Vaidade
Nós, editores, lidamos quase todas as semanas com os egos dos autores (que, ainda por cima, nem sempre são proporcionais ao seu génio ou talento). Aconteceu-me muito ao longo da minha vida profissional serem os escritores mais inexperientes os que mais se indignavam com uma simples emenda, e isto para dizer que muitos dos grandes autores percebem logo que falharam e até ficam gratos por termos dado com o erro ou a distracção. O Manel contou-me que há muitos anos, quando Lobo Antunes começou a publicar na Dom Quixote e lhe encontravam aqui e ali coisas que pareciam não bater certo, não só ele concordava como dizia logo aos editores que corrigissem, nem queria ser ele a ter esse trabalho. Mas às vezes também os consagrados mostram ter egos insuportáveis e, quando o Manel era ainda um jovem, no fim de uma reunião de trabalho, um desses grandes poetas que Portugal já teve entregou-lhe, à laia de presentinho, um bilhete de eléctrico já usado. Não percebendo o que fazer com aquilo, o Manel atreveu-se a perguntar para que era, ao que o génio respondeu que se tratava de uma coisa que ele próprio utlizara numa viagem e que, portanto, teria o seu valor. Que ego, não?... Verdade seja dita que o bilhete foi deitado ao lixo nesse mesmo dia, mas, pensando no post de ontem, será que, se fosse hoje, alguém o poria à venda no OLX, dizendo tratar-se de um bilhete com que viajara fulano de tal?
Atrevo-me a pensar que tal não sucederia. Mesmo tratando-se de um poeta "nobelizado", provavelmente padecendo de fraca notoriedade pública e, sobretudo, digital/mediática, a procura por tal artefacto seria reduzida ou mesmo nula.
ResponderEliminarO intrigante para mim é mesmo o fetichismo de tal actividade: (parafilias à parte) em que medida possuir o objecto X pertencente à pessoa A me enriquece ou satisfaz?
Por estas e por outras, penso eu, a realidade supera muitas vezes a ficção.
Boas Festas
Boas Leituras
Possuo algumas coisas que pertenceram por sua vez a pessoas que admirei ou admiro.
ResponderEliminarNunca as comprei, tive a fortuna de me terem sido oferecidas, até por falecimento tendo elas feito questão nisso...
Vejo muitas vezes à venda objectos ou pertences de pessoas, digamos célebres. Não me sinto nem nunca senti tentado a comprar. Percebo o valor que tenham, até certo ponto e para coleccionadores, não para simples fãs. Uma navalha, uma espingarda, um livro de alguém que eu admire, sobretudo porque se tenha lembrado de me o oferecer como recordação é sinal que foi mútua a consideração. Porém, comprar a caneta do Hemingway, os óculos da Salma Hayek, as cuecas do Elvis, o brinco do Cristiano Ronaldo ou o negligée da Raquel Welch, é algo que não faz para mim nenhum sentido...
Lembra-me a história lida algures nas Selecções do Readers Digest, tendo Picasso ido almoçar com Groucho Marx, no entusiasmo da conversa o pintor salpicou de molho a camisa do humorista. Pediu aquele ao empregado um tira-nódoas e logo este exclamou: Nem pensar, assine a minha camisa!
Pois, rir é o melhor remédio...
Saudações cá do Bairro Ribatejano, à lareira que é tempo dela e apetece!
Se ainda tivesse lançado um verso no bilhete ... valeria como marcador de página.
ResponderEliminarA propósito de:
ResponderEliminar"os escritores mais inexperientes os que mais se indignavam"
Ser um jovem escritor requer uma crença imensa em si próprio, capaz de suportar horas infindas de solidão, de acreditar firmemente no seu talento de exceção, mesmo após sucessivas rejeições de manuscritos, de resistir a críticas depreciativas da família e amigos sobre a inutilidade da sua atividade, etc. Por isso, tenho pelos jovens escritores uma admiração e gratidão imensas, e compreendo a sua vaidade (um "defeito" imprescindível para não de deixarem afundar).
Se aceitarmos que o perfil do jovem escritor de sucesso é o de um resistente que só não desistiu no seu caminho porque crê, contra todo o bom senso e contra toda a evidência, que é dotado de capacidades criativas superiores que acabarão por ser reconhecidas.
Como se sobrevive a uma repetida reação negativa de editores, amigos e da sociedade que acossam um jovem escritor, empurrando-o para a desistência? Só consegue sobreviver se tiver um ego enormíssimo. Os que não o têm, sejam eles dotados de muito talento, nunca chegarão a escritores publicados porque desistirão perante tantas e sucessivas contrariedades.
Por isso, parece-me que é mais do que natural, diria mesmo quase obrigatório, que os jovem escritores de sucesso manifestem um ego desmesurado e expressem narcisismo patológico. E nós, pobres seres desprovidos de criatividade literária, aceitemos com compreensão essa vaidade, sem a qual não teríamos o prazer de ler as suas criações geniais.
