Aprender até morrer

Os livros sobre a Segunda Guerra Mundial nunca passaram de moda, por mais que tenham decorrido setenta e tal anos sobre o seu fim. Sobretudo nos países ocupados, a literatura sobre o assunto foi prolífica e de todos os tipos, de tal modo que até se permitiram livros muito fantasiosos e de teor romântico e meloso à custa da tragédia. Mas, ainda que a literatura sobre o assunto seja realmente variada e numerosa, há sempre coisas que não chegam aos leitores, e confesso a minha ignorância sobre o facto de na Dinamarca só uma pequena parcela de judeus ter sido afectada pela perseguição nazi e levada para um campo de concentração. Falo de 500 pessoas, mais coisa menos coisa, das quais, ao que sei, só 125 não regressaram de Theresienstadt no final da guerra. A razão? Pois bem: em primeiro lugar, o rei tinha ascendência germânica, o que lhe permitiu saber do tratamento desumano que estava a ser dado aos judeus noutros países com antecedência, levando então os judeus dinamarqueses para a Suécia, que era um país neutro. Mas houve mais: os judeus dinamarqueses nunca foram obrigados a usar a estrela amarela identificadora, porque o rei alegou que estavam protegidos pela constituição da Dinamarca e que, se a ordem fosse dada, ele próprio e a sua rainha, bem como todo o povo, também a usariam. Então, os nazis meteram o rabinho entre as pernas e a exigência nunca chegou a ser feita. Partilho a história porque penso que nunca precisámos de tantos exemplos de coragem deste tipo como hoje. 

Comentários

  1. António Luiz Pacheco4 de novembro de 2021 às 04:32

    A história é para isso mesmo, serve também para nos dar exemplos (bons ou maus) e inspirar a seguir ou renegar idéias e acções.
    A grande aliada da história é sem dúvida a literatura, que depois narra, com mais ou menos fantasia e romance, em interpretações diversas, os acontecimentos que inspiram numerosos autores pelas mais variadas razões.
    Portanto estejamos atentos à história, nós os leitores e em particular os escritores!
    Devíamos nós portugueses estar mais atentos à nossa história, tão rica e transversal quanto agora se pretende até modificá-la, apagá-la, como se ela não servisse exactamente para nos dar exemplos como este que hoje aqui é trazido, e, importa destacar, precisamente porque contém uma parte humana da maior nobreza, que duvido governante algum da actualidade fosse capaz disso por falta dela, dessa nobreza que não é expressa por uma coroa, mas pela humanidade responsável e generosa de quem é digno de o ser.
    Um governante actual venderia os judeus (ou a quem fosse, sobretudo não sendo dos seus) a troco de uma qualquer benesse que o mantivesse no poder ou beneficiasse aos seus projectos e ânsias, quanto mais sob ameaça de guerra. Não estou a ver um único, a nível mundial, capaz de o fazer...
    Estarei enganado? Aceito sugestões e até aguardo curioso por outras opiniões.

    Saudações curiosas cá da Cidade Morena.



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    1. Realmente parecem querer apagar a nossa história, (e não é só cá)...mas que ignorância -perigosa-.

      Ó Paxeco olha que verdade tu escreveste:

      "Um governante (e muita outra "ilustre" gente, digo eu) venderia os judeus (e não só, acrescento eu) (ou a quem fosse, sobretudo não sendo dos seus) a troco de uma qualquer benesse

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  2. Gosto do tema.
    Dos melhores livros que li sobre a II Guerra Mundial, foram: -"TREBLINKA" de Jean François Steiner (o melhor que li sobre os campos de concentração),

    -"O COMPRADOR DE ANIVERSÁRIOS" de Adolfo Garcia Ortega e
    -"O RAPAZ DO PIJAMA ÀS RISCAS" de John Boyne.

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  3. Gostei muito desta partilha!
    Há algum livro que recomende que fale desta história que partilhou?
    Obrigado!

    Nuno Morgado

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    1. Infelizmente, não conheço um livro que fale desta história, foi uma pessoa que ma contou porque circulava nas redes sociais uma história com erros sobre o assunto. Mas acredito que em qualquer livro sério de ensaio sobre a Segunda Guerra, exista esta informação.

