Excerto da quinzena
Quando a chuva desabou severa numa manhã de outubro, e precipitou a imagem dos arrastados e das perdas que continuava a reverberar feroz em sua vida, Rita Preta não sabia que estava a poucos dias de ser levada outra vez, por uma corrente violenta, à vida que as mulheres de sua comunidade temiam ter. Registrar as compras e ouvir o bipe da máquina escaneando o código de barras a trouxe para o presente. Então constata que anda exausta e enumera na mente as causas de seu cansaço: primeiro, a falta de paciência com Jorge. Ela é a amante — e essa palavra a deixa com um sentimento ambíguo difícil de definir, um estigma, sem dúvida, mas também lhe confere certa dose de excitação e liberdade. O que a abala são as promessas não cumpridas, os telefonemas não atendidos, as expectativas não correspondidas. Toda uma cadeia de pequenas frustrações. Além de passar muito tempo na estrada, viajando para transportar os grãos do oeste à baía, ele tem uma família que ocupa seu tempo: mulher, filhos, um neto. Prometera que sairiam para dançar em breve, mas havia meses os dois não iam à casa de seresta da Cidade Baixa. Além disso, a vida de encontros em hotéis baratos do centro da cidade sempre lhe soara humilhante e destituída de interesse.
Às vezes, Rita Preta tenta se conformar com seu destino, alegando que esta é sua sina. Confere um peso a essa história tendo como métrica seus relacionamentos anteriores. Ela tem muitos motivos para duvidar de seu atual romance. Foi assim com o pai de seu primeiro filho; com a transa breve que se seguiu e lhe deixou outro filho; com o delinquente, pai do terceiro, que a agredia e só deixou a casa quando ela trocou as fechaduras, e depois de lhe comprar uma passagem de ônibus de ida, sem volta, para o cafundó de onde ele tinha saído.
Itamar Vieira Junior, Coração sem Medo (no prelo)
No patamar, os pés sobre a extrema aresta da laje,a mão direita direita agatanhada à esquina, esticando-se todo, alongou o braço. Com as pontas dos dedos, à semelhança do que das outras vezes fazia com a vara, batucou nos vidros da janela. E esperou. Decorreu um minuto, mais outro minuto, e entrou a compenetrar-se dos riscos que corria. Além de que Filomena podia assustar-se e gritar [...]. Quando Deus quer, em vez dela saltava-lhe pela frente a caçadeira do pai, desfechando-lhe no peito, sem tir-te nem guar-te, a carga de zagalotes. Posto que resoluto, sentiu trepar pela espinha, como larva de neve, o arrepio do medo. Do medo e do espanto que anda espalhado pela mudez e negror da noite.
ResponderEliminarAquilino - A Batalha sem Fim
Uma estação televisiva, ou um jornal, não pode permitir-se não ter a notícia que o seu concorrente directo tem. De modo que acabam por observar os seus concorrentes em vez de observar a vida real.
ResponderEliminarexcerto de Os cínicos não servem para este ofício, de Ryszard Kapuściński (Relógio d'Água)
Isto e muito mais mum blog perto de si
Boas leituras
Estou a ler “Cinco esquinas”de Mário Vargas Llosa e a gostar muito.
ResponderEliminarÉ uma leitura fácil,mas ao mesmo tempo com sumo.Prende-nos desde o princípio.
Literatura penosa.
ResponderEliminarCaro anónimo
ResponderEliminarPor favor,esclareça-me o que quer dizer com “literatura penosa”.
Refere-se ao “Cinco esquinas”?
"A dona Isaurinha chegou a casa dos meus pais num dia de Verão, carregando África dentro de uma mala castanha.
ResponderEliminarRetornava ao país de onde há muito saíra. Saíra de um país onde muito vivera. O sol tornara a pele enrugada, ainda mais acastanhada, e aquela mala mais enigmática.
Gasta, vencida, a senhora arrastava uns sapatos pretos e inestéticos que se vêem à venda nas farmácias e que destoam naquele ambiente asséptico.
Os seus olhos escuros desbotavam nuns óculos enormes, o cabelo era uma armação a cair de cinzento.
A vida da dona Isaurinha era um trânsito entre a casa do ferroviário da Beira Alta a quem chamava filho- o Virgílio, um bigode militar e uma mulher que se apoderara dele para todo o sempre-e as casas de quem a quisesse acolher. Em casa dos meus pais, Isaurinha ia ficando longas temporadas, quer na estação das chuvas, quer nos meses de calor. Dormia num sofá-cama castanho, da mesma cor da sua mala de fivelas douradas, uma cor que me parecia demasiado antiga e que hoje já nem isso é.
Os corpos espatifaram a napa. Os de hoje e os de antes. "
A BALADA DO NÍGER e outras histórias de África.
Amílcar Correia
Civilização Editora
2007
Daqui,da margem esquerda do estuário do Tejo.
Bom fim de semana!!
A. Delfim
Falando de novas publicações, onde podemos encontrar o seu Caçador de Algas??
Tenho de ler mais esse livro de Itamar Vieira Júnior.
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