O bósnio irreverente

Disse-vos anteontem que iria falar-vos de um autor bósnio, o escritor Velibor Čolić, recentemente dado a conhecer cá em Portugal através de O Livro das Despedidas, o seu primeiro livro escrito originalmente em francês. A França é, de resto, o lugar onde o autor se refugiou depois de ter desertado da guerra da Bósnia, depois de ter sido feito prisioneiro e depois de ter fugido da cadeia, apesar de pesar cento e tal quilos. Tal como ele diz, os editores chamam romance ao que escreveu, mas é só para vender melhor, porque não se trata de um romance. E tem razão, claro, o seu livro é sobre a sua vida, contada sem reservas, com muito álcool à mistura, com sexo, com todas as enormes dificuldades que sente um refugiado político em integrar-se num país novo, um país onde os que vêm de fora são olhados de lado e frequentemente maltratados. Mas talvez aqui a história de todas estas vicissitudes (atenção: o relato é tudo menos um «choradinho» porque este senhor não tem papas na língua e é tão bom a fazer crítica como autocrítica) nem seja o mais importante; o que este livro tem é uma linguagem avassaladoramente inventiva que me fez pensar que em todas as páginas há frases que eu gostaria de coleccionar. E, tratando-se de alguém para quem o francês é a língua do exílio, e não a sua própria língua, dá que pensar como consegue o nosso bósnio escrever tão maravilhosamente. Aconselho mesmo. Em algumas parte fez-me lembrar o filme Eu, Daniel Blake, não sei bem porquê. Mas mais cínico, mais autêntico e menos condescendente. Há bastante tempo que um livro de um autor desconhecido não mexia tanto comigo.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco2 de outubro de 2024 às 04:35

    Provávelmente será livro para mim!
    Autor na linha de Sven Hassel? Leon Uris? Por exemplo e para citar europeus.
    Ficou aguçada a curiosidade, e, muito.
    Também fiquei curioso quanto à linguagem inventiva. Em francês ou português? Isso não ficou claro, e tendo em conta que escreve em francês, o trabalho passa para o tradutor.
    Nunca ouvi referir que a França olhasse de lado ou tratasse mal os refugiados de guerra, é um país tradicionalmente aberto a receber refugiados de tudo que era, foi e é, guerra na Europa e noutros continentes, desde sempre, há tanto romance que o tem até como tema ou o refere, apesar de os franceses de gema serem os inventores do termo "chauvinismo". Apenas um reparo...

    Saudações reverentes cá da Cidade Morena.

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  2. Leon Uris, europeu?
    Olhe que não, olhe que não... nasceu e morreu nos EUA.
    Li vários livros dele na minha juventude, alguns em inglês, e gostei muito.
    Quanto à França, concordo consigo, sempre foi país de acolhimento para quem lá fosse pedir asilo político ou trabalho.
    Boas leituras!📚

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  3. Maria Do Rosário Pedreira2 de outubro de 2024 às 08:45

    Não falava do Governo Francês, mas dos muitos apoiantes da senhora Le Penn... Desculpem não ter sido clara.

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  4. António Luiz Pacheco2 de outubro de 2024 às 11:31

    Tem razão... era judeu mas americano, baralhei-me!
    Grato pela observação!

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