Excerto da Quinzena
Observo-a. As suas mãos são transparentes, e tem uma tatuagem imprecisa no bíceps esquerdo. Uma cobra-real. A sua saia malva deixa entrever um delta de varizes na barriga das pernas, uma cartografia azul-clara. O seu corpo regista tudo. Posso ler todos os amores passageiros, os abortos, as traições, as viagens, as rendas por pagar. Um flamingo ferido, um anjo tantas vezes caído que já não consegue levantar-se. O verniz das suas unhas está lascado, deslavado, tão cansado como as suas olheiras. Quase adivinho uma tosse forte e profunda que lhe dilacera o tronco muito magro -- como se cada amante de passagem tivesse bebido o ar do seu peito até à última gota. Apesar de uma espessa camada de maquilhagem, vejo duas, três crateras no seu nariz. Treme enquanto fuma o seu longo cigarro mentolado.
Velibor Čolić, O Livro das Despedidas, tradução de António Gonçalves
ResponderEliminarMAFALDA MORREU
Podia ser o título de um filme, mas não é! De todo… parece que actualmente toda a gente confunde a vida com filmes, mas não é assim, a vida é a vida, é dura, magoa e é difícil, complicada! Convençam-se, a vida não é um filme e no fim não nos safamos!
Aliás saímos dela magoados, mas vale a pena vivê-la! Até que… pois, morramos.
Pois é, fomos jovens, tontos e alegres, sei lá, e a Mafalda tinha um tupperware! O dito-cujo era um carro, um Citroen Mehari, carro pouco divulgado que existiu nos anos 80 quando fomos magníficos alunos e Évora era o nosso Universo, ó Prof. Ário Lobo de Azevedo, julgavas eras o único magnífico?
Iss’é qu’era bom! Olha lá!
Fazia-se a viagem no citado (carro!), com paragem nas bifanas e caracóis de Torres Novas, no Verão era um espectáculo descapotável e no Inverno envolvidos em mantas.
Eu, que nunca fui de grupos, saltitava pelos grupos… era o que se diz um pinante! Mariola de muitas facetas. A Mafalda sabia o que eu era, sabia mesmo, a ponto de me desenhar! O marido, 40 anos depois, trouxe-me o original a lápis, numa folha: Era mesmo eu e as minhas patilhas!
Sabia tão bem quem eu era, que 40 anos depois me ralhou por fazer apologia do CHEGA!
Era como se fosse a minha mãe a ralhar, com a suavidade das mães.
A suavidade do seu olhar luminoso e azul como o mar que me orienta. Ou o Céu! Já estaria doente nessa altura, mas eu não sabia.
Quando chegamos a uma certa etapa, falo da vida e da idade, percebemos muita coisa e sobretudo vamos buscar aquilo porque passamos e nem nos demos conta.
A Mafalda morreu, e, com ela mais um pouco do que fui! É verdade, parece impossível e até estranho, porque estivemos tanto tempo sem nos falarmos, mas nos reencontrámos no facebuque, onde os pobres conseguem ser Miguéis Sousa Tavares!
Foi ontem que tive a triste notícia.
(continua)
(continuação)
ResponderEliminarFoi também ontem que a Feliciana me disse que a filha, 4 meses, estava “a deitar fora”… disse-lhe que fosse na consulta. Avisei a Dília para chamar a sobrinha e ajudar no serviço lá na casa da Baía Farta. A Feliciana trabalha para a empresa, nós. Fui eu que a empreguei, moça esforçada e humilde com 5 filhos de 3 pais diferentes. Aqui é assim – não vale a pena. Conheço-a há bastante tempo e ajudei a melhorar a vida. Foi mãe há pouco, perguntei o nome da menina, não tinha, tratei-a por “ela”, gostou e ficou: é Ela.
Na noite passada, pela 1 hora da manhã telefonou a pedir ajuda, estava a fazer muita febre, lá fui, carro trancado, ao bairro, buscá-las. Fica a escasso quilómetro e meio daqui, depois da vala do Coringe. Fomos às urgências pediátricas do hospital central de Benguela – pessoal esforçado e médicos cubanos.