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    2. António Luiz Pacheco4 de novembro de 2021 às 10:09

      Há um excelente filme que narra a fuga do rei e rainha da Noruega, para não terem de se aliar à Alemanha Nazi - a fuga do rei.

      https://javiu.wordpress.com/2017/12/11/346-365-a-negativa-do-rei/

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  4. Quase todos estes livros vêm de autores ingleses, fico de pé atrás, nenhum diz que a 2a GM foi combinada entre o regime alemão e o regime inglês. E não foi Hitler que foi a Londres para conversações, foi Chamberlain que foi a Munique. Duas vezes. Na segunda, creio que já em 1938, houve um desacordo grave que prolongou as negociações durante toda a noite. Chamberlain entendia que para seguir para a URSS bastava ocupar o sul da Checoslováquia pois podia-se penetrar pela fronteira da Ucrânia. Hitler queria o país todo. E o exército alemão arrancou sem acordo e chegado ocupou também o norte pois a região com centro em Praga tinha instalada a melhor indústria do mundo excetuando as grandes potências da época (a Expo Universal Industrial realizara-se em Praga em 1929). Já anexara a Áustria e apoderara-se da cintura industrial de Viena, com a de Praga dispunha de mais duas capacidades para sustentar o esforço de guerra. Apesar da violação da soberania da Checoslováquia obrigar à intervenção de qualquer dos vencedores da 1a GM (constava do Tratado), ninguém o fez e a Inglaterra até instigou. Mesmo quando a Alemanha conquistou a Polónia numa guerra relâmpago, Churchill ainda comentou: "Hitler está na Polónia? Hitler tem que explicar o que está a fazer na Polónia". Face a essa realidade, então sim a Inglaterra e a França (que teve que abandonar o Pacto de não Agressão Franco-Germânico que tinha subscrito) declararam guerra à Alemanha, considerando-se aí o início da 2a GM.

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    1. "a 2a GM foi combinada entre o regime alemão e o regime inglês. "

      Como eu sou ignorante; esta é nova para mim.

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    2. António Luiz Pacheco4 de novembro de 2021 às 14:34

      A única coisa de que tenho conhecimento, foi do pacto entre a URSS e a Alemanha Nazi...
      "Em 23 de agosto de 1939, Hitler e Stalin assinaram um pacto de não agressão. Alemanha e União Soviética comprometeram-se a não atacar uma à outra e manter-se neutras se uma delas fosse atacada por uma terceira potência."
      "Verificou-se que, na sombra, isto não era um simples tratado de não agressão, mas um acordo para dividir a Europa e não se imiscuir nas “conquistas” uns dos outros. O mesmo foi demonstrado pelos documentos que o exército britânico descobriu e publicou".
      "A União Soviética invadiu a Polónia 16 dias depois de a Alemanha o ter feito, respeitando cada parte o acordo, não só os pontos relativos à Polónia, mas também os relativos à Finlândia, Estónia, Lituânia e Letónia.

      Durante o primeiro ano da guerra existiram grandes intercâmbios comerciais, embora as relações se tenham tornado cada vez mais tensas, o pacto foi mantido. Tanto que Estaline tentou entrar como quarto membro do Eixo, mantendo conversações com a Alemanha para esse fim, embora no final não se tenha chegado a um acordo total. Foi durante estas negociações que a animosidade de Hitler em relação a Estaline cresceu, pois, falando com os seus líderes militares, declarou que o líder soviético “é um chantagista de sangue frio”. Também pensou que “uma vitória alemã seria insuportável para a Rússia e Estaline deve ser posto de joelhos o mais depressa possível”. Assim, numa conferência de guerra realizada a 18 de Dezembro de 1940, Hitler confirmou a necessidade de atacar a URSS. A operação organizada para a invasão chamava-se Operação Barbarossa, e teve início a 22 de Junho de 1941."
      "... os documentos que continham as cláusulas secretas foram descobertos pelos britânicos entre os arquivos alemães no final da guerra, mas a União Soviética negou a sua autenticidade durante anos, 44 anos para ser exato. Foi apenas em 1989, quando a União Soviética de Gorbachev admitiu oficialmente a veracidade dos documentos após as manifestações de 1989.
      Além disso, foram necessários passar mais de 30 anos, para que por ocasião do 80º aniversário do Pacto Molotov-Ribbentrop, os documentos originais fossem publicados pelo departamento documental histórico russo."

      A história pode ser contada, recontada e até mal-contada... sei lá eu!

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  5. A latere, não deixa de ser curioso que também aqui, como nos livros sobre a Segunda Guerra Mundial, os judeus nascidos na Dinamarca sejam (e bem) denominados dinamarqueses, enquanto aos perseguidores, os torcionários que os levavam para os campos de concentração, não lhes seja apontada a nacionalidade. São tratados apenas por "nazis". Mas os nazis são... alemães, não há como esconder.

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