Excerto da Quinzena

Às quatro da tarde de uma quarta-feira, a revisora Kim Eun-sook levou sete bofetadas na face direita. Foi atingida repetidamente, e com tanta força, no mesmo sítio que a rede de vasos capilares sob a maçã do rosto se rompeu e o sangue começou a correr pela pele rasgada. Quantas bofetadas apanhara até isso acontecer? Não tinha a certeza. Limpou o sangue com a palma da mão ao sair para a rua. Naquele final de Novembro, o ar estava frio e límpido. Quando ia a atravessar na passadeira, estacou, pensando se deveria voltar para o escritório. A pele estava a ficar cada vez mais retesada sobre a face, que inchara de um momento para o outro. Ficara surda do ouvido direito. Mais uma bofetada e o seu tímpano teria rebentado. Engoliu o sangue com um sabor metálico que se lhe acumulara nas gengivas e dirigiu-se para a paragem do autocarro que a levaria a casa.


Han Kang, Atos Humanos, tradução do inglês de Maria do Carmo Figueira

Comentários

  1. Tudo começou e aconteceu num afamado restaurante de Leiria onde, após um lauto jantar, serviram os digestivos da praxe, Whisky, Porto e Macieira. Não me apetecendo nenhuma daquelas bebidas, amavelmente pedi um ginjinha, que por estas bandas as há muito boas, ao que o empregado de mesa, muito solícito e seguro dos seus conhecimentos, mas com ar trocista, respondeu:
    “- Não, isso não temos, é mais de taberna!”
    Não tugi nem mugi que a besta podia dar um coice e com isto me fiquei.
    Sem a dita ginjinha entenda-se, que no meu espírito logo se formou a ideia de escrever este elogio como desagravo, para dar a conhecer a riqueza que existe sobre a nossa ginja e para a colocar no seu devido lugar, honroso lugar entre as bebidas nacionais. “Uma verdadeira santa entre gentios”, como numa carta me escreveu um amigo.
    Paulo Moreiras em «O Elogio da Ginja». Noctívaga Editores, Leiria 2001

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  2. Eu tinha dezassete anos nesse verão e de homens não sabia nada. Tinha visto alguns rapazes mais novos do que eu quando tomavam banho no rio. Ia com uma amiga espreitá-los algumas vezes, por entre as canas, enquanto se despiam, e esperávamos sempre até que saíssem de dentro de água para os vermos nus e molhados, deitados ao sol sobre a erva. De maneira que tudo o que se passou nessa tarde me provocou um desejo que eu nunca tinha sentido por ninguém. Todo o meu quarto e as minhas roupas cheiravam nessa noite a erva-cidreira. Mas era um cheiro que só eu sentia [...].
    José Riço Direitinho - Monólogo com Erva-Cidreira, in A Casa Do Fim

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  3. "... Vejo-a como tu a vês, como sonhas, às vezes com ela, uma mãe jovem que conserva um sorriso gracioso de rapariga, cuja sombra, às vezes, intuo nos teus lábios, tal como posso imaginar que o seu olhar reluz no teu e que dela procedem, ondulações à superfície do tempo, a tua inclinação para a melancolia e para a provisoriedade e a tua maneira de te iludires com o novo, o cuidado com que dispões as coisas à tua volta, a tua devoção por esta casa onde tu e ela fostes crianças, por esta paisagem de oásis com um fundo de cerros de deserto em que ela quis descansar, para estar sempre na companhia dos seus, os que se foram pouco a pouco, reunindo a ela no pequeno cemitério com muros cor de terra, primeiro a sua sobrinha que morreu ainda mais jovem e permanece, a salvo do tempo, na foto em cima do televisor, agora a sua irmã, esta noite, outro nome acrescentado à lápide do jazigo de família, que tu olharás, amanhã, durante o enterro, pensando, talvez pela primeira vez, sem que eu saiba, sem que mo queiras dizer, quando eu morrer também quero que me enterrem com elas."

    Sefarad de Antonio Muñoz Molina

    São estórias de perseguições, exílios, procuras constantes e finalmente de morte. E com a ideia de morte, vem também o desejo de se "descansar eternamente" junto dos nossos, dos que nos deram a vida, dos que sempre connosco estiveram. Lá está, até ao seu desaparecimento...
    É livro que nos desconcerta, mas que também nos emociona. De excelente leitura para estes dias outonais onde a noite é imensa...

