Actos de coragem

Li um artigo extremamente interessante sobre um professor universitário de Filosofia em Portland que bateu com a porta, dizendo que, infelizmente, a universidade onde ensinava há tantos anos sacrificou as ideias à ideologia. Alegando que, quanto mais tentou combater o iliberalismo mais retaliações teve (suspensão, inclusive), Peter Boghossian escreveu à reitora uma carta de demissão, dizendo que a sua especialidade foi sempre o pensamento crítico, a ética e o método socrático, mas que deixou de os poder pôr em prática na instituição onde os alunos já têm medo de falar e da censura dos colegas. Parece que, além de ensinar os filósofos clássicos, Boghossian convidou para as suas aulas todo o tipo de palestrantes, no sentido de estimular o pensamento crítico e o debate, desde advogados de Wall Street a gurus religiosos ou cépticos das alterações climáticas; mas, como se tratava de personalidades polémicas, os alunos queixaram-se e, em vez de explicar as funcionalidades da coisa, a direcção mandou o senhor uns tempos para casa. O professor considerou então que a faculdade se demitiu do seu papel de ouvir pessoas com opiniões e crenças diferentes e falar abertamente de tudo, formando os alunos para pensarem todos da mesma maneira e não fazerem ondas. Pior: a instituição considerou alguns filósofos machistas e proibiu que fossem ensinados... Afinal, quem pregava inclusão e diversidade não as praticava. Boghossian bateu com a porta e fez bem. Mas é uma pinguinha no oceano, pois na verdade muitas universidades em todo o mundo se tornaram guetos de ideologia sem ideias, um perigo que manda os génios e os válidos para as masmorras como no tempo de Galileu e deixa os imbecis a liderar... Se quiserem ler a carta, aqui a têm:


https://bariweiss.substack.com/p/my-university-sacrificed-ideas-for?utm_campaign=post&utm_medium=web&utm_source=facebook&fbclid=IwAR2rEySMWz43sx73rWiiUfoxWC4A4CtbWuV7ygBErG7j48sPV6c0Kdh-GW4

Comentários

  1. É uma luta difícil porque quem a combate o iliberalismo atual será apodado de elitista ou, pior, de intelectual, um insulto neste mundo em que a imagem rápida é rainha e a palavra reflectida uma pura perda de tempo, isto é de dinheiro.
    Muito assustador para mim foi ter visto ontem uma foto do Zuckerberg a fazer uma qualquer palestra tendo atrás as palavras "THE FUTURE IS PRIVATE". Ou seja, na visão dele, o futuro será só para alguns, os homens de sucesso comercial.
    Sobre o Nobel, se me pedissem para apostar eu escolheria o Murakami considerando que a rotação continental do prémio parece indicar para este ano um escritor da Ásia ou de África. Mas talvez Murakami seja um escritor demasiadamente conhecido para os gostos da Academia que tem optado recentemente por autores menos lidos.
    Se fosse eu, dava o Nobel ao Paul Auster ou, para um autor menos lido, ao Enrique Vila-Matas.

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  2. Como as coisas não são a preto e branco presumo que o professor de Portland convidaria Zuckerberg. Presumo também que não convidaria advogados contrários à financeirização da vida.
    Se o Nobel for para África que vá para Mia Couto.

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  3. Zuckerberg/ "THE FUTURE IS PRIVATE"/facebook - está tudo dito!

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  4. Nacionalizemos o ar. Se o não fizermos privatizam-no e, depois, para respirarmos temos que pagar uma taxa.

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  5. Obrigada pela partilha relevante!

    De facto, parece que vivemos num mundo em que a conduta do intelecto é ditada por um conjunto de moralidades pré fabricadas e religiosamente inquestionáveis. Como é que um professor de filosofia que apela ao espírito crítico dos seus estudantes ao trazer personalidades com ideologias contraditórias, e desse modo aptas a gerar um interessante debate de ideias, pode de ter vontade de trabalhar com mentes pequenas e enormemente suscetíveis aos males deste novo mundo (a meu ver, menores)?

    Fez muito bem, e muito mal, em ter abandonado o seu cargo, porque ter-se-á perdido um bom professor, que certamente terá influenciado alguns dos seus alunos para o pensamento crítico, rigoroso e fundamentado.

    Quanto ao Nobel, espero que ganhe o Auster, não tanto por mim, mas por viver com um aficionado da sua obra, tanto literária como cinematográfica.
    Coisas do amor...

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  6. Por mim dava o Nobel a Antonio Lobo Antunes(embora tardio) ou a Javier Marias.Ja desde há uns anos que acho que estes prémios tem sido atribuídos a autores pouco interessantes(Le Clezio,Doris Lessing,Bob Dylan,Modiano).
    Embora tenha mencionado 2 escritores que o merecem,podera haver outros como o Murakami ou o Auster já citados.Veremos.

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  7. Abdulrazak Gurnah, mais um desconhecido a ganhar o Nobel de Literatura. Mais uma vez a Academia quer ensinar-nos a escolher livros.... Paternalismos.

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    1. Não li nada do autor, mas, pelas razões apresentadas, parece-me mais uma vez o politicamente correcto a sobrepor-se a tudo.

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    2. O Nobel de Literatura deixou de ser um prémio de Consagração para ser um prémio de Revelação.

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    3. Veio mesmo a propósito do post de hoje, de facto!

      Ainda pensei que pudesse ir para o Salman Rushdie, mas isso iria ferir susceptibilidades, e é um autor já demasiado aclamado para os atuais critérios da academia.

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    4. Se não leu, como é que pode concluir isso? O senhor não pode ter a história que tem E ter talento?

