Excerto da Quinzena
Três minutos mais tarde, os convidados agrupam-se no salão e na sala de estar e os doces são servidos. O pastor Pringsheim, do alto da sua golilha engomada, envergando uma sotaina comprida de onde espreitam as botas largas e engraxadas, está sentado entre os convivas, beberricando as natas frias que coroam o chocolate quente e conversando, com o rosto transfigurado, de uma maneira muito natural e espontânea, o que, ao contrário do seu discurso clerical, surte um efeito notável nos seus interlocutores. Cada um dos seus gestos parece querer dizer: Vejam, também eu posso esquecer o sacerdote que há em mim e ser um homem mundano, alegre e inofensivo!
Os Buddenbrook, de Thomas Mann, numa tradução de Gilda Lopes Encarnação
Bom dia com alegria
ResponderEliminar"Ansi découvrit-il la vertu paradoxale de la lecture qui est de nous abstraire du monde pour lui trouver un sens."
Comme un roman - Daniel Pennac (Collection FOLIO, 2724)
http://www.folio-lesite.fr/Catalogue/Folio/Folio/Comme-un-roman
Saúde, boas leituras e bom fds prolongado
cp
PS: Um verdadeiro achado! Alguém sabe se existe tradução portuguesa? Ou projecto de?
PS2: "Les droits imprescriptibles du lecteur
1. Le droit de ne pas lire.
2. Le droit de sauter des pages.
3. Le droit de ne pas finir un livre.
4. Le droit de relire.
5. Le droit de lire n'importe quoi.
6. Le droit au bovarysme (maladie textuellement transmissible).
7. Le droit de lire n'importe où.
8. Le droit de grappiller.
9. Le droit de lire à haute voix.
10. Le droit de nous taire."
Creio que o livro foi traduzido em Portugal nos anos 1990 pela ASA, até me lembro de haver T-shirts com frases do Pennac tiradas desse livro. Não sei se estará disponível.
Eliminar"COMO UM ROMANCE" Daniel Pennac - n.° 32 da colecção ASA de bolso -Junho 2002 (tradução Francisco Paiva Boléo)
EliminarBom dia, Extraordinários:
EliminarSim, com os "Direitos Inalienáveis do Leitor". Sempre actuais.
Celeste Silveira
"COMO UM ROMANCE" Daniel Pennac - tradução de Francisco Paiva Boléo - n.°32 da colecção ASA de bolso - 1•.edição Junho 2002
EliminarCônscio, [...] como sua esposa, de que a dita visão era algo mais do que mera fantasia, Manfredo viu acalmar um pouco a tempestade que os estranhos acontecimentos daquele dia tinham provocado na sua mente. Envergonhado com os tratos desumanos que movera contra a princesa, a qual lhe pagava com acréscimos de ternura e de respeito os seus agravos, o príncipe sentiu por ela um afecto que esteve prestes a revelar-se no próprio olhar... Envergonhado porém pelo facto de sentir remorso por amor de alguém contra quem meditava ultrajes muito piores, Manfredo dominou o impulso do coração e não se deixou arrastar pela piedade.
ResponderEliminarJá a sua alma se sentia inclinada para a mais singular vilania.
Horace Walpole - O Castelo de Otranto, edição Estampa, tradução Manuel João Gomes
" A senhora é uma pessoa pouco vulgar_ acrescenta ele, fazendo deslizar até mim uma taça branca cheia de pequenos raviolis que não parecem fritos nem cozidos a vapor, mas uma coisa e outra. Pousa ao lado uma taça com molho de soja.
ResponderEliminar"Gyosas"_ esclarece
_ Pelo contrário _ respondo eu _, acho que sou uma pessoa muito vulgar. Sou porteira. A minha vida é de uma banalidade exemplar.
_ Uma porteira que lê Tolstoi e ouve Mozart _ diz ele. _ Não sabia que fossem práticas da sua corporação.
_ O senho é filho de diplomata, eu sou filha de camponeses pobres. E é até inconcebível que eu esteja a jantar em sua casa, esta noite.
_ E no entanto _ diz ele _ está cá a jantar esta noite.
E acrescenta, com um sorriso muito simpático:
_ E para mim é uma grande honra."
A Elegância do Ouriço de Muriel Barbery- Editorial Presença
Gostei imenso de ler este livro. Fico contente de saber que há tradução para o poder oferecer a quem não lê em francês.
Eliminar- Pronto. A bandejinha. Afasta o candeeiro.
ResponderEliminar- Lá fora, apagaste a luz, amor?
- Apaguei.
- E fechaste o gás, meu amor?
- Sim, fechei.
