A lição de Proust
Penso que foi no podcast Vale a Pena de Mariana Alvim que fiquei a saber que o último volume da Recherche foi apontado pelo escritor colombiano Juan Gabriel Vásquez como uma das suas leituras-chave. Custa-me dizê-lo, mas não passei dos primeiros três volumes da Recherche. Conheço duas fãs incondicionais de Proust que a lêem e relêem continuamente, mas também conheço alguém que diz que é incrível como alguém consegue escrever cem páginas sem sair do lugar, mas que aquilo não é para toda a gente. Nem sei onde posicionar-me entre estas duas opiniões: percebo que é genial, um jogo fantástico entre escrita e memória, mas também acho chatinho (e, além disso, embirro com o Marcel, desculpem). Tudo isto para dizer que nos últimos tempos andei às voltas com um livro que percebi logo que era bom (não tanto como Proust, mesmo assim) mas que, quando o lia na cama, dava-me o sono ao fim de poucas páginas. E, porém, era incrível como a autora, Marlen Haushofer, descrevendo o dia-a-dia praticamente invariável da sua protagonista no campo, na companhia de uma vaca e de um cão (há gatas, mas passam o dia na delas), consegue fazer maravilhas, lá está, sem sair do sítio. O livro tem sido enormemente elogiado e é um hino à natureza. Chama-se A Parede porque, num fim-de-semana que a protagonista foi passar na cabana de caça de uns amigos, se ergue uma parede invisível na montanha que a vai isolar para sempre do resto do mundo. Sim, a parede não a deixará sair de onde está e obrigá-la-á a sobreviver num ambiente que não era o seu e a tornar-se outra pessoa. É de algum modo algo buñuelesco, curioso e inteligente, mas eu achei-o levemente chatinho. A tradução, boa, é de Gilda Lopes Encarnação.
Confesso que me perdi... qual o livro de que está objectivamente a falar?
ResponderEliminar"A parede"? E o nome da autora é...
Proust e hinos à parte, é capaz de ser interessante e gostaria de o avaliar.
Saudações emparedadas (estou no escritório) cá da Cidade Morena.
"Em busca do tempo perdido" é enorme. Fraco, fraquinho, para mim, para falar dos mais falados do século XX, é o "Ulisses" de James Joyce: um exercício de pedantismo, uma estopada.
ResponderEliminarOra aqui está um apontamento corajoso da M. Rosário P.
ResponderEliminarDiz, com toda a sinceridade, que M. Proust é um chato, e não conseguiu lê-lo todo. E fez muito bem, usou um dos direitos do leitor de que fala o Pennac.
A M. Rosário não teve receio de beliscar uma das vacas sagradas da literatura universal.
Mas eu aplaudo porque sei que M.R. é uma excelente leitora.
Proust foi uma paixão minha, por uns tempos, embora não tivesse lido tudo de fio a pavio, naquela edição da Livros do Brasil, tradução de Mário Quintana. Aquela escrita de filigrana fascinou-me. Depois cansei, naturalmente. Gosto de lá voltar de vez em quando e continuo a preferir a tradução de Quintana à do Pedro Tamen - de que só comprei o primeiro volume.
Com a idade fui adoptando cada vez mais o critério do "apetece-me". Umas vezes gosto de estar à conversa com o F. Pessoa, outras vezes fujo dele, arrumo-o na estante - dependendo também do heterónimo, está claro.
Há dias em que gosto de me enegrecer com a Florbela Espanca, outros em que a mando outra vez para a cova.
Os grandes russos ou os Thomas Mann são para os tempos longos, sem mais nada.
E por aí adiante...
Por vezes ainda me angustio por ver o fim da vida mais próximo e não conseguir ler TUDO.
Mas logo me apaziguo: já li tanto, já vivi tanto!...
Angústia, sim, por tantas crianças mortas em Gaza - naquele genocídio consentido pela nossa inefável civilização dos grandes escritores, etc e tal....