Poesia outra vez

Diz-se que Portugal é um país de poetas. Não sei se isso é exactamente verdade, mas que há sempre bons poetas para lermos em todas as gerações, lá isso há. Recentemente, por exemplo, saíram dois livros de poesia dignos de referência aqui no blogue. O primeiro é de uma nova colecção, a Claro Enigma, e o poeta, que já tinha publicado um livro de poesia, chama-se Rui Teixeira Motta e não deixou que o Direito que pratica profissionalmente o tornasse prosaico. O seu novíssimo poemário chama-se Refracção e, se se pode resumir um livro de poesia (eu acho que não, mas pronto), este fala da própria poesia, mas também do amor, da morte, do quotidiano, da beleza, e é, de acordo com o prefaciador (o poeta António Carlos Cortez), uma «poesia de imagens» (mas não só). O segundo livro é de Marta Chaves (que já havia sido falada aqui o blogue a propósito da saída do seu muito belo Varanda de Inverno) e intitula-se Avalanche, mas se nos cair em cima será boa coisa; olha para dentro mas também para o outro, para a memória, sem esquecer o futuro, e inventa o que há de certos meses noutros meses (uma ideia original que atravessa o livro). Deixo-vos dois poemas, um de cada um dos livros, pela ordem em que os mencionei, para se deleitarem.


 


As luzes da cidade


 


Pela tarde


Gostava de ser eu a puxar a manivela


E acender todas as luzes da cidade


Velas de cheiro


Ardendo até ao coto.


 


E nessa espécie de claridade


No mesmo gesto


Ser eu a criar a noite.


 


Eis o degelo


 


A fruta do futuro


há-de rolar pela colina.


Toda a gente anda para colhê-la.


 


Mais patranha que façanha


quem inventou a velocidade


gerou o atropelo.


 


 


 

Comentários

  1. António Luiz Pacheco9 de novembro de 2021 às 03:32

    Bom dia, com poesia... como diria um nosso Extraordinário!
    Eheheh!

    Portugal, país de poetas? Bom, há uma cena num livro de Astérix, "O domínio dos Deuses" se bem me lembro, em que é preciso cantar para animar os escravos no trabalho (sim, na época romana, na Europa, já se usavam escravos! Não foram criados por nós portugueses quinhentistas como julgam alguns ignorantes e dizem outros igualmente ignaros porém mal-intencionados) . Nessa cena aparece um fulano baixote, de bigode, que diz ao centurião: Eu sou lusitano, não sei cantar mas posso declamar! Não sei se seria um antepassado de João Vilaret, mas corresponde a essa imagem!
    Por outro lado, creio que quando se diz que somos um povo de poetas, não significará poetas-mesmo no sentido de vate, mas sim no sentido de sermos ingénuamente sonhadores, crédulos e muito amigos do irrealismo, também chamado "treta".
    Também temos poetas evidente e indiscutívelmente!

    Olhando às duas poesias aqui transcritas, pedindo desculpa pelo atrevimento e pela eventual demonstração de pouca cultura poética, diria que:

    - Primeiro poema, embora não faça o meu género, compreendo no entanto o seu sentido e o que o Poeta pretende transmitir. Até gostei de ler.
    - Segundo poema, para mim nem faz qualquer sentido o que se diz como não consigo sequer vislumbrar o que quer a autora transmitir. É o exemplo do que me faz não ser consumidor de poesia. Peço perdão pela sinceridade e eventual deselegância.

    Saudações poéticas cá da Cidade Morena, berço de Ernesto Lara Filho

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  2. Gostei dos poemas e gosto de descobrir poetas...

    Bom dia Marta, bom dia Rui.

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  3. Não conhecia a poesia de Rui Teixeira Motta. Mas li e gostei da "Varanda de inverno" de Marta Chaves. Deixo aqui (e espero que a Maria do Rosário Pedreira não se importe) um dos meus poemas preferidos desse livro, «La maliciosa»:

    A montanha acompanha-me
    como um guia a um cego.
    As águas correm num nível baixo
    e nada se banha nelas.
    A montanha, tal como eu,
    aparece e desaparece,
    provoca os meus sentidos
    e prova a minha distracção.
    O manto silvestre é cinzento
    e verde de silêncio.
    A natureza diz mais sobre mim
    do que qualquer coisa que eu possa dizer.
    A ausência de pessoas dignifica a paisagem,
    vence a história sem medo.
    Vim aqui para respirar
    dou graças por ter sobrevivido.
    A montanha abraça-me,
    sem que eu pense que o tempo vai acabar
    e começar noutro lugar
    menos fértil para os meus sentimentos.
    A minha vida casa com a paisagem
    feita de pedra e vegetação.
    Não preciso que nada mais me convença
    do resto ser pura desilusão.

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  4. estética da receção sob recensão estética
    o papel do leitor é imprescindível para fechar um ciclo e propagar ondas de choque no que concerne o dito por escrito mais conforme mais disforme etc
    depois vêm os analistas especialistas calistos e dão cabo do canastro por incesto manifesto a quem faz de trocadilhos de texto o prazer máximo da escrita leitura que com intenção por intuito desdiz bem muito bem qual o senhor que se serve

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