-Mas há uma porta que range… Tinha de ser…
- Eu vou fechá-la, amor, eu vou já ver. – Era a porta da varanda. Abri-a de par em par. A fresca noite entrou. É noite. É Junho, amor, e estamos vivos. E não estamos sozinhos. Oh, esta alegria de não estarmos sós”.
Viver com os Outros da Isabel da Nóbrega.
Foi um bom exercício, confesso. Acompanhar os diálogos presentes numa noite de festa entre amigos. Que se estimam, mas também se criticam e se confrontam. E depois acompanhar-lhes também os pensamentos... E isto sem se saber exactamente, quem é que estava a falar. Ou quem é que estava a pensar.
Foi mesmo muito útil o caderninho de apontamentos que me acompanha sempre nas leituras. Onde se fez o esquema de quem é quem. E depois se montou o puzzle. Com a ideia acrescida de que as questões, as mesmas questões, são muitas vezes transversais à sociedade. E ao longo dos tempos.
Foi aqui que li a sugestão. E aceitei o convite.
Bom Fim de Semana, com Excelentes Leituras.
Celeste Silveira
«Pergunta ao teu signo se sabe alguma coisa acerca do meu e pede-lhe para fazer alguma coisa por mim, que isto assim vai muito mal. Por mais que ande e faça, vejo sempre o mesmo Portugal.
ResponderEliminarCom menos gente, claro, mas com o mesmo descaro de uns tantos, a falar à gente como dantes…»
Eduardo Valente da Fonseca em «O Horóscopo de Delfos», Campo das Letras, Porto, Maio de 1998.
Durante os tempos da censura salazarista/marcelista, vários foram os esquemas utilizados pelos jornalistas para driblarem os coronéis-censores.
Um deles era «escrever nas entrelinhas» e, por vezes, a burrice/analfabetismo dos censores não entendiam a mensagem que navegava por essas entrelinhas.
Como não entendiam, e para evitar o «despedimento», cortavam tudo.
Em 1973, Eduardo Valente da Fonseca, jornalista do República desde 1965, conseguiu convencer direcção e chefias do jornal a publicar uma brincadeira, com alguns riscos, é certo, no suplemento «Fim de Semana», servindo-se dos signos astrológicos.
Chamou-lhe «O Horóscopo de Delfos.».
Tudo o que se publicava nos jornais tinha de ir à censura, excepto as palavras cruzadas, os números da lotaria, o movimento das marés, os discursos anedóticos do presidente Tomás e os horóscopos.
Semanalmente, com humor e inteligência o Eduardo Valente da Fonseca lançava directas e indirectas à situação política, e não só.
Quando os coronéis conseguiram descobrir as subtilezas do Eduardo, exigiram que o Horóscopo também passasse a ir à censura.
Mas foi sol de pouca dura.
Faltavam escassas semanas para que acontecesse o 25 de Abril.
(Para todas as Leitoras Extraordinárias)
ResponderEliminarA Leitora
A leitora abre o espaço num sopro subtil.
Lê na violência e no espanto da brancura.
Principia apaixonada, de surpresa em surpresa.
Ilumina e inunda e dissemina de arco em arco.
Ela fala com as pedras do livro, com as sílabas da sombra.
Ela adere à matéria porosa, à madeira do vento.
Desce pelos bosques como uma menina descalça.
Aproxima-se das praias onde o corpo se eleva
em chama de água. Na imaculada superfície
ou na espessura latejante, despe-se das formas,
branca no ar. É um torvelinho harmonioso,
um pássaro suspenso. A terra ergue-se inteira
na sede obscura de palavras verticais.
A água move-se até ao seu princípio puro.
O poema é um arbusto que não cessa de tremer.
António Ramos Rosa, in "Volante Verde"
«Made in Pakistan»
ResponderEliminarPaquistanesas mãos
que por um insuspeito canto do tempo, anónimas
e remotas, passastes sobre esta mesma dobra
onde pousam as minhas; que por alguns momentos
deixastes vossa áspera tibieza
sobre este colorido que aqui mesmo,
na minha casa de Granada, Espanha,
acaba de sair da sua caixa,
como o pinto do ovo,
para as luzes de um mundo com que muitos
sonham no Paquistão
e então vos afastastes para sempre,
ao fundo de uma escura cadeia de trabalho.
De quem seríeis, mãos necessitadas?,
que vida decorria atrás de vós, que
ilusões, e que rostos,
que penas e que nomes?, que punhado
de moedas ilusas
contastes um minuto depois de ter fechado
este invólucro? Éreis duas mãos
de uma mulher de tez verdimorena
e cabelo apanhado,
regressadas da fronte transpirada de um filho
enfermo entre um obscuro
revolteio de trapos, ou de uma
pobre tigela, ou dos úberes secos
duma cabra encerrada entre cartões ?
