O que fica por ler
Incluo-me num gupo de pessoas (penso que bastante alargado) que vai deixando para a reforma alguns livros que pedem tempo, disponibilidade mental, atenção redobrada, leitura sem interrupções. No meu caso, há, entre outras, uma obra magna que não li na juventude e que, sei lá porquê, resolvi eleger para a idade madura. Falo de O Homem sem Qualidades, de Musil, que vergonhosamente continua à minha espera na estante. Tenho, mesmo assim, a consciência pesada desde que li na revista Máxima há vários anos uma crónica do escritor António Alçada Baptista, na qual ele confessava ter guardado muitas obras longas e densas para quando fosse mais velho e, tendo chegado a essa idade, sentia tristemente não ter já as suas faculdades a 100% nem a paciência e a dedicação necessárias à leitura dessas obras de maior densidade. Pois não é que eu mesma já vou sentindo o mesmo?, que me disperso com muito mais facilidade do que antes e que frequentemente dou por mim a contar quantas páginas ainda me faltam para chegar ao fim, fugindo-me a paciência para livros que, mais cedo na vida, teria lido decerto com outro entusiasmo? Pois é, o cineasta António-Pedro Vasconcelos, com quem eu falava muitas vezes de livros, dizia que o pior da morte era o que deixávamos por ler... Tinha toda a razão, claro, e o pior é que alguns livros já não os leremos por manifesta impossibilidade...
Bom, creio que se poderia formar um clube!
ResponderEliminarO Clube dos Livros Adiados...
Pela minha parte, passa-se a mesmíssima coisa, ou seja, tenho uma série de livros guardados "para um dia", o que significa quando tiver tempo e a paciência. São os livros que não lerei no imediato, pelas mais variadas razões. O interesse está lá, foi o que me fez comprá-los ou reservar, mas não sendo oportunos vou-os pondo de lado.
Todavia também me começo a preocupar com esse futuro literário uma vez que sinto cada vez menos paciência para ler aquilo que não me apetece mesmo, e, estou cada vez mais limitado no que tange ao apetite das leituras. Assumo mesmo que já pus alguns definitiva e literalmente na prateleira. Pressinto que vai haver livros que afinal não lerei nunca.
Porém, será isso assim tão grave quando já se está na fase descendente da vida? Quando já importa menos aquilo que se apreende e mais aquilo que nos conforta ou dá ainda algum prazer? Portanto talvez não perca mais do que já perdi, em os não ler e poder reflectir ou falar sobre eles.
Enfim, dúvidas de uma traça dos livros, cuja vida não é fácil e morrerá sem ter lido nem sequer uma ínfima parte daquilo que deveria ter lido, por impossibilidade cronológica e mental.
Mas que isso não nos tire o sono, sendo apenas mais uma das muitas coisas que não lograremos realizar.
Estimo que o meu fantasma, frustrado e saudoso, não permaneça e se arraste pelo salão lá de casa, em volta das prateleiras, fazendo ranger as portas das estantes, movendo livros, arrastando cadeirões, fazendo tremular cortinas, continuando a assombrar aquele cómodo que com excepção a mim que fazia dele a minha toca, tem sido considerado sinistro e justamente fantasmagórico pelas gerações mais jovens que não o frequentam.
Sentem-se vibrações de leitores antigos, a presença das fotos ou quadros antepassados, no silêncio contricto do piano acusadoramente mudo porque desafinado ou nas caixas dos violinos sem cordas, igualmente silenciados pela aparelhagem de som que os relegou para o limbo da inutilidade meramente decorativa como as peles que cobrem o chão raramente pisado.
Cemitério de livros e de colecções, sou o único que ainda o frequenta, nem a Milá gosta de ir fazer limpeza se não for acompanhada pela minha mulher que embora pouco impressionável, também sente arrepios naquela divisão que me é tão cara.
Eheheh! Saudações tétricas cá da Cidade Morena, hoje sombria e chuvosa.
Em compensação, todos os dias temos brilhantes novos livros que só nos é possível ler por ainda estarmos vivos !
ResponderEliminarOra bem, lá está... é como o coxo, que tem uma perna mais curta, mas em compensação tem a outra mais comprida!
ResponderEliminarSugiro substituir a angústia dessa, vamos lhe chamar, incompletude de leituras, pela possibilidade.
ResponderEliminarA possibilidade de, se assim o desejar, se achar necessário, pegar no livro e lê-lo.
Afinal, qual o mandamento, divino ou não, que nos impele para a leitura completa do cânone, das novidades, dos long sellers, dos best sellers, e da panóplia de recomendações hoje existentes?
Cabe a cada um fazer a sua selecção, nos livros como na vida em geral. E viver satisfeito com isso. Sem remorsos ou preconceitos.
Boas leituras (com muita tranquilidade)
Sabedoria pura esse seu post. Obrigado ! Não temos outra saída que não seja a que nos propõe.
ResponderEliminarJá agora, a despropósito, Muma sugestão de leitura: “As minhas estúpidas intenções” de um jovem prodígio italiano, Zannoni de seu nome. Um esgrouviado de 25 anos, que sem ter ido à universidade, escreve um romance erudito que faz ressoar toda a cultura ocidental. E os personagens são todos animais, fuinhas em particular. Tour de force ! O talento cai onde Deus ou o Acaso querem, não em quem se prepara para o receber. Triste é va condição humana… Ou talvez não.
Na minha lista de livros, há : " A montanha mágica"; " Os irmãos Karamázov", " Guerra e Pax", " Em busca do tempo perdido", etc, etc....
ResponderEliminarObrigada pelo seu parecer. É que fui eu que publiquei esse livro. Pena é que o rapaz não viaja de avião e não quis cá vir promover o livro belíssimo que escreveu...
ResponderEliminar...adio, excluindo a ideia de mais tempo para leitura no futuro dos dias, Roberto Bolaño com o seu "2666". Honestamente, apenas por ser um livro que Patti Smith lê e relê, tal a sedução que a obra lhe provocou... como tal, fiquei curioso, adquiri, mas vive na prateleira, quiçá a aguardar a sua hora (talvez improvável, não sei) de ser por mim viajado. Dei num destes dias com a sua obra poética numa Bertrand... mas hesitei – por um lado porque numa crítica semanário Expresso, a sua poesia não era por aí além sugestionada, e por outro lado, a construção poética daquilo que li, não representava a minha praia.
ResponderEliminarAguardo, "A possibilidade de, se assim o desejar, se achar necessário, pegar no livro e lê-lo.". Gostei de todo o seu post, caro Leitor Improvável. Bom fim‑de‑semana para todos!
Um livro bom por ler será sempre o passo seguinte do bom leitor, que por isso mesmo, se sabe sempre um derrotado: nunca será capaz de ler tudo o que de bom se fez e, muitas vezes, é a consciência dessa derrota que o leva a seguir um caminho: o de uma obra única, de um escritor único, da releitura na tentativa de uma compreensão maior, ciente de que o risco de querer ler tudo o levará apenas à superfície, e o leitor incomum quer mais do que isso.
ResponderEliminarRevista LER - Verão 2024
Texto de Isabel Lucas