Olive veio para ficar

No Verão falei-vos do primeiro romance que li de Elizabeth Strout (O Meu Nome É Lucy Barton) e no Outono falo-vos de Olive Kitteridge, romance da mesma autora que, com ele, venceu muito justamente o prémio Pulitzer. O livro tem, antes de tudo, uma protagonista inesquecível: ao contrário da maioria das personagens femininas que hoje se passeiam pela ficção premiada, Olive é sincera, cáustica, incorrecta, bruta, enfim, autêntica e, como todas as pessoas reais, com várias atitudes infelizes ao longo da vida (de que nem por isso se arrepende muito). Já a puseram numa série que ganhou um Emmy, mas não sei dizer se é boa ou má nem se podemos vê-la em Portugal. Do livro, sim, posso dizer muita coisa: que é profundamente original, com uma estrutura montada a partir de histórias independentes nas quais Olive às vezes não se demora mais de uns segundos (muitas foram, aliás, publicadas autonomamente em revistas); que é incrivelmente humano numa época em que a literatura está cheia de exemplos de plástico onde só há vítimas ou pessoas politicamente correctas e bem-comportadas (aqui há sangue e carne, para o bem e para o mal); que é um retrato de uma certa América com muita gente ignorante que tem o crime à distância de um gesto ou de um pensamento (matar à facada, pôr fogo...), deprimidos, traumatizados, burros, e bons também (Henry, o marido de Olive, é tão bom que o adoramos logo nas primeiras páginas); que é uma leitura nada óbvia que nos enriquece e que puxa por nós, como já raramente encontramos quando lemos livros há cinquenta e tal anos. Uma boa notícia: Olive veio para ficar e existe um segundo livro recentemente publicado em Portugal chamado A Segunda Vida de Olive Kitteridge. Não vos posso contar como acaba a primeira, mas também não vou perder a nova. Façam o mesmo, vale muito a pena.

Comentários

  1. Sem dúvida, valem muito a pena. Gosto muito dos livros da Elisabeth Strout, e estes dois da Olive Kitteridge são extraordinários.
    Vi a série, que está/ estava disponível na HBO Portugal, e gostei - até porque a Olive é muito bem interpretada pela Frances McDormand. No entanto, a série é forçosamente mais abreviada que o livro, retrata apenas o primeiro volume e não substitui, de todo, a experiência da leitura. Uma excelente recomendação. Ana Jacinto

    ResponderEliminar
  2. Desta autora li há muito pouco tempo "Olive Kitteridge" e subscrevo as palavras da Rosário, gostei imenso. Além da própria Olive, toda a galeria (e bem diversificada é!) de personagens é muito interessante. Numa pequena vila, vão-se cruzando aqui e ali. Ficou a vontade de ler outros livros dela.

    Rui Miguel Almeida

    ResponderEliminar
  3. António Luiz Pacheco12 de outubro de 2021 às 05:19

    Ora ainda bem que quem diz "numa época em que a literatura está cheia de exemplos de plástico onde só há vítimas ou pessoas politicamente correctas e bem-comportadas" não sou eu, que penso exactamente isso, e até por causa disso me tornei muito criterioso em relação que leio e sobretudo compro, diria que os autores nacionais, então, estão do mais "plastificado" que há, deveria haver uma limpeza naquelas cabeças, sem excepções, porque mesmo (e sobretudo) os mais celebrados e premiados são mesmo em PVC!

    Diria eu, traça ignorante e portanto às vezes atrevida, que diz o que não deve, que nem por isso sinto que as protagonistas femininas dos livros que se editam actualmente andem assim tão desprezadas, esquecidas ou discretamente apagadas, até longe disso, parece haver um tendencial e políticamente correcto movimento de as elevar à potência máxima!
    Mas enfim, a Senhora e Extraordinária Editora sabe mais do que eu, assumo de forma não políticamente correcta mas honestamente!

    Quanto às premiações actuais, para falar com a franqueza de uma traça dos livros, barroa e inculta, mesmo cafrealizada, acrescento que: - não ligo peva aos prémios que lhes atribuem! É nulo o peso que tem na minha decisão de compra ou leitura essa atribuição, que pelo contrário me faz desconfiar deles e não os eleger, isto porque também me parece que desde há algum tempo para cá, os prémios literários e quanto mais importantes pior, são atribuídos não pelo escrito em termos literários mas sim políticos, os tais política, ecológica, sexualmente, correctos, de forma a premiar o autor pela oportunidade, pela opção sexual, política, pela raça/côr, etc.

    O que não significa que não registe esta sugestão de leitura, porque tenho sido muitas vezes bem influenciado pela Nossa Extraordinária Anfitriã, também tenho de reconhecer e sobretudo agradecer!

    Saudações cá da Cidade Morena, sob forte aparato de demonstração de força policial!
    Nada a temer, nós traças dos livros não fomos declaradas marginais, por enquanto, mas em se impondo o políticamente correcto, não sei se não seremos condenadas ao "Sheltox" .

    ResponderEliminar
  4. Já li ambos os livros da Olive e gostei de ambos, mas achei o segundo bastante melhor. Também adorei a série da HBO. Agora estou a ler o da Lucy. Estou muito fã da autora. :)

    ResponderEliminar
  5. Pena que o livro "O Meu Nome É Lucy Barton" esteja esgotado, encontrei o meu por sorte. Este livro tem continuação em "Tudo é Possível" e o terceiro livro será publicado dia 19 com o titulo "Oh William!".
    Espero que a tradução chegue brevemente a Portugal.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório