Verdes
Não é há muito que se ouve falar de vegetarianismo ou veganismo, mas os legumes e as leguminosas fizeram desde sempre parte da alimentação dos omnívoros. São Favas Contadas, o novo livro de Guida Cândido, vem revelar-nos que os vegetais já andam pelas nossas mesas há séculos, mesmo que alguns dos mais usados – como a batata ou o tomate – só tenham marcado presença na Europa depois das viagens de Colombo. Mas sabia que, por exemplo, se comiam couves na Roma antiga durante os banquetes para evitar a embriaguez e que, no período medieval, os legumes eram usados como resposta aos jejuns impostos pela Igreja? Que, sendo a motivação inicial do vegetarianismo a pureza espiritual, essa filosofia entusiasmou os Iluministas a ponto de acreditarem que a dieta vegetariana, associada à abstinência do álcool, podia resolver problemas tão graves como a pobreza e a fome no mundo? E que, apesar de o primeiro livro português exclusivamente vegetariano só ter sido publicado em 1916, podemos encontrar receitas com vegetais, em versão doce e salgada, desde o século XVI? Viajemos então com esta especialista em História da Alimentação aos primórdios do vegetarianismo e confeccionemos, tantos séculos depois, cinquenta antigas receitas com trinta espécies de vegetais nas nossas cozinhas modernas.

Só alguém mesmo muito desatento pode ignorar a importância dos vegetais na nossa alimentação, os quais aliás, são mesmo a base da nossa dieta omnívora - como muito bem foi dito!
ResponderEliminarNão é novidade, mas pode ser oportunidade... é claro. Já agora só falta alguém descobrir que todos temos costela judaica... ou que a homossexualidade é coisa nova!
A mim, irritam-me um bocado estes aproveitamentos e as "descobertas" bombásticas de quem se aproveita para promover idéias próprias ou de interesses.
Alguém ignora que o consumo de vegetais é uma característica de nossa culinária, e que os nossos pais e avós comiam sobretudo horta, batatas, pão e legumes? Que a carne era apenas conduto e temperava os legumes e horta, sendo estas a base junto com o pão?
Só há uns anos, é que se passou a comer mais peixe e carne, que era comida de rico, com o desenvolvimento económico e a ascenção de uma burguesia que passou a comer assim por ostentação e par mostrar que podia, aliás por gerações o almejaram.
Há a história dos novos-ricos do volfrâmio que pretendiam fazer açorda de pão-de-Ló, achando que isso é que era comida de rico.
É no fundo a figura que fazem os que agora descobrem o vegetarianismo, que é coisa bem antiga afinal, e, sim, provocava o desejo de comer carne, de que o povo era muito guloso.
Enfim, modas e no fundo ignorância a querer mostrar ilustração ou que se é muito desenvolvido.
Saudações omnívoras, por tradição e gosto pessoal, cá da Cidade Morena!
Atrevo-me a reproduzir o que penso...
ResponderEliminar"O almoço eram umas boas e olorosas postas de peixe-azeite, com salada de tomate e havia o eterno pirão por causa dos rapazes. Abri uma garrafa de vinho branco. Todos nos servimos do peixe e tomate, o Ari usando o molho da salada a envolver o pirão, como faziam. A tal Vi ficou suspensa a olhar para o prato. Eu normalmente como o peixe grelhado só assim, simples, eventualmente espremo limão por cima. Quer azeite? Limão? Jindungo? Perguntei ao ver a sua hesitação.
É que não como carne… titubeou sem saber muito bem o que fazer.
Ai-é? Mas isso é peixe! Declarei a fingir desinteresse pela farsa, mas estava a topá-la.
Não, é um animal! É que eu sou vegan, sabe.
Ora então está no sítio certo! Exclamei saudando com o copo de pé alto cheio de vinho branco, porque mesmo na mesa do pátio, eu exigia toalha de pano e os copos e os talheres adequados, o que já valera descomposturas à Isabéu que tardara em aprender o que para ela era incompreensível e tinha de ser, portanto, apreendido como uma rotina. O vinho é de origem vegetal, portanto não terá objecções?
Ah, não… O sítio certo? Deu um jeito aos óculos que pareciam desadequados ao seu nariz curto e adunco.
Esta gente é técnicamente vegan. Só comem farinha e lombi porque o peixe é caro e para ser vendido, a horta é para o mercado e não faz parte da dieta habitual, galinhas e cabras são moeda de troca e não bens alimentares, o leite não se usa, os bebés são desmamados a quissangua (bebida feita de água e farinha de milho).
Debicou pouco convictamente as rodelas de tomate e cebola, olhou a tijela do pirão e de esguelha o peixe, via-se que estava ainda mais pálida, de fome. Pois, mas no meu caso é uma questão de filosofia existencial, de coerência no respeito pela vida… disse com um ligeiro tom de superioridade.
Como lhe disse a maioria desta gente é como se fosse vegan, não por filosofia, mas por obrigação, percebe? Se pudessem escolher não eram, mas o que têm para comer na esmagadora maioria dos casos é apenas isto. E coloquei-lhe a tijela do pirão em frente.
As escolhas são próprias dos seres evoluídos, retrucou, têm a ver com os níveis da consciência.
Certíssimo, o que temos aqui são instintivo-reactivos. Olhou-me espantada e eu pisquei-lhe o olho. Como vê conheço a cassete, mas numa abordagem mais pragmática e menos teosófica diria que as escolhas são antes apanágio dos ricos, dos que têm as condições ou as possibilidades, os pobres nem por isso têm muitas opções.
Sónia T. mastigando vigorosamente uma boa garfada de peixe bem loirinho da grelha, carne rija, deu-lhe um cascudo na nuca que lhe entortou os pesados óculos de massa (definitivamente agradava-me!): Come e cala-te ó cambuta! Ela ouriçou-se e sibilou, porém a outra não se interrompeu: Julgas que estás onde? Achas que vou andar a arrastar-te por aí, meio-morta de inanição? Onde caíres é onde ficas, já sabes!
Eu, percebendo o dilema, atalhei: O risco é seu e da sua escolha, ser vegetariano por aqui é o mais prático mas nem por isso de bom resultado como na Europa, onde se cresce a leite e carne, há suplementos vitamínicos e medicina para remediar as coisas. Pode ver que são sequinhos de corpo, todos elegantes, mas vivem pouco e sobretudo adoecem muito, o que numa terra como esta e nesta situação quer dizer que morrem fácilmente porque debilitados pela alimentação deficiente.
Ficou a olhar-me como que envergonhada… estava cheia de fome e sem saber que decisão tomar, na verdade aqueles refegos e o corpo roliço não se formaram a comer alface, pensei eu. Estava óbviamente a representar um qualquer papel, talvez a tentar impressionar-me.
Deixa-te de tretas Vi, estamos onde estamos e aqui vai ter de ser assim, não há tofu nem soja, não vi brócolos nem nada parecido, vais ter de te aguentar. Faz umas férias de ti mesma, também não há golfe e nem noitadas, depois logo retomas a tua vida e as manias. Sónia T. espetou-lhe o garfo numa posta do peixe. Anda, enfarda mazé. Vá, pelas criancinhas fami