Já que António Lobo Antunes é referido no interessante post acima, lembremos que foram muitas as editoras que rejeitaram o manuscrito de "Memória de Elefante", o seu primeiro romance, segundo confessou o próprio António Lobo Antunes. Tantas que ele desistiu de o publicar, sendo o seu amigo Daniel Sampaio que insistiu em encontrar quem o publicasse e acabou por obter a sua impressão numa pequena editora que acabara de nascer. O excelso talento literário de ALA fê-lo escrever obras-primas, mas foi o seu enorme ego que lhe permitiu chegar a escritor, ao não desistir de acreditar em si próprio.
Bendita vaidade, a de ALA !
Verdade, não deve ser fácil ser escritor e criar reputação, ter lugar seu. Sinto-me sempre em dívida para com Daniel Sampaio e a sua bendita insistência. E mais ainda com Lobo Antunes pelo legado que nos deixa.
ResponderEliminarDe qualquer modo julgo que analisar o que está mal ou menos bem num romance faz parte do trabalho de edição e não desmerece da possível qualidade que detenha. Ter um ego tamanho que se recuse a ver o que está mal, não me parece caminho.
De acordo, em relação à abertura que o escritor deve ter para as sugestões do seu editor. O meu ponto essencial é defender que o ego hipertrofiado, a personalidade narcisista, é uma deformação profissional quase indispensável para que o escrevinhador anónimo venha a ser reconhecido como escritor de sucesso. Há que perdoar-lhe a vaidade porque é, em muito casos, reflexo de uma ferramenta imprescindível para persistir na sua dedicação ao ato criativo, mesmo quando só recebe apreciações negativas da sua atividade.
ResponderEliminarPost curioso, giro, que vem ao encontro daquilo que pessoas a trabalharem de certa forma com os autores, aguardando a sua batuta para a validação estética de um trabalho de capa, sentem por alguns destes, por aqueles que possuem um ego maior... ora põe o nome completo, ora tira o nome do meio, ora discute o peso do tamanho da sua designação, ora insiste em colocar uma pintura sua, sem graça, a engalanar a cara da sua obra... passando sobre a tarimba dos próprios editores e directores de arte.
ResponderEliminarNão variando, todo o vosso diálogo deixou aqui perspectivas e nuances interessantes que gostei muito de ler.
Mas também dei comigo a pensar: não se passará algo tipo "paredes meias", que as Casas Editoras e os meus queridos Editores efectuam para os promover, levando gente às Feiras, propiciando sessões de autógrafos? Para que nos serve o autógrafo? Não será este, equivalente a um pedaço de nada, idêntico a um botão de punho, um gorro, uma carta pessoal que lhes foi pertença e que alguns gostam de coleccionar?
Compreendo estes últimos, valorizando pormenores, pedaços de vida de alguma gente que valorizam (e tantas vezes se nos colam, nos engrandecem e constroem)... e até entendo quem lhes coloque flores no cemitério, quem galgue fronteiras para pisar o chão que os mesmos pisaram... compreendo bem mais, que o tal autógrafo num livro que esse sim, por si, valerá à séria para quem o lê e se conforta.
Bom fim‑de‑semana!!!
Eu trabalho sobretudo clássicos - graças a Deus - mas as minhas experiências com Autores vivos vão, em boa parte, ao encontro do relatado. Autores que aquando do processo de edição da sua primeira obra em tudo concordam com o Editor, na segunda - depois de já serem "Autores publicados" (mesmo quando essa sua primeira edição aconteceu em editoras de vão de escada) - são intolerantes a qualquer intrusão por mínima que seja na sua arte a ponto de batalharem pela manutenção de gralkhas básicas de português porque são "marcas de estilo".
ResponderEliminarMas piores do que Autores Vivos são os herdeiros de Autores, muitos dos quais inviabilizam a publicação de obras pois em vida nunca leram o Autor ou tiveram qualquer apreço pela sua obra mas quando se tornam herdeiros acham que têm ali uma mina de ouro e tornam-se os defensores do seu falecido com um amor e vitalidade que nunca demonstraram em vida.
Isso faz-me sempre lembrar um ensaio do Tim Parks que colocava em questão a relevância dos Direitos de Autor post-mortem recairem nos herdeiros dos Autores. No que me diz respeito, tendo em conta a lógica dos mercados editoriais e a sua fixação na "novidade" aliada à gradual sobre-extensão dos períodos de protecção dos direitos de Autor - lógica que não é já criada para a literatura ou a arte em geral e sobretudo para patentes e marcas visuais - como já aconteceu com a extensão dos 50 para os 70 anos na UE (na altura uma imposição da Disney cujo Rato Mickey iria cair no domínio público na Europa em troca de uma Disneyland em Paris). Olhem se filhos e netos começassem a reclamar do Estado ou das empresas o direito de receberem as reformas dos seus falecidos pais e avós?