito vazio, sem substância. E isso não promove verdadeiramente o pensamento crítico, a literacia ou o enriquecimento cultural que a leitura deveria proporcionar.
Os gostos são, sim, pessoais e livres. Mas quando falamos de políticas públicas para o livro e a leitura, temos de ter critérios de qualidade. Caso contrário, estaremos apenas a alimentar uma indústria de entretenimento descartável, em vez de formar leitores críticos e informados.
Saudações.
Entendo perfeitamente o que quer dizer!
ResponderEliminarCom efeito "Atualmente abundam no mercado biografias não autorizadas de celebridades, romances de k-pop ou memórias de alguém cuja única realização na vida foi participar/ganhar (n)o Big Brother." (sic).
Noto isso nas minhas idas aos quiosques comprar cigarrilhas ou "meter o órómelhões" - as raspadinhas ainda não experimentei... e até me questiono a esse respeito, será que essa "leiteratura" vende de facto? Ou serve apenas para aguçar a curiosidade de certa camada de público? E será de edição própria? Com efeito não é bem literatura, compreendi ao que se referia, são as receitas preferidas de uma anorética protagonista de telenovelas, as memórias inventadas do apresentador do momento, e por aí fora... coisas que não lembram ao Diabo!
Enfim, vamos tocando nós o burrro, já que não temos o interesse de quem por isso deveria interessar-se.
A questão colocada é muito pertinente. E para o enfrentamento desse problema, é necessário pensar em diversas frentes de ação. No que diz respeito à sustentabilidade financeira das editoras independentes, seria muito proveitoso que o governo considerasse seriamente descontos especiais para elas no que se refere à compra de papel e também em gastos cotidianos, como o relacionado à energia elétrica. Como se sabe, mas muita gente ainda se esquece, o livro precisa de incentivos, pois o universo de pessoas que o consome é muito menor do que aquele de outros setores, como alimentação e vestuário. Afinal de contas, para se consumir um livro, é necessário saber ler e essa habilidade já restringe bastante as dimensões das comunidades de consumidores. Simultaneamente, seria muito desejável que o governo efetivasse compras regulares de livros de literatura para a composição dos acervos das bibliotecas escolares e dos concelhos. No que tange à sobrevivência das livrarias físicas de rua, à parte das grandes redes, descontos em contas de energia e água, bem como em impostos como o IMI seriam medidas muito bem-vindas. Digo isso pois, mais uma vez, vender livros é um desafio descomunal e ter um estabelecimento comercial que se destina eminentemente a comercializá-los exige de nossas autoridades um olhar especialmente empático.
ResponderEliminarA questão colocada é muito pertinente. E para o enfrentamento desse problema, é necessário pensar em diversas frentes de ação. No que diz respeito à sustentabilidade financeira das editoras independentes, seria muito proveitoso que o governo considerasse seriamente descontos especiais para elas no que se refere à compra de papel e também em gastos cotidianos, como o relacionado à energia elétrica. Como se sabe, mas muita gente ainda se esquece, o livro precisa de incentivos, pois o universo de pessoas que o consome é muito menor do que aquele de outros setores, como alimentação e vestuário. Afinal de contas, para se consumir um livro, é necessário saber ler e essa habilidade já restringe bastante as dimensões das comunidades de consumidores. Simultaneamente, seria muito desejável que o governo efetivasse compras regulares de livros de literatura para a composição dos acervos das bibliotecas escolares e dos concelhos. No que tange à sobrevivência das livrarias físicas de rua, à parte das grandes redes, descontos em contas de energia e água, bem como em impostos como o IMI seriam medidas muito bem-vindas. Digo isso pois, mais uma vez, vender livros é um desafio descomunal e ter um estabelecimento comercial que se destina eminentemente a comercializá-los exige de nossas autoridades um olhar especialmente empático.
ResponderEliminarCaro António Luiz Pacheco,
ResponderEliminarCostumo ler os seus comentários, com os quais muitas vezes concordo.
Parece-me uma pessoa que gosta de estar informada e por isso, não me leve a mal, devo dizer-lhe que há uma enorme diferença entre uma floresta e uma mata de produção (de celulose, de madeiras, o que seja). As primeiras são um ecossistema onde vivem, em equilíbrio, inúmeras espécies da fauna e da flora; as segundas, pouco mais que uma fábrica a céu aberto.
Quanto à Palestina, não farei comentários pois, a meu ver, este blog não é para isso.
Com os melhores cumprimentos,
Ana Xavier
Minha cara
ResponderEliminarNão levo nada a mal a sua discordância, pois claro, e muito menos a sua opinião.
Eu sei bem porque dei os exemplos referidos, pois uma mata para celulose é exemplo de floresta ordenada, em termos de silvicultura. A floresta é o que diz, sim, porém a mata de celulose também é um eco-sistema. Repare, se a floresta pode ser na origem produto de uma sucessão primária, a mata de celulose é produto de uma sucessão secundária... também constitui um eco-sistema.
Quanto à alusão ao free-palestine, não sendo este o local indicado como diz, só o referi no sentido de que lamento que se esgote energia com um problema tão longínquo quando os temos aqui mais próximos e que nos afectam directamente muiíssimo mais.
Cumprimentos e vamos falando, pois é assim que a gente se entende.