    Bom Fim de Semana com Excelentes Leituras:
    Celeste Silveira

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  4. - Às vezes, lembro-me de uma história que me contaram uns arrieiros na Patagónia. Há dois anos, uma frente de mau tempo interrompeu as manobras que um regimento de infantaria estava a realizar na fronteira com a Argentina. Os tropas tinham suportado trinta dias e trinta noites a chover sem parar, quando um tenente se aproximou do grupo de arrieiros para lhes perguntar como é que eles aliviavam os tormentos de entre pernas. Responderam-lhe que da maneira mais conhecida, e que se se sentia muito apertado podiam levar-lhe uma burra para junto do rio. O tenente negou-se, e com um gesto de repugnância acusou-os de pervertidos. Passou outro mês. À chuva juntou-se a neve, e o tenente tornou a encontrar-se com os arrieiros. Com toda a vergonha do facto, pediu que lhe levassem a burra para o pé do rio. Os arrieiros, sem entenderem a causa de semelhante pudor, disseram-lhe que muito bem, que no dia seguinte a burra o esperaria junto do rio, que crescia cada vez mais. Ali esteve muito pontual o tenente e, depois de ordenar aos arrieiros que virassem as costas, baixou as calças e começou a fornicar com o animal. Então um dos arrieiros virou a cabeça e disse-lhe: «Meu tenente, a burra é para atravessar o rio. As putas estão do outro lado».

    Luís Sepúlveda, "Hot Line" in «Diário de um Killer Sentimenta»l, trad. Pedro Tamen, Edições Asa

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  5. -FAULKNER bebia cinquenta chávenas de café por dia

    -ORWELL que se sustentou inicialmente com empréstimos da família e dos amigos, alcançou fama literária já depois dos quarenta, quando publicou ANIMAL FARM

    -KNUT HAMSUN escreveu o clássico FOME devido à pobreza -e à fome- por que passou enquanto jovem, às mãos de um tio tirânico

    (pág.182)- Por cada leitor haverá sempre oitocentos mil assinantes da Netflix

    "MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA DE UM ESCRITOR" de João Tordo

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  6. Bom dia com alegria

    “Do presente capítulo, importa reter um aspeto fundamental: os digital natives não existem. A criança mutante da tecnologia digital, cuja capacidade de manipular o smartphone a teria transformado num brilhante clínico geral das mais complexas novas tecnologias; que o motor de busca Google teria tornado infinitamente mais curiosa, ágil e competente do que qualquer um dos seus professores pré-digitais; cujo cérebro teria crescido em força e volume graças aos videojogos, cuja criatividade teria sido elevada aos mais altos níveis fruto dos filtros de Snapchat ou Instagram; e assim por diante; esta criança é apenas uma lenda. Não existe em parte alguma da literatura cientifica. A sua imagem, contudo, continua a assombrar as crenças colectivas. E isso é o mais espantoso. O facto de um tal disparate ter surgido não é, por si, extraordinário. Afinal de contas, a ideia merecia ser avaliada. Não, o que é extraordinário é que tal disparate persista contra ventos e marés, e, mais, que contribua para as nossas políticas públicas, especialmente na área da educação.

    Porque, para lá dos seus aspetos folclóricos, este mito não se encontra obviamente isento de segundas intenções. No plano doméstico, antes de mais, tranquiliza os pais, levando-os a crer que os seus descendentes são verdadeiros génios digitais e pensadores complexos, mesmo que na realidade só saibam utilizar algumas aplicações (caras) triviais. No plano escolar, por seu turno, permite, para grande alegria de uma indústria florescente, apoiar a implacável digitalização do sistema, apesar dos desempenhos, que são, no mínimo, preocupantes (voltaremos a este assunto na terceira parte). Em suma, todos ganham... exceto os nossos filhos, mas, aparentemente, ninguém se preocupa com isso.”

    A Fábrica de Cretinos Digitais - Michel Desmurget

    Saúde, boas leituras, bom fds
    cp

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  7. Mas a grande sensação da exposição foram “os polidores de parquê “ , a enorme tela de Gustave Caillebotte . Ninguém parecia ficar indiferente ao naturalismo da cena .Os músculos dos homens ,quase tácteis , de tão tensos.A sugestão fulgurante do cheiro do suor dos seus corpos,do aroma adocicado da madeira lascada .Mais de uma senhora enrubescia diante dos troncos despidos dos trabalhadores.Talvez a maior perturbação resultasse da cumplicidade latente entre o pintor e os polidores do chão do seu atelier , já que o trabalho destes existia apenas por causa da arte do primeiro .
    Um pequeno detalhe parecia divertir especialmente o público : um dos polidores ostentava no dedo uma aliança..”Porque pôs uma aliança na mão do homem?”,perguntou a Gustave uma senhora arruinada , de chapéu emplumado e olhos faiscantes debaixo do meio véu .Gustave hesitou.”Porque ele usava uma aliança madame “.Fez uma vénia na direção da senhora e afastou-se .
    Rua de Parisem dia de chuva - Isabel Rio Novo

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