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    5. O excelentíssimo presumiu, não concluiu.
      Terá certamente muito talento, e esperemos que seja uma agradável surpresa!
      A questão não era essa...

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    6. Sendo a África o continente escolhido pela Academia para o galardão deste ano, ainda tínhamos a ilusão do Mia Couto. Mas tendo em conta o cumprimento do politicamente correto pela Academia, teria ela a ousadia de atribuir o prémio a um escritor africano de olhos azuis?

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  8. Actos de Coragem ?
    Leonardo Padura.

    Cláudia da Silva Tomazi

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  9. António Luiz Pacheco7 de outubro de 2021 às 05:00

    Pegando na deixa do Extraordinário AntónioF, eu diria que os tempos que vivemos não são particularmente tristes! Todos os tempos o têm sido por esta ou por aquela razão, mas sobretudo por uma preponderante e que persiste:
    - A intolerância!
    A intolerância que consiste em não querer dar aos outros o direito e a liberdade de pensarem como pensam, sobretudo quando esse pensamento colide com o nosso. É ignorar que a maior maravilha de criação consiste justamente na diversidade, em que se inclui a do pensamento. É essa a nossa maior riqueza, da humanidade.

    Não o podemos esquecer quando pretendemos extinguir o PAN ou o CHEGA, quando somos anti-caça, anti-taurinos, vegans, fanáticos religiosos, nazis, supremacistas (negros ou brancos), homofóbicos, feministas radicais, negacionistas ou seguidistas, e, tanta expressão dessa intolerância ou da tentativa de impor como pensamento único o nosso!
    Espero não estar a ser intolerante, mas creio que me compreenderão!

    Por outro lado, este triste tema, faz-me recordar que também numa universidade anglo-saxónica se iria abandonar o estudo da música clássica dos grandes compositores como Wagner, Beethoven ... porque são expressão do "colonialismo" e outras parvoíces, tão imbecis que nos espantam como poderão ter origem numa Universidade!
    Universidade, vem de Universo... nela reside o conhecimento e lá se cria ou para lá flui!
    Será que ainda é assim, ou deveras viveremos "tristes tempos" em que a cantina da Universidade de Coimbra, por ordem do Magnífico Reitor deixou de servir carne de vaca, numa demonstração pro-nazi de que as opiniões pessoais são para impor?

    Quanto ao Nobel... nunca ouvi falar do galardoado, portanto não me pronuncio, mas inclino-me para a idéia de que de facto nos querem impôr algo ou alguém.

    Saudações cá da Cidade Morena!

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    1. Interessante vossa exposição. Lembro: em sendo as próprias maravilhas da criação se lhes exercem (também) a força o contraditório. Este contínuo movimento a " natureza " especificamente na capacidade e conquista os três reinos, exercem o os são exercidos elaborando as tensões, quando desde sempre entre pensamentos e argumentos nem a história os vence tal a dinâmica da transformação distanciada na superficialidade dos factos. A intolerância e uma distensão da tragédia anunciada pela própria falta de zelo com o pensamento. Prova disso é que os franceses ícones na filosofia atual, é já o tinham lema a mais de duzentos anos: igualité, liberté e fraternité; hoje as duras penas das maiores no quesito intolerância.

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    2. António Luiz Pacheco8 de outubro de 2021 às 05:06

      Tem muita razão, minha Cara Cláudia... seu inconfundível estilo, exime-a de se assinar!
      Um beijo cá deste lado do Atlântico, seguro pela distância!

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  10. Oh, não bateu na porta de Moçambique mas na porta ao lado. Bom, não é bem assim, o escritor vivia e escrevia em Inglaterra.

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    1. Excelente reparo. O bom filho a casa torna e se lhe mostra positivo em interesse por consertar da goteira o telhado.

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  11. «I’ve invited a wide range of guest lecturers to address my classes, from Flat-Earthers to Christian apologists to global climate skeptics to Occupy Wall Street advocates.»

    Eu pergunto-me se será aceitável dar a palavra na universidade, por exemplo, aos maluquinhos da terra plana. Quanto aos "cépticos" das alterações climáticas, depende de quem se trata: convidou gente competente nas disciplinas científicas em causa ou foram tipos que apenas "acham"? É que há uma diferença entre uma universidade e o café da esquina, não é?

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    1. Convidar "Flat-Earthers", realmente... Tem de haver limites para a estupidez.
      Que diriam de um professor universitário português que o fizesse?

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  12. Abdulrazak Gurnah.
    Ao menos o Dylan é, ao que dizem, um poeta...
    Agora este Abdulrazak Gurnah, sinceramente, alguém mas alguém conhece a sua obra; afinal o Prémio Nobel da Literatura não é para premiar a obra de uma carreira? Isto cheira-me mesmo ao politicamente correcto, é quererem-nos impôr -nos alguém que apenas servirá não sei que mentes, ao que parece doentias.

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  13. Há três escritores que durante muitos anos pensei merecerem o prémio Nobel, se aquele fosse justo, e a distinção nunca mais chegava. Todos os anos esperava para ver se algum deles o recebiam. Dois deles já estão 'despachados': Mario Vargas Llosa e Kazuo Ishiguro. Falta o outro, que nunca o receberá e que talvez seja o meu escritor preferido: Milan Kundera.

    Quanto ao premiado deste ano, nunca o li por inteiro. Mas desconfio, pelo pouco que li, que talvez o mereça mais do que Bob Dylan ou Svetlana Aleksievitch, só para citar dois exemplos. Espero não estar a ser injusto. Estes dois últimos são grandes. Mas não necessariamente no que eu considero ser literatura...

    No meu blogue, sobre Ishiguro:

    https://ocasosluiscaminha.blogspot.com/search?q=kazuo+ishiguro

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