Excerto da Quinzena
Disseram-me isto: que o meu avô abriu uma cova no jardim das traseiras e de seguida a regou com gasolina; depois, atirou-lhe o manuscrito e, com um sorriso, acrescentou ao cozinhado a chama pequena de um fósforo. Com empenho e combustível, até uma pequena chama faz grandes coisas.
Antes, durante anos, escondeu um caderno escrito à mão que teve o efeito de o calar, como se só houvesse histórias naquelas páginas. Assemelhava-se a certos reformados cujo derradeiro interesse, por norma uma genealogia vaga ou uma filatelia desinteressante, os faz sumir da actualidade.
Agora falava pouco do passado, ao contrário do que acontecia na minha adolescência, que ilustrara com as coisas da guerra: havia casacos de ouro, crânios em praias portuguesas, gorilas de dorso de prata atravessando as estradas de Cabinda, um cabo de metal tenso entre duas árvores para decapitar quem por elas passasse, corpos esquecidos em pás de retroescavadoras; e até um tiro de G3 que subiu direitinho pelo olho do cu de um macaco.
Encantava-me de tal maneira ouvi-lo, prendia-me cego numa mentira de amor, como se quem conta e quem ouve dessem as mãos, que eu achava que o avô e o contador de histórias eram a mesma pessoa. A África do avô tinha sempre uma fuga, o contraponto da violência. Uma criança nunca morria sem que o sangue desenhasse uma rosa, nunca uma cidade saqueada surgia sem que alguém tentasse repor um frasco de compota às prateleiras das mercearias. Tudo era violento e delicado na guerra, como tudo parecia violento e delicado no avô.
Afonso Reis Cabral, O Último Avô
Afonso Reis Cabral é o meu escritor português vivo preferido.
ResponderEliminarOs bons escritores (e escritoras como é obrigatório dizer agora) não morrem.
ResponderEliminar"Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
De quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
De quem já só por dentro se ilumina
E surpreende
E por fora é
Apenas peso de ser tarde. Como é
Amargo não poder guardar-te
Em chão mais próximo do coração."
A poesia, por exemplo, é intemporal. Recuso-me a pensar em Daniel Faria como um escritor ou um dos poetas (sem clube) mortos.
Para além disso o rapaz/ homem é giro de se ver e belo de ouvir! Tem cada entrevista interessante dele no youtube!
ResponderEliminarPara além disso o rapaz/ homem é giro de se ver e belo de ouvir! Tem cada entrevista interessante dele no youtube!
ResponderEliminarAinda esta semana falei com um ex-combatente da guerrila disse-me ele colonial. "menina aquilo nao era uma guerra mas era uma guerrilha, o inimigo não era visivel, podia estar em todo o lado, um terrorista não se mostra" e eu pensei logo neste livro.
ResponderEliminarAcabei há 3 dias O meu irmão e não gostei tanto como esperava gostas MAS o Afonso Reis Cabral parece-me um escritor tão mais interessante que todos os outros. Anseio ler este e o Pao de Açucar também. Só o facto de não nos impingir um livro anualmente faz dos livros que tem mais apelativos na minha opinião.
Bem haja!