Excerto da Quinzena
«Uma vez em que o avô me mandou comprar um pacote de esparguete [à loja do senhor Júlio], foi a mulher dele quem apareceu. Não tinha acabado de mastigar e de vez em quando uma espinha aflorava-lhe aos lábios e voltava para dentro, como um priosioneiro a fazer o que podia para se ver em liberdade. Tinha os olhos muito abertos. Sem mais, avançou para mim.
– Diz ao teu avô que são horas de comer – vociferou.
E disse ainda, aos gritos, que era preciso parar com aquela palhaçada. Que era todos os dias a mesma coisa. Queria comer em paz. Não me voltava a abrir a porta nem que estivesse a noite inteira a bater.
Quando acabou, as espinhas não estavam lá: tinha-as mastigado no meio dos insultos.»
Hugo Mezena, Gente Séria, Planeta, 2018
"As sepulturas da família Clutter, quatro campas sob a mesma lousa cinzenta e lisa, achavam-se num canto do cemitério. Para lá das árvores, em pleno sol, quase no extremo dos campos de trigo cintilantes. Ao aproximar-se delas, Dewey reparou que já ali se encontrava outro visitante: uma rapariguinha magra, de luvas brancas, cabeleira cor de mel e pernas compridas e elegantes. ela sorriu-lhe e Dewey não sabia quem era.
ResponderEliminar_Já se não lembra de mim, Mr. Dewey? Sou Susan Kidwell.
Ele riu-se e a rapariga aproximou-se:
_Sue Kidwell! Diabos me levem!
Dewey fitou a pedra escura com os quatro nomes gravados e a data das mortes: 15 de Novembro de 1959.
_Vens aqui muitas vezes?
_De vez em quando. Bolas! O sol está forte!_Tenho de ir embora a correr: Mas gostei muito de o ver Mr. Dewey!
__Também gostei muito de te ver, Sue. Felicidades!_acrescentou ainda, enquanto a rapariga se afastava pela alameda abaixo, uma jovem bonita, de cabelos ao vento, a brilhar, uma mulher bela como Nancy teria podido vir a ser. E depois, de regresso a casa, ao encaminhar-se na direcção das árvores, passou por baixo destas, deixando para trás o vasto céu e o murmúrio das vozes do vento que inclinava as hastes do trigo".
Truman Capote- A Sangue Frio
"A Sangue Frio" - grande livro!
EliminarQuem traduziu?
EliminarA tradução é de Maria Isabel Braga; tenho a 1ª edição dos Livros do Brasil e a actual da Dom Quixote
EliminarCom efeito já o reli várias vezes; a escrita do Capote é viciante: o filme do Richard Brooks ,com o mesmo título, a preto e branco, segue fielmente o guião do livro; vale a pena ver em complemento da leitura.
EliminarObrigado pela informação.
EliminarQuanto ao genial escritor totalmente de acordo; o filme do Richard Brooks ainda não o vi.
EliminarHoje, temos na internet ferramentas que nos facilitam trabalhos, mas podemos pensar o que era o quotidiano dos escritores em tempos nada fáceis. É por estas e outras que gosto de Correspondências.
ResponderEliminarNuma carta, datada de 12 de Janeiro de 1974, Jorge de Sena pedia a António Ramos Rosa:
«E agora aproveito a oportunidade para pedir-lhe um pequeno favor, que se reporta às notas que já fiz para os novos volumes de traduções minhas de poesia, coligidas. É que não consigo de maneira nenhuma encontrar indicação de se o Pierre Jean Jouve e o Jacques Prévert ainda estão vivos, e, se morreram, quando foi; e dados biográficos (bibliográficos encontro eu) do Georges Hunet que foi membro do grupo surrealista e de cuja poesia gosto muito (onde e quando nasceu, se morreu e quando, etc.). Talvez V. me possa ajudar quanto a estas informações.»
