Excerto da Quinzena

Esta semana o excerto chega mais cedo, à quinta-feira, com desejos de Boas Festas, muita saúde, um Natal feliz e, claro, boas entradas em 2022. Eu cá só volto no dia 3 de Janeiro, até porque neste período já estamos todos a pensar em tudo menos no trabalho. Leiam e não comam demais (o excerto explica porquê):


Descontente consigo própria, a pessoa com excesso de peso que era Marion saiu do presbitério. Ao pequeno‑almoço tinha comido um ovo quente e uma fatia de tor­rada muito devagar, em pequenas trincadelas, seguindo o conse­lho de uma articulista da Redbook que afirmava ter perdido dezoito quilos em dez meses, e que a Redbook fotografara com uma espécie de fato de treino à Barbarella, a mostrar a sua cintura futurística de inseto, e que tinha também aconselhado emborcar uma lata de uma bebida de emagrecimento nacionalmente publicitada em vez do almoço, fazer três horas de exercício vigoroso todas as sema­nas, repetindo mantras como O que na boca é obra de um momento, nas ancas são anos de tormento, e comprar e embrulhar um pequeno pre­sente para si própria para abrir sempre que conseguisse perder x quilos. Com a exceção do sortido de comprimidos para dormir para uma década, não havia presente que Marion quisesse o suficiente para servir de recompensa, mas tinha começado obedientemente a frequentar aulas de ginástica na Igreja Presbiteriana às terças e quintas‑feiras de manhã, e teria ido hoje se Judson não estivesse em casa. Privada da devida meia sanduíche, com maionese, a que uma hora de queima de calorias na Presbiteriana a autorizaria, almoçara dois talos de aipo com queijo fundido nas estrias. Estes tinham‑na levado quase até à porta, rumo ao plano inclinado de uma tarde sem tentações, mas um dos biscoitos que fizera com Judson tinha‑se partido ao meio. Vendo‑o partido num tabuleiro de arrefeci­mento, no meio dos seus colegas inteiros, sentiu pena dele. Era a sua Criadora, e comê‑lo era uma espécie de obra de misericórdia. Mas a sua doçura tinha‑lhe despertado o apetite. Quando o descon­tentamento a apanhou, já tinha comido mais cinco biscoitos.


Jonathan Franzen, Encruzilhadas, tradução de  J. Teixeira de Aguilar

Comentários

  1. Prelúdio de Natal

    Tudo principiava
    pela cúmplice neblina
    que vinha perfumada
    de lenha e tangerinas

    Só depois se rasgava
    a primeira cortina
    E dispersa e dourada
    no palco das vitrinas

    a festa começava
    entre odor a resina
    a gosto a noz-moscada
    de paisagens alpinas

    E a multidão passava
    E a chuva era tão fina
    que parecia filtrada
    de taças clandestinas

    Finalmente chegava
    triunfal em surdina
    a noite convocada
    em todas as esquinas

    Mas não se derramava
    Como tinta-da-china
    Na cidade acordada
    já se ouviam matinas

    David Mourão-Ferreira, in “Cancioneiro de Natal”

    Com Votos de Boas Festas para todos.

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  2. "O medo pertence aos sintomas do nosso tempo. Ele actua de modo tanto mais mortificante quanto mais se insere numa época de grande liberdade individual, na qual a miséria, como a retrata, por exemplo, Dickens, se tornara quase desconhecida.

    Como se chegou a uma tal passagem? Se quiséssemos eleger uma data, não haveria outra mais apropriada do que o dia em que o «Titanic» se afundou. Aqui colidem, deslumbrantes, luz e sombras: a hybris do progresso com o pânico, o conforto máximo com a destruição, o automatismo com a catástrofe, que se manifesta como um acidente de viação."

    Ernst Jünger "O Passo da Floresta" (trad. Maria Filomena Molder)

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  3. Olá bom dia, Extraordinários e Extraordinárias:
    Hoje não apresento nenhum excerto de livro. Sim ando a ler (é claro que ando a ler) , mas o livro sendo razoável, não merecerá assim tanto reconhecimento. Tipo para memória futura.
    Venho só aqui hoje para desejar a todos os leitores e intervenientes deste espaço, assim como particularmente à nossa Extraordinária Anfitriã Maria do Rosário, Boas Festas, com Excelentes leitura. Muita saúde para todos!
    E que este espaço nunca se feche. Para além de casa confortável e muito recomendável de frequentar é também de absoluta utilidade.
    Boas Festas e Muita Saúde então para todos nós!
    Celeste Silveira

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  4. Há dias António Luiz Pacheco mostrava-se um homem de listas, «faço listas para tudo».
    Tempo para visitar Luiz Pacheco, que no dia 1 de Novembro de 1975, fazia uma lista de tarefas prioritárias para Novembro:

    «- tradução do Rilke;
    - caso da luz;
    - artigo Diário de Notícias, falar primeiro ao Saramago e ao Facas;
    - textos para o Boletim da Gulbenkian (pedir livros ao Forte, Granja, Seara Nova,
    Montijo);
    - Textos Malditos: arrumar o caso com o R. de Mello, de vez;
    - Diário Remendado, avançar;
    - desintoxicação;
    - sondar a transferência Tábua (ou Caldas);
    - comprar caderno decente;
    - comprar transístor;
    - comprar livros indispensáveis (D.R., etc);

    - limpar de casa a merda e os acessórios empatas;
    - fazer recortes (?) perde-se muito tempo;
    - arranjo da máquina suplente;
    - NÃO PAGAR DÍVIDAS;
    - campanha de abonos, à escala nacional;
    - livro do Manaças e do José Alberto Marques;
    - ver o que quer o Vítor Belém, o Abílio e o Vinicius;
    - escrever Ibarrola.
    - chegar a Dezembro. É d’homem!
    Luiz Pacheco em «Diário Remendado», Publicações Dom Quixote, Lisboa, Agosto de 2005.

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  5. "Não tinham consoado mais que um prato de papas de milho e pão de rala, tão extrema era a sua pobreza. E, tristes se deixaram ficar acocoradas na pedra-lar, tão perto do lume, por causa do frio, que a chama, ateando-se por vezes no toro de carvalho, lhes alumiava mais que a candeia. A mãe, no seu luto de viúva, um xaile roto pelos ombros, acabava de espiar a roca e cismava; a pequena, dez anos espertinha e medrada, com um pauzito ia ateando o fogo, entretida a ver dançar e rodopiar os mil fogaréus da combustão. De repente, quebrando o devaneio, disse para a mãe:
    _ Porque é que uns são tão ricos e outros tão pobres?
    _ Porquê...? Olha lá, os dedos da mão são todos iguais?
    _ Ó mãe, isso não quer dizer nada. Os dedos são desiguais, não há dúvida, mas o que é preciso é saber-se se é diferente o sangue que corre nuns e noutros..."

    Aquilino Ribeiro -O Livro do Menino Deus -Bertrand

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  6. "O bem-estar e a inveja são o numerador e o denominador da fracção chamada «felicidade». E que sentido teriam todos os incontáveis sacrifícios da Guerra dos Duzentos Anos se na nossa vida ainda persistisse um motivo de inveja? Pois bem, esse motivo persistia porque continuavam a existir os narizes «arrebitados» e os narizes «clássicos» (vide aquela nossa conversa durante o passeio) — porque muita gente procurava o amor de uns, enquanto o amor de outros não era procurado por ninguém.
    É natural que, ao dominar a Fome (em fórmula algébrica é igual à soma dos bens exteriores), o Estado Único passou à ofensiva contra o outro potentado do mundo, o Amor. Finalmente, este elemento também foi vencido, ou seja, organizado, matematizado, e há cerca de 300 anos foi proclamada a nossa «Lex sexualis» histórica: «qualquer um dos Números tem direito a qualquer outro Número enquanto produto de consumo sexual».
    Depois, é tudo uma questão técnica. Somos cuidadosamente examinados nos laboratórios do Bureau Sexual, é determinado com precisão o conteúdo das nossas hormonas sexuais no sangue — e é-nos elaborada a respectiva Tabela de Dias Sexuais. A seguir fazemos uma declaração de que, nos dias que nos cabem, desejamos usar o Número tal ou tal e recebemos a devida caderneta de senhas (cor-de-rosa). E pronto.
    É claro: já não há quaisquer motivos de inveja, o denominador da fracção da felicidade foi reduzido a zero e a fracção transforma-se num magnífico infinito. E aquilo que, entre os antigos, era uma fonte de inúmeras tragédias estúpidas foi transformado, entre nós, numa função harmoniosa, agradável e útil do organisnno, do mesmo modo que o sono, o trabalho físico, a ingestão de a defecação, etc. Por aqui se vê como a grande força da lógica purifica tudo o que toca."

    Evguéni Zamiátin, «Nós e Outras Novelas», trad. Nina Guerra e Filipa Guerra, ed. Relógio D'Água

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  7. Não comer muito... nesta quadra? Nem brinque com isso!!!!
    Ora, nem de propósito, lembrei-me deste trecho do Extraordinário e último lançamento do nosso não menos Extraordinário Paulo Moreiras, "O caminho do burro"!
    Um pedaço de prosa gulosa, bem ao jeito deste nosso Escritor que tão bem escreve e usa a nossa língua, com a riqueza dos nossos doces conventuais que são um deleite para os nossos espíritos de leitor! Delicio-me a ler este português puro, rico, amplo de largueza no vocabulário e nos termos, na forma como se conjugam e formam palavras e frases.
    Devia ser de leitura obrigatória para quem pretenda usar bem a nossa língua escrita!

    Bom proveito, e, melhores Festas, são os meus votos cá do Bairro Ribatejano!

