Excerto da Quinzena
E, no Outono, entrei para a escola.
A 7 de Outubro.
Escrevo em cardinal e não por extenso, porque foi assim que este número nos foi gravado a fogo: o desenho de um punhal deitado que dobrava a lâmina para baixo para se enterrar nos nossos corpos espantados de criança. «7.» Depois desse sete-seta, nunca mais voltaríamos a acreditar na bondade dos adultos. Na primeira classe, aprendíamos que a nossa infância morreria, todos os dias, mais um pouco.
A mãe levou-me pela mão, estrada fora, com outras mulheres que iam acompanhar os filhos no primeiro dia. Riam-se muito e falavam alto, nervosas.
«Ficas com o senhor professor que logo venho-te cá buscar.»
Havia crianças que choravam, que se agarravam à saia das mães, que se despegavam a custo ou à bruta, conforme o caso. Eu, não. Sabia que não adiantaria nada.
Várias mulheres repetiam por delicadeza, bem alto, a voz sempre nervosa:
«E se ele se portar mal, bata-lhe, senhor professor. Arrime-lhe, que tem a minha autorização.»
Possidónio Cachapa, A Selva dentro de Casa
Como os tempos mudam...
ResponderEliminarBom fim de semana.
Beijinhos
Correcto
ResponderEliminarAgora se for necessário, são os alunos que arreiam nos professores.
Boas leituras
"Os regimes democráticos exigem que esqueçamos e, por consequência, classificam os livros como luxos supérfluos; os regimes totalitários exigem que não pensemos e, por consequência, banem, ameaçam e censuram; de maneira geral, tanto uns como outros exigem que nos tornemos estúpidos e aceitemos a nossa degradação com humildade, e, por conseguinte, promovem o consumo de leituras fúteis. Em tais circunstâncias, os leitores têm de ser subversivos."
ResponderEliminarexcerto de Uma história da leitura, de Alberto Manguel (Tinta-da-China)
Boas leituras
"Esta descida do velho Letes revestia-se de foros de fantasia, obrigava a sonhar, obrigava a estampar nos olhos uma grandeza de vistas que empolgava o espírito de Dom Mendo quando caia sobre a cidade ao encontro dos braços quentes de Meliça.
ResponderEliminarNem sempre Dom Mendo reparava na paisagem ,agitado que vinha na excitação do amor. Sentado à popa da embarcação cogitava na feira de Viana às sextas-feiras (...). Os pensamentos de apetite e os pensamentos de compras para as cavalariças da Barbela misturavam-se num à-vontade de pasmar quem lhe lesse a fita telegráfica que passava a correr da testa e saía ao sabor da corrente. O rio desfazia-lhe os pensamentos :os mais absurdos e o mais cristalinos, uns e outros mergulhavam nas águas e deixavam-se ir no à deriva de um silêncio que breve fazia esquecer o que pensara. Um estado de alma talhado pela paisagem, retirado dela. ... "
Ruben A. , A Torre de Barbela, Lisboa Livraria Portugal,1964 in O Litoral e a Cidade na Literatura Viana do Castelo
De repente sente-se uma inquietação, há murmúrios e risinhos, o ar torna-se irrespirável. A senhora-mestra, sem se alterar (só o lápis parou), diz assim:
ResponderEliminar- Menina Isilda, levante-se e vá cheirar todos os meninos, a ver quem foi o da gracinha.
A Isilda, coitadinha, tem os olhos tortos: fica muito corada, levanta-se e põe-se a farejar todos os meninos de ambos os sexos, devem ser uns dez. É um momento terrível, que vergonha, a gente tem a certeza que não foi, mas quem sabe lá se um descuido!... Imóveis, todos procuram saber se foram. Mas a menina Isilda não consegue descobrir quem foi:
- Abra a janela. Vá ao quadro e escreva.
