Excerto da Quinzena

Ela acorda a meio da noite no lado de Larry na cama. Algures no escuro do seu corpo uma vela arde por ele, mas quando ela a procura para alumiar o exterior do corpo somente encontra escuridão. Durante o sono ouviu o vento a chamar e agora parece andar a vaguear pela casa como se a porta de entrada tivesse sido deixada aberta. Vai à janela e espreita o exterior, as nuvens velozes e alaranjadas, contemplando a cidade e ansiando por ela. Percorre a casa às escuras sentindo os pés a arrefecer, com a sensção de se ter tornado um fantasma do seu passado. Detendo-se à porta do quarto dos filhos a ouvi-los dormir, enquanto lá fora o vento sopra. Não há nada mais inocente do que uma criança a dormir, é deixar as crianças dormir e quando ele tiver regressado continuaremos como antes. Ela enfia-se na cama, esfrega os pés para os aquecer e acorda com uma luz estranha, escutando um uivo rouco do vento, a janela batida com gravilha molhada. Ainda meio a dormir, aproxima-se da janela com a sensação de a casa estar a voar, às voltas em plena ventania. [...]


Paul Lynch, Canção do Profeta, tradução de Marta Mendonça

Comentários

  1. A propósito do que pude saber do novo livro de Águalusa, com quem tendo a concordar quando refere que a ocupação portuguesa de Angola é relativa, fui buscar este texto ao livro da investigadora de assuntos ultramarinos Maria Emília Madeira Lopes, "Nos caminhos de África", que para mim é uma espécie de Bíblia nestes temas da colonização. Um trabalho sério e esclarecido que ajuda a compreender muita coisa que ainda hoje acontece:

    - “Os designados como “sertanejos” foram os agentes e a pedra basilar da ocupação portuguesa e da colonização de vasto território insubmisso! Eram gente cujo contacto com a sociedade era difícil, senão problemático: degredados impelidos para essa solução, aventureiros ambiciosos, comerciantes audaciosos, homens afastados das leis europeias que não estavam dispostos a prestar contas às autoridades portuguesas nem estas em lhas pedir! Adaptaram-se ao meio por um processo de selecção natural e da acumulação de recursos como solução de sobrevivência, que para além da utilização da pouca superioridade técnica que possuíam, residia na aprendizagem e adopção das técnicas africanas, no aproveitamento da experiência e colaboração locais, na aceitação das regras de convívio e a intromissão cautelosa no modo de estar da terra. Quando assim não acontecia, o resultado eram a violência e a destruição, prejudicial tanto aos intrusos quanto às populações locais.
    Como interlocutores isolados dos africanos, os sertanejos por um lado precisavam de entrar num jogo de forças que lhes era vantajoso aceitar, mas por outro a ausência de uma tutela deixava-os descomprometidos para utilizarem soluções próprias, nem sempre as melhores, minando as relações sociais e comerciais. As suas residências, fixadas no interior, constituíam pequenas fortificações de pau-a-pique (libatas). Desciam ao litoral para se fornecer de mercadorias europeias (tecidos, armas, pólvora, contaria, aguardente e outras miudezas) e vender os produtos africanos (escravos, marfim, cera, goma, copal, borracha). Lá, no interior, o sertanejo ficava fora do alcance das autoridades portuguesas. Se era desertor ou foragido beneficiava da imunidade que lhe concediam a extensão e a virgindade do país. Se era apenas aventureiro ambicioso beneficiava de uma grande liberdade face às regras da sociedade europeia. Havia porém como contrapartida a sua integração e defesa em relação ao meio africano - também aí havia leis rígidas e regras a cumprir!
    Os capitães dos presídios ou dos distritos do interior não logravam exercer qualquer autoridade sobre eles mas também quando estes necessitavam de defesa ou auxílio as autoridades não tinham nem forças nem estavam interessadas em defendê-los. Era uma liberdade bastante cara porque ao libertarem-se das obrigações para com a sociedade “civilizada”, perdiam qualquer direito de protecção. “

    Votos de um fim de semana tranquilo, sem inundações excepto de leituras, cá desde a Cidade Morena.

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  2. Perdão: Maria Emília Madeira SANTOS, não Lopes!!!!

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  3. Sem artistas, o planeta seria um tédio de morte. Na minha opinião, são eles que, antes de mais, tornam a vida na Terra suportável. Saram as nossas feridas, reflectem sobre os acontecimentos e alimentam os nossos sonhos. Como dantes os criticos de arte gostavam de escrever: «Mostram um espelho à nossa sociedade». Embora Bertolt Brecht tenha uma vez defendido que a arte não devia ser um espelho da sociedade, antes um martelo, com o qual se pudesse mudar esta mesma sociedade. Espelho ou martelo? Uns defendiam isto, e outros aquilo. A guerra trouxe clareza. Muitas das discussões que vinham a ser travadas há décadas revelaram a sua insignificância logo no inicio da invasão. Pode a arte ser apolítica? E pode a arte mudar o beco sem saída onde o planeta se meteu? A resposta ás duas perguntas é: não. A arte e a cultura desenvolvem-se a par e passo com as ocorrências politicas. Não podem substituir a politica, não podem impedir um povo de saltar para dentro da cloaca. E por isso amantes de Bach e leitores de Schopenhauer mataram os seus vizinhos judeus com o mesmo entusiasmo e a mesma bestialidade de todos os outros. E os russos estavam a exterminar cidades ucranianas, a matar mulheres e crianças, apesar de na escola terem sido obrigados a aprender Tolstoi, Tchekhov e Dostoievski de cor. Chegaram a erguer-se vozes que queriam atribuir as culpas da miséria actual justamente a esses autores, Tolstoi e Dostoievski. Os velhos escritores teriam alegadamente promovido «uma linguagem e uma visão do mundo de cunho imperialista» nos russos, o que os levava agora a fazer guerra contra os vizinhos. Em caso de dúvida, Dostoievski era sempre o culpado de tudo.

    in Pequeno-Almoço à Beira do Apocalipse, de Wladimir Kaminer (Zigurate)

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  4. Sempre gostei da escrita de João Tordo.Li vários livros da sua autoria e sempre me agradaram.É uma forma de escrever urbana,atual,corrida,com conteúdo e ao mesmo tempo ambígua,inquietante e que nos faz pensar.
    No entanto,desde que virou para os livros policiais a sua capacidade de me encantar esvaiu-se.Já não vejo romances como os da “primeira fase”.
    Tornou-se azedo,cruel,com temas e experiências que nos remetem para o lado mau do ser humano.
    Por favor,mude outra vez!De-nos novamente boas histórias como tao bem sabe fazer!

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  5. A "Canção do profeta" foi o livro que mais gostei de ler este ano, mas também o que mais me incomodou.
    Embora Paul Lynch não aprecie que alguns leitores tenham caracterizado a sua premiada obra como distopia, é de facto e no mínimo uma narrativa angustiante até ao fim, e que nos traz alguns alertas para uma realidade que muitos julgam estar longe e ou ser improvável de acontecer. Oxalá tenham razão, eu não tenho essa fé.

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