Não recomendo a experiência, aliás não foi a primeira vez… um bébé minúsculo, recém-nascido ou pouco mais, ligado a um tubo, agonizava e eu arrepiava. Outras crianças com o atávico fatalismo africano das mães envoltas em panos aguardavam sobreviver ou nem por isso. Aqui é assim… Não estou imunizado e nunca estarei.
A Ela, despida e em fralda assemelhava-se a uma rãsita, tronco franzino, os membros fininhos dos seus 4,700 Kg dos 4 meses, fracamente agitados com o tubo do soro. Nem chorava, fraca, “mole” no dizer da mãe.
Hija? Perguntava a médica cubana? Que sí, em castelhano e para descomplicar justificando a minha presença onde eram proibidas visitas, sabendo bem que ser branco ainda pesa, porque se pode pagar e continua a inspirar respeito, tanto a enfermeiros como a cubanos mercenários… desculpa lá ó Mamadou, mas tu é mais bares no Bairro Alto, nunca terás entrado num hospital africano.
Já vi muita coisa, acreditem, não foi a primeira vez que estive num hospital africano, se bem que imagino no Darfour ou em Gaza seja muitíssimo pior do que em Benguela, nas suas limitações que fariam corar os hospitais portugueses.
Mas custa-me sempre! Creiam.
A mim, caçador empedernido, assassino de animais, matador de peixes, comedor de leitões e borregos, aficionado da tortura na arena, gajo que nem por isso grama muito aquela malta gay que se exibe nas TV, pois, a mim, custa-me, que hei de dizer? Talvez porque não tão sensibilizado para o abandono de animais urbanos…
Saímos da pediatria eram 4 da manhã. Há uma farmácia ao lado do hospital, batendo á porta a acordar segurança e funcionário dentro de grades - o segurança serve para confirmar o pagamento não se iludam - forneceu a medicação. Pelas 8 já lá estava de volta com mãe e bebé que ficaram para fazer análises, eu saindo depois para o dia normal.
A bebé, Ela, está bem, a febre baixou.
Outros não terão tido a mesma sorte… não sei se é o karma dos bebés ou o meu, não mesmo!
Parece que temos todos uma razão para existir.
Fez-me pensar na Mafalda!
Obrigada pelo que fez e escreveu. Que tenha um dia bom.
ResponderEliminar"Em suma, o declínio da leitura não é uma história alarmista, mas uma realidade estabelecida. No entanto, porque é que deveríamos ficar surpreendidos? O tempo é um bem limitado. Tivemos de compensar o crescimento explosivo do entretenimento digital. Todas essas horas dedicadas à Netflix, ao Fortnite e ao TikTok não caíram do céu. Foram extorquidas de outras actividades, incluindo o sono, as interações intrafamiliares, os trabalhos escolares e, claro, a leitura. Milagroso seria se a leitura tivesse saído ilesa da máquina de lavar digital que, nos últimos trinta anos, tem vindo a drenar uma parte cada vez maior da vida dos nossos filhos."
ResponderEliminarexcerto de Ponham-nos a ler!, de Michel Desmurget (Contraponto)
Boas leituras
Que narrativa linda! Um bom final de semana a todos.
ResponderEliminar"Li que a beleza, ao longo da História, sempre exigiu réplicas. Fazemos cópias de tudo o que consideramos esteticamente agradável, seja uma jarra, uma pintura, um cálice ou um poema. Reproduzimos essas coisas para as mantermos, para as prolongarmos no espaço e no tempo.Contemplar o que nos agrada - um fresco, um desfiladeiro cor de pêssego avermelhado, um rapaz, o sinal no queixo dele - é, por si só, replicar; a imagem prolonga-se no olho, multiplicando-a, mantendo-a. Quando me olho ao espelho, replico-me num futuro em que poderei não existir."
ResponderEliminarNa Terra Somos Brevemente Magníficos - Ocean Vuong