E enquanto os outros cantam em melopeia a tabuada, ela escreve até não ter mais lugar no quadro preto: A Menina Isilda descuidou-se. Que alívio.
- Apague e torne a escrever.
Escreve com giz e com lágrimas.
José Rodrigues Miguéis - A Escola do Paraíso
" A luz faltou de repente.
ResponderEliminarNessa escuridão de melodia doce ou silêncio quente, entre zumbidos de mosquitos e o cheiro dos fósforos a acender a primeira vela dentro de casa, ganhei coragem na voz e falei:
- Tu não achas que as pessoas são uma coisa tão bonita?
Ela não disse nada, nada mesmo, mas também eu não estava certo de uma resposta possível.
Nessa ausência de luz, ela olhava para mim, numa travessia de escuridão e cheiros. Tinha os olhos bonitíssimos e continuava em silêncio.
Olhei numa outra direção, cheia de estrelas no céu azul-escuro. O universo é enorme, pensei, e as pessoas também.
Ela fez-me uma festinha rápida na mão. Gesto ou ternura de amansamento.
Afinal uma pessoa também pode dizer coisas sem ser com voz para falar. Foi a primeira descoberta assim estranha que eu fiz nessa noite duma bendita, bonita, falta de luz. "
" Uma Escuridão Bonita"
ONDJAKI
Com ilustrações de António Jorge Gonçalves.
Editorial Caminho
Daqui da margem esquerda do estuário do Tejo.
Porque ainda há pessoas bonitas!!
A. DELFIM
Ainda na estrada e naquelas paragens, Mister Benwell cumpria as ordens que nos davam emitindo discretos resmungos e eu, sentindo já uma vaga culpa sempre que uma barreira nos surgia, como se trouxesse escondido um segredo comprometedor, apressava- me a imitar-lhe os gestos . Só em Mazoe, no regresso, já perto de Salisbury e onde também tínhamos de parar, Mister Benwell se tornou um pouco mais falador . Tirando a mão do volante para abranger com um gesto largo as intermináveis filas de laranjeiras que se espalhavam pelo Vale, afirmou:
ResponderEliminar_ This is the Best land you can find!
E continuou a falar. E continuou que segundo a lenda todo aquele vale fora desabitado até ao início do século vinte, altura em que os ingleses ali chegaram e construíram uma barragem que deu origem a um lago em tudo idêntico a um Loch escocês, um lago que foram cercando de idílicas farms. Mais tarde surgiu a residência do gerente e os escritórios, os bairros do pequenos funcionários, dos técnicos e dos amanuenses, a escola , uma linha de caminho de ferro e até os campos de ténis do pessoal europeu.
ROTEIROS PROVINCIAIS - João Paulo Borges Coelho
Gostei. Mas, talvez seja ingénua ao ponto de supor que, em democracia, são as editoras a promover leituras fúteis nas quais as pessoas rapidamente se viciam e que dão muito dinheiro a ganhar. Suponho que os escritores que mais vendem sejam os que a editora prefere. Se tem ou não a qualidade exigível, é outra história. Depois há quem consiga contrabalançar e edita o fútil para pagar o bom. E há quem não.
ResponderEliminarHoje todos sabem ler, mas respeitam-se menos os livros que no tempo dos analfabetos; eles desconheciam o conteúdo, mas respeitavam o livro. Casa de pobre que tivesse um, era rara (excluo livros escolares) esse um passava de pais a filhos e a netos. A realidade é demasiado árida, ora os livros são histórias que acordam em nós certa inocência, a do tempo em que acreditávamos firmemente em tanta coisa hoje morta. Transitamos para o mundo do livro de armas e bagagens e o imaginário agradece.
"Não era a primeira vez que a curiosa natureza das famílias o desconcertava, confrontando-se com o facto de os laços familiares tenderem a reunir pessoas que tinham muito pouco em comum.
ResponderEliminarNunca teria escolhido como amigos os membros da sua família."
Contos Completos, Lydia Davis