Pronomes
Em tempos, recebi várias queixas por ter escrito aqui no blogue que uma pessoa que escrevia (e que eu publicara) era extremamente jovem mas «uma senhora escritora»; como essa pessoa era não-binária, levei nas orelhas da Comissão de Igualdade de Género por lhe chamar «senhora» quando na verdade estava a fazer-lhe um elogio. Mas, como um problema nunca vem só, descobri uma das queixosas num vídeo em directo a acusar-me de ter usado «o pronome senhora». Só que «senhora» é substantivo, e não pronome... É o que temos e os pronomes estão mesmo pelas ruas da amargura... Em primeiro lugar, porque uma tradução apressada do impessoal «you» entrou no português e nunca mais vai sair, substituindo um «nós» ou um «se» que seria muito mais normal em frases do tipo «É normal, quando chove, vestir-se/vestirmos uma gabardina» (em vez de «vestires», especialmente se não tratamos por tu o nosso interlocutor); mas ainda pior é termos comido definitivamente os pronomes reflexos em verbos como «reunir», «resignar», «derreter», «casar» e muitos outros, pois uma pessoa «casa-se» mas «casa o filho com uma rapariga adorável», e o pronome reflexo faz toda a diferença, embora hoje as pessoas só casem umas com as outras. É um desabafo porque, vindo a ouvir rádio antes de aqui chegar, soube que as pessoas agora não «se reúnem», apenas «reúnem», não sabemos é o quê.
Quanto à comissão da igualdade do género, pelo relatado, apenas fazem prova de estupidez na cegueira de imporem uma igualdade que não se impõe, existe e instala-se por força da evolução e do esclarecimento, da justiça. Criticar alguém por dizer "senhora" (seja por elogio ou reconhecimento do seu sexo) é apenas prova de ignorância, e, de imbecilidade, ou pior, de má-fé!
ResponderEliminarComo não sou criticável, por invisibilidade, não quero saber e é o que penso.
Quanto ao uso da nossa língua-mãe, parece ser um problema de inteligência artificial aliada à ignorância natural:
- A tradução "à letra"! Esta feita sem olhar ao sentido nem ao enquadramento da frase ou da palavra. Não se atenta ao conjunto, à frase formada por essa tradução feita pela colagem de palavras de forma desconexa ou inconsequente. É o que fazem os tradutores automáticos, chegando a ser aflitivo ler notícias, pelo uso e abuso dessa tradução sem entendimento, automática, que deturpa o texto e agride a nossa língua, logo, a nossa sensibilidade.
Causa-me engulhos ouvir os "repórteres" a dizer "ouve-se o som de rebentamentos" em vez de "ouvem-se explosões". Isto ainda vou ouvir algum a referir muito "odoricamente", a "rebentação de bombas".
Lê-se pouco, portanto, é o que se conclui!
Porém, escreve-se mal, concluiu-se logo em seguida.
Assim sendo, o que se lê é responsável pelo alastrar desse mau uso da linguagem e desrespeito pela gramática, pelo vocabulário, até pela ilustração. Torna-se difícil fazer a devida interpretação do texto e alcançar o seu cabal entendimento.
No entanto parece ser esta a escola actual que forma os tais jornalistas, repórteres ou lá o que sejam, os tais que não têm vocabulário e nem conseguem produzir um discurso fluido, conexo, tendo de intermear cada duas palavras com interjeições "haaa...", ou prolongar as palavras "porqueeeee....", ainda repeti-las: "os bombeiros chegaram... haaaa... rápidamenteeeee.... haaaa... aqui ao local, ao local do incêndio, aqui mesmo onde estamos... haaaa... vindos deeee, vindos portanto do quartel..." .
É falta de ler, de praticar a leitura e de conversar com elevação e ouvir pessoas instruídas.
Graças a Deus que aqui neste Espaço Extraordinário é possível ler gente de qualidade que se exprime como tal, como uma verdadeira ilha literária. É o que me atrai sobretudo, a mim traça dos livros, barrão ignaro e expatriado inculto, que esvoaço atraído por esta luz que parece brilhar isolada no nosso deplorável panorama informativo.
Saudações tracejantes cá da Cidade Morena.
PS: Será que a tal e preclara comissão da igualdade do género me poderia esclarecer sobre como deverei dirigir-me a seres de sexo indefinido à semelhança do tal e célebre José Castelo Branco, "senhor" ou "senhora"?
Já agora, agradecia, para não cometer uma gaffe social que possa valer-me um processo por descriminação.
Exemplificando o que acabo de escrever:
ResponderEliminarNotícia - "Um tribunal do Irã condenou a iraniana ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, Narges Mohammadi, a mais seis meses de prisão junto a outras quatro prisioneiras por protestar na cadeia contra a execução de um detento, informou sua família nesta segunda-feira."
Vejamos, se estou correcto, mas noticiaria deste modo:
Um tribunal do IRÃO, agravou em seis meses a pena de prisão da VENCEDORA do PRÉMIO Nobel da Paz, Narges Mohammadi, por conjuntamente com outras 4 detidas, ter levado a cabo um protesto contra execução de um prisioneiro. Segundo informação divulgada pela sua família, nesta Segunda-feira.
Vão dizer-me que a notícia original está escrita por um brasileiro... mas isso não faz com a mesma não esteja escrita de forma pouco elaborada, descuidada e até pouco correcta.
"soube que as pessoas agora não «se reúnem», apenas «reúnem», não sabemos é o quê."
ResponderEliminarEu diria que há muita ignorância reunida e, o que é mais, felicidade - pois como advoga o poeta Thomas Gray "ignorance is bliss".
Mais umas gerações e voltamos a andar com as mãos no chão. Que até lá não me doam as costas...
Boas leituras
A Maria do Rosário «levou nas orelhas» da Comissão Para a Cidadania e a Igualdade de Género? E, em resposta, não a mandou para... aquele sítio? Era o que eu teria feito.
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