António Ramos Rosa respondia-lhe em carta datada de 21 de Fevereiro de 1974:
«Se não fosse o meu estado seria de facto indesculpável não lhe ter escrito há mais tempo para lhe fornecer as informações que me pedia sobre os poetas franceses, Não descurei o assunto, mas muito pouco consegui apurar ao certo. Nos meus livros, os únicos dados biográficos que consegui obter sobre Georges Hugner, foram os seguintes (em Le Surrealisme, de Robert Bréchon, ed. Armand Colin, pp 187 e 199 de uma Cronologia): a adesão em 1930 ao grupo surrealista, juntamente com Dali, Buñuel, Char, Sadoul; e a exclusão do mesmo em 1938, juntamente com Dali. É alguma coisa mas não encontrei o mais importante: nem a data do nascimento, nem a data da morte, se é que ele já morreu. Quanto aos outros, nada consegui saber ao certo: não me consta que tenham morrido, pelo menos o Prévert que, segundo me informaram, publicou há poucos meses um livro. Penaliza-me não ter obtido mais informações, mas não consegui, apesar de ter consultado todos os livros de que dispunha, meus e de alguns amigos. Não encontrei os de Maurice Nadeau, onde talvez se encontrassem mais dados biográficos sobre Georges Hugner.»
A Correspondência de Jorge de Sena e António Ramos Rosa está publicada pela Guimarães, Outubro de 2012.
Por estas e por outras é que, ao invés daqueles tempos, agora há muita informação mas pouco muito pouco conhecimento.
EliminarFaz hoje 92 anos que Pessoa escreveu o poema de Álvaro de Campos "Aniversário" do qual transcrevo alguns fragmentos.
ResponderEliminarNo tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
[...]
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
[...]
O que fui de amarem-me e eu ser menino.
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
[...]
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa.
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
[...]
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
Serei velho quando o for!
EliminarÉ por isso que tanto gosto de Fernando Pessoa.
Obrigado AMALIVROS.
EliminarLindo e nostálgico.
DE ERNESTO LARA - para que não pareça que sou insensível à poesia, Infância perdida:
ResponderEliminar(para o Miau)
Nesse tempo, Edelfride,
Com quatro macutas
A gente comprava
Dois pacotes de ginguba
Na loja do Guimarães.
Nesse tempo, Edelfride,
com meio angolar
a gente comprava
cinco mangas madurinhas
no Mercado de Benguela.
Nesse tempo, Edelfride,
montados em bicicletas
a gente fugia da cidade
e ia prás pescarias
ver as traineiras chegar
ou então
à horta do Lima Gordo
no Cavaco
comer amoras fresquinhas.
Nesse tempo, Miau,
(alcunha que mantiveste no futebol)
nós fazíamos gazeta
da escola coribeca
e íamos os quatro
jogar sueca
debaixo da mandioqueira.
Era no tempo
em que o Saraiva Cambuta batia na mulher
e a gente gostava de ver a negra levar porrada.
Era no tempo
dos dongos da ponte
dos barcos de bimba
dos carrinhos de papelão
Como tudo era bonito nesse tempo, Miau!
Era no tempo do visgo
que a gente punha na figueira brava
para apanhar bicos-de-lacre e seripipis
os passarinhos que bicavam as papaias do Ferreira Pires
que tinha aquele quintalão grande e gostava dos meninos.
Era no tempo dos doces de ginguba com açúcar.
Mais tarde
vieram os passeios nocturnos
à Massangarala
e ao Bairro Benfica.
E o Bairro Benfica ao luar
O poeta Aires a cantar
(meu amor da rua onze e seu colar de missangas…)
Cá desde a Cidade Morena, terra do poeta.
A descer a rua do Alecrim é que eu me quero pelas nove e tantas da manhã e no Outono, se possível. Deixo o Camões em bronze no meio do largo (sempre com uma pomba no ombro, nunca percebi porquê) e começo a descida. A poucos passos tenho o Eça, didáctico, a levantar o véu da fantasia a uma beldade desnuda como se alguém se deslumbrasse com semelhantes intimidades. Nem me volto, sigo em frente.
ResponderEliminarNisto, quando olho para o fundo da rua, descubro que os enormes guindastes da Lisnave da outra banda do rio se encontram quase do lado de cá, em cima do Cais do Sodré. Atravessaram o Tejo ou foi o Tejo que encolheu durante a noite?