Ou as mãos de um menino — a quem ficavam grandes
a camisa e os olhos —, que chegavam
tão geladas depois de atravessar a noite
vindas de um miserável bairro, sonhando um dia
no futuro, quem sabe, defender
penáltis em qualquer
liga do futebol europeu? Mãos
que agora mesmo as minhas adivinham e sentem
ligadas a uma vida
que é desconhecida e misteriosamente
é a minha também, e se estreitam, num gesto
de secreta unidade,
por cima do seu tempo e da distância.
Canção, por onde vás
proclama que entre as minhas horas existiu uma
em que numa camisa comprada com desconto
vi que todas as vidas são uma mesma Vida.
Miguel D'Ors, «O fiasco perfeito», trad. Luís Pedroso, ed. Língua Morta
..."e apeteceu-lhe responder que conhecia o fedor de carcaça de mula dos psiquiatras, de carcaça obscena de mula dos psiquiatras, apeteceu-lhe falar das zangas miúdas e dos discursos cabalísticos, apeteceu-lhe contar que quando entrara no Hospital Júlio de Matos pela primeira vez, ainda estudante, se revoltara contra a pavorosa miséria dos internados, contra o abandono do jardim, contra a sujidade das camaratas, se revoltara contra a resignação dos doentes, empurrados para detrás das grades por um absurdo que os excedia, por sem-razões que não entendiam, pela máquina trituradora de uma Medicina persecutória da fantasia e do sonho, repressiva, judicial, a Medicina moralista, capadora, autoritária, a Medicina dos senhores, a Medicina dos donos, que detesta os desvios, odeia as diferenças, não suporta a capacidade de invenção, a Medicina morta de uma sociedade morta, cujo odor gordurento e viscoso o indignara no Hospital Júlio de Matos, ao senti-lo flutuar entre os pavilhões no meio das árvores, soprando na garganta da erva como o vento da noite."
ResponderEliminarAntónio Lobo Antunes, Conhecimento do Inferno
Um dos três bons livros do ALA.
EliminarBom já que estamos in the mood ... lá vai:
ResponderEliminar...
"Instruído por meu avô na sabedoria concreta das coisas da terra, sou capaz de compreender Hirónimo Viktor e de admirar o seu carácter reservado e o exemplo da sua dissimulação. Percebo de que modo a sua bravura depende também de uma cautela primordial que não deve ser confundida com temor e que constitui uma estratégia de sobrevivência tão imperiosa e útil como a capacidade de se alimentar quando tem fome.
Meu pai não conhece o medo, o terror comum de que igualmente padecem os animais e os homens. Quando se debruça sobre a carcaça ainda quente da sua caça, pode fixar o olhar da vítima sem receio de que o assombro da morte o contamine ou debilite. O confronto com o espanto das presas diante do fim contribui, aliás, para tornar o caçador mais forte - aprendi ainda antes de ter experimentado o fascínio e o poder que transmitem os olhos de um sírio ou um eritreu que sabe que vai morrer e que, se ergue os dedos trémulos para a silhueta do seu predador, apenas deseja que se leh abrevie a agonia e o estertor".
- "TROPEL" , Manuel Jorge Marmelo
Parece tétrico, e é! Mas é um livro soberbo, muito bem escrito, melhor descrito, com personagens Extraordinárias e profundas, oportuno! Um dos bons livros que li este ano! E, notem bem, não ganhou nenhum prémio nem foi aplaudido pela crítica. Também fala e é dedicado aos refugiados.
O Manuel Jorge Marmelo, escritor e blogger que aprecio, já recebeu o prémio APE do conto, o prémio das Correntes d'Escritas e uma Bolsa de Criação Literária; outros escritores há que nunca receberam nada.
EliminarBom fds!
Pois... mas eu falo do LIVRO, deste livro, que não recebeu nenhum prémio, não do autor...
EliminarSaudações, cá de um refugiado que anda de avião e isso tudo.
Bom fim de semana para si, anónima e solitáriamente!
"Soube anos mais tarde, quando vasculhava nos arquivos do Notícias à procura de alguma maldita crónica ou sinal daquele dia, com os jornais abertos à minha frente, que varri de trás para a frente e de frente para trás, sem encontrar qualquer sinal especial e nem mesmo o menor traço necrológico, notícia ou fotografia como se a tua morte fosse, mais do que anónima, ignorada. Mas soube aí, com surpresa - e talvez esse facto possa desenrolar o primeiro fio deste novelo que se emaranhou depois da tua morte - que o quarto dia do mês de outubro de 1983, em que decidiste pela enésima e derradeira vez deixar o mundo, pertenceu àquele estranho ano em que as acácias se esqueceram de florir"
ResponderEliminarTORNADO - Teresa Noronha
Prémio Literário Maria Velho da Costa
Editora Exclamação