    Aparelharam-se as mesas no refeitório para receber os doces e as confeiteiras rivais. De um lado ficava a comitiva do Mosteiro de Estevães e diante o Convento de Sant’Ana. Nos topos as respectivas madres. Pouco depois. A irmã Francelina e a irmã Calista começaram a colocar sobre a mesa as suas culinárias engenhosidades, cobertas com panos da mais fina cambraia, para que os olhos não começassem cobiçosos a sua avaliação.
    Por fim, quando as travessas foram destapadas, logos as presentes perceberam a avultada diferença existente entre as iguarias apresentadas a julgamento. Irmã Francelina ostentava vários pudins de ovos, firmes, luzidios e morenos, com um tamanho superior aos pequenos, frágeis e modestos doces da irmã Calistra. Logo ali principiaram os alvitres e, olhando para Calistra, a madre Ermelinda carregou o sobrolho, revelando a desilusão e o desagrado que aquele cenário de hecatombe lhe provocava.
    As irmãs de ambas as trincheiras deram início à gulosa contenda, degustando à vez um e outro pitéu e, todas à uma, renderam-se aos humildes e enjeitados doces de Calistra. Faltava, porém, o veredicto da abadessa de Estevães que, em êxtase, se deliciava a cada pequena dentada, lambisqueira, entregue de corpo e alma ao culinário engenho de Calistra. Sumo pecado. Quando finalmente ditou a sentença ouviram-se vivas ao génio da irmã confeiteira de Sant’Ana. Conquistara a palma, pertenciam-lhe os louros.
    - Como foi baptizado este pequeno prodígio? – questionou a abadessa do Mosteiro de Estevães. – Por muitos anos que viva nunca irei esquecer.
    Calistra não o crismara ainda, não pensara nisso. Só o belo pastor tinha lugar no seu pensamento.
    - Brisas – disse soluçando. – Brisas do Lis.
    E assim , de um amor nunca declarado, nasceu esta especialidade culinária de Leiria, para bênção do nosso corpo e leveza do espírito.

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  8. "Nunca tinha estado num lugar assim, à lareira, o lume dos torgos de ervideiro, as brasas dum vermelho incandescente. Perguntei ao Mendes se não podíamos cear ali. "Que sim." Sentámo-nos e rodámos sobre a cabeça a tábua suspensa por dois prumos até que ficou assente nos paus laterais, a fazer de mesa. Fernanda servia-nos. Comemos carne de porco cozida, da banda, e grelos untados com a gordura da carne. Lá fora continuava a chover; chovia sempre. Ouvia-se o barulho da chuva a bater nos vidros da janela, a cair no telhado e nas coberturas de latão dos anexos. O lume dos torgos de ervideiro ; as brasas dum vermelho incandescente. Sentados no escano; à lareira. Como se as coisas começassem a ser inventadas. Como se o mundo estivesse a começar. Como se alguém dissesse; aqui a água, aqui o fogo. O odor dos grelos e da carne cozida; o pão de centeio ; o vinho palhete; o lume dos torgos de ervideiro ; as brasas dum vermelho incandescente. Lá fora continuava a chover. E era como se o mundo estivesse a nascer ; como se algumas coisas ainda nem tivessem nome."
    José Carlos Barros
    "O prazer e o tédio"
    Oficina do livro - 2009
    Boas Festas e um grande Ano Novo.
    Daqui da margem esquerda do estuário do Tejo.
    A. Delfim

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    Respostas
    1. Ah, "o odor dos grelos e da carne cozida; o pão de centeio ; o vinho palhete"; "Como se o mundo estivesse a começar" - para um grupo de homens.
      "Fernanda servia-nos" - a cereja no cimo do bolo.

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  9. Antes de mais: Boas Festas, Rosário e mais calcorreadores destes caminhos de blogosfera.
    "Em casa de pobre até o tempo emagrece. Sei por mim, que comecei a envelhecer antes de ser criança. Mandaram-me calar ainda eu não falava. Mandaram-me varrer e eu tinha mãos apenas para brincar. Vantagem de uma vida que não começa: chega-se ao fim sem precisar de morrer."
    Mia Couto, Mapeador de Ilhas, crónica na Visão de 23/12/2021.

    Vale a pena ler o resto; no texto, o sentir e a necessidade de tanta mulher. Além de apontar caminhos, não é apenas uma crónica de desilusão.

    Boas Festas

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  10. "É o décimo primeiro café que esta chávena
    toma hoje
    (demasiada cafeína para provar
    num só dia). De
    entre as chávenas da sala é
    a que mais conversou (a
    que mais sabe dos dias
    a que mais me ensinaria).
    Tomara lhe calhe agora um sápido
    chá de limão -
    logo mais (tenho a certeza) não
    vai conseguir adormecer."
    "Antico Caffè Greco", in Mediterrâneo, João Luís Barreto Guimarães

    À Maria do Rosário e a todos os Extraordinários, muito obrigada por terem contribuído para que o meu 2021 fosse melhor, através dos momentos bons, ricos, que passei neste blogue. Desejo a todos um Natal feliz, com saúde e paz. E que 2022 seja um ano com mais razões para rir, paz para sorrir e tempo para ler.

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  11. Boas Festas, Maria do Rosário!

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