Excerto da Quinzena

Como quem ouve uma melodia muito triste, recordo a casinha em que nasci, no Caleijão. O des­tino fez-me conhecer casas bem maiores, casas onde parece que habita constantemente o tumulto, mas nenhuma eu trocaria pela nossa morada coberta de telha francesa e emboçada de cal por fora, que meu avô construiu com dinheiro ganho de-riba da água do mar. Mamãe-Velha lembrava sempre com orgu­lho a origem honrada da nossa casa. Pena que o meu avô tivesse morrido tão novo, sem gozar direi­tamente o produto do seu trabalho.


E lá toda a minha gente se fixou. Ela povoou-se das imagens que enchiam o nosso mundo. O nasci­mento dos meninos. O balanço da criação. O traba­lho das hortas e a fadiga de mandar a comida para os trabalhadores. A partida de Papai para a América. A ansiedade quando chegavam cartas. Os melhora­mentos a pouco e pouco introduzidos com os dóla­res que recebíamos. Mamãe deslisava como uma sombra silenciosa no trafêgo da casa. Mamãe-Velha não parava, indo de um lado para outro, como se nada pudesse fazer-se sem a sua fiscalização e os seus gritos. A minha avó só sabia querer a sua gente descompondo.


Ao lado da casa grande, de quatro quartos, ficava a casinha desaguada, onde Mamãe fazia a despensa, e que nos dias de chuva servia para abrigar as gali­nhas da criação. Encostada à casa de moradia, ela tinha de longe, com o seu teto retangular, inclinado para drenar a água, um ar de bezerro a pojar nas mamas da mãe.


Baltasar Lopes, Chiquinho

Comentários

  1. "Só uma utilização prolongada confere alma às coisas. Só as coisas amadas são dotadas de alma. Flaubert queria ser sepultado com o seu tinteiro. Mas a jukebox é demasiado grande para ir para a sepultura comigo. Estou convencido de que a minha jukebox tem exactamente a minha idade. Mas de certeza que me vai sobreviver. E este pensamento encerra algo de consolador..."

    Não coisas - Byung-Chul Han (Relógio d'Água)


    Boas leituras

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  2. Por força do lado profissional temos tantas vezes acesso a coisas que se vão acumulando, neste caso a obras a que não damos o devido valor. Há anos fiz a capa desta obra para uma edição do Dr. Assírio Bacelar, nunca o li na íntegra, nem sei mesmo se não dei o livro recentemente, quando tive necessidade de desocupar uma casa que lhe dava abrigo, temperatura e carinho.
    Li o trecho que dá razão de ser a este espaço de hoje, achei belíssimo... e no final fiquei surpreso por ser um tesourinho que possúo ou possuí, a quem nunca dei um mimo ou permitisse mimar-me. É quase uma alegoria dos nossos dias.
    E que poético, que aprazível, que autêntico, o excerto que o "Leitor Improvável" nos trouxe também aqui. – Assim como ele deseja, boas leituras a todos, também.

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  3. [Fausta] surgiu à entrada de rosto inquieto e escurecido e os olhos cheios de malqurença, por sob as sobrancelhas franzidas. Mas Sebastiano, satisfeito por ter encontrado a saída do labirinto em que se havia metido, sentia-se de humor jocoso e nada desejoso de enfrentar imediatamente o desagradável argumento das suas futuras relações. Mostrou-lhe o sapo que segurava na mão, dizendo que no caminho de regresso a casa o animal o tinha feito parar e lhe suplicara que o trouxesse à formosíssima Fausta de quem todos os sapos das vizinhanças não faziam senão falar. Esta extravagância agradou a Fausta, que esperava uma cena de ciume; e sem mostrar de nenhum modo a repugnância que geralmente as mulheres costumam ter pelo verruguento anfíbio, estendeu a comprida mão morena e magra em que brilhava um diamante e, com a ponta da unha escarlate, tocou na boca fechada do sapo.
    - Quer dar-te um beijo - disse Sebastiano, enfatuado e cheio de fantasia.
    - Um beijo? - repetiu ela, franzindo as sobrancelhas com agrado. - Um beijo aonde?
    - Aqui - disse Sebastiano indicando a orelha escondida entre os cabelos.
    [...].
    - Está a falar, está a falar - exclamou ela após um momento, com um riso acre; e, efetivamente, o sapo mexera a boca como se quisesse sussurrar qualquer coisa.
    [... Sebastiano] perguntou a Fausta o que lhe havia dito o sapo.
    - Que temos de deixar-nos - respondeu ela, olhando-o muito séria.
    Alberto Moravia - A Mascarada
    Livros do Brasil, tradução de Rosalia Braamcamp

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