"Lisboa - livro de bordo"
José Cardoso Pires
D. Quixote 1997
Do lado esquerdo do estuário do Tejo.
Com os desejos de bom fim de semana neste Outono cheio de sol!
A. Delfim
"...Some no escuro a sombra pois a noite
ResponderEliminarapaga as pontas de seu tênue rastro
de cativa luz desenrolado
no chão com suas asas reais de pássaro
concentrado no corpo que se move
na escuridão e logo se recolhe
para alcançar no sono a reunião
das pontas noutro vôo enquanto dorme
e desdobra-se toda contraída
na essência de seu vácuo interminável _
um princípio que é fim e se renova
sem abdicar de si, como uma árvore..."
Pedrada da Transmutação de Foed Castro Chamma, ed. Melhoramentos
Cláudia da Silva Tomazi
«À boca das areias, ardem quilhas insuspeitas.
ResponderEliminarUma tempestade amotina-me o brilho do olhar.
A cidade inunda-se de barcos e, dentro de mim,
pernoita um marinheiro comprometido
com marés desmedidas.
Podia esquecer-te para sempre, não fora a vertigem
da tua sombra a cercar os meus olhos.»
(um dos bonitos poemas de "Uma Certa Forma de Errância", da poetisa Graça Pires)
"(...) o nosso mal é julgarmos que só as grandes coisas são importantes, ficamos a falar nelas e depois quando queremos saber como era, quem estava, que foi que disseram, é uma dificuldade."
ResponderEliminarLevantado do Chão de José Saramago.
Grande livro de imortal escritor. Que maravilha! E ainda com pontuação, para todos aqueles que (naturalmente não frequentam este maravilhoso cantinho), sentem dificuldade em ler o Saramago "que escreve(ia) como fala(va)".
Bom Fim de Semana, acompanhado com Excelentes Leituras, como não poderia deixar de ser.
Celeste Silveira
“Pai, mãe e filho acharam-se no meio de muitas ruas apertadas e antigas. Havia arcos de pedra e brasões a certas portas. Oratórios também: muitos. E padres. Padres, padres e mais padres, o que ali ia de padres só visto. Levantava-se uma pedra saltava um, acendia-se a luz voava outro. Pareciam gatos a espirrar da sombra.
ResponderEliminarMulheres é que poucas, muito raras. À falta delas a cidade procurava animar-se com rapazes aos bandos que brincavam à coragem do vinho tinto e contavam anedotas em voz alta. Vestiam capas de luto e batinas iguais às dos padres, embora fossem estudantes. O mais curioso é que, talvez por não terem mulheres ou por andarem cheios de medo dos professores, se vingavam constantemente uns nos outros, rasgando capas à tesourada, rapando o cabelo aos mais fracos, fazendo trinta por uma linha. Nessas ocasiões soltavam gritos de guerra: «EFE-ERRE·A... FRAIA» | «EFE·ERRE-E... FRÉ!> | «EFE-ERRE-I... FRI!» …, procurando assim decorar o abecedário.
Longe, nos quintais, os que não andavam de tesoura em punho cantavam para chamar mulher. E, Jesus, era de arrepiar. Ouvia-se a guitarra: gemia tremidos, miudinha; ouvia-se a voz: tinha trinados de ave capada, toda mel e lua cheia. Estava-se, escusado será dizer, NA CIDADE DOS DOUTORES”
Dinossauro Excelentíssimo, José Cardoso Pires. 6.ª Ed. 1973.
"Quando acordaram de manhã, na mesma cama, ela disse-lhe que queria ter um passado com ele. Não era um futuro, que é uma coisa incerta, mas um passado, que é isso que têm dois velhos depois de passarem uma vida juntos. Quando disse que queria ter um passado com alguém, queria dizer tudo. Não desejava uma incerteza, mas a História, a verdade. Foi o que ela lhe disse."
ResponderEliminarAfonso Cruz, Jesus Cristo Bebia Cerveja
Filipa
Já li este livro do Afonso Cruz há muito tempo e não me lembrava desta passagem-genial como todos as obras que li dele.Um autor que vale a pena ler.Não desilude
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