Excerto da Quinzena
(Excepcionalmente hoje, porque amanhã é dia de dizer o que andamos a ler.)
Detesto as boas donas de casa. Se são pobres, esfalfam-se a trabalhar, se são remediadas ou ricas arranjam uma ou mais pessoas para se esfalfarem em seu lugar. De qualquer dos modos são escravas do trabalho ou então da vigilância com outras escravas às suas ordens. A vida a correr lá fora, os maridos e os filhos a correrem com a vida, metidos nela, e as donas de casa a esfregar, a limpar, a dar brilho aos metais. Ou a ver as outras a fazê-lo. Olhe que o pó não está bem limpo. Olhe que a torneira não está bem areada. Isto não pode continuar assim, isto tem de acabar, olá se tem! O que a vida já correu e elas sem a verem. Sem darem por nada. Ficaram sozinhas e não se dão conta. O marido morreu sem nunca ali ter estado, os filhos fugiram para se casar com outras donas de casa que estavam escondidas dentro de raparigas bonitas, alegres e apaixonadas.
Maria Judite de Carvalho, Tanta Gente, Mariana
Belo texto da Maria Judite Carvalho no ano em que a comemoramos. Felizmente que os tempos das devotadas donas de casa são arqueologia para a novas gerações. Eu ainda sou filho de uma dona de casa que deixou de estar empregada quando se casou e sei que, para a sua vida pessoal, terá sido uma má decisão.
ResponderEliminarÉ verdade e subscrevo o que diz o nosso Extraordinário Artur!
EliminarTanto na qualificação deste belo e elucidativo texto, quanto à celebrada obra da aludida escritora, que segundo se diz ficou sempre na sombra do marido - o que não quer dizer tenha sido propositado! Foi porque foi...
E, foi de facto assim, toda uma época e num outro tempo, em que as mulheres muitas vezes optavam pela vida doméstica. Outros tempos, outras vontades e outras formas de ver as coisas, quando se viviam outras vidas, nem melhores nem piores, apenas diferentes.
Também sou filho de uma mãe que foi violinista na sua juventude e vida de solteira. Depois de casada passou a ser professora de violino, dando aulas em casa, abandonando a eventual carreira, mas já sem pai, casada com um militar que andou bastante em comissões na guerra do ultramar, mãe de três filhos e com uma casa agrícola, naquele tempo, dedicou-se à casa.
Só falámos disso muitos anos depois e já depois de falecido o meu pai, quando minha mãe recordava esse tempos e as pessoas também desaparecidas, desse tempo.
Muitos anos depois das episódicas aulas de violino que dera, estávamos os dois a arrumar o salão, enfim passe a prosápia, mas é o nome que damos a uma grande sala já raramente usada, que funcionou também como sala de música em tempos antigos, na actualidade fazendo de museu de família, com o seu fogão de sala, estantes, o piano... fomos dar com o seu violino em cima de uma das estantes. Nunca mais tocara, iam mais de 30 anos, se bem que o fosse mantendo. Num impulso colocou-o no queixo e arrancou-lhe uns acordes, enferrujados e trôpegos pela idade e destreino. Foi das vezes que a vi chorar, em silêncio mas lágrimas lhe escorrendo pela face... ainda hoje recordo e me comovo com o episódio.
Vão perdoar-me, mas foi uma memória viva e forte que me trouxe o belo texto, mais o comentário do Extraordinário Artur.
Saudações saudosas e saudáveis cá da Cidade Morena, terra de mulheres-guerreiras!
Caro António Luiz, muito obrigado pela partilha de uma memória tão tocante da sua mãe, que é também uma reflexão sobre a vida e sobre o envelhecimento que vai tocando a alguns de nós. Sempre uma inspiração os seus textos !
Eliminar"Um frio mais intenso começou a invadir-me as pernas e a cintura e a gelar-me o coração, e a única coisa que distinguia, pois que já quase não conseguia mexer-me, eram as mãos, os longos dedos do retrato de Lorenzo Lotto. Estendi-me gemendo. Queria beijar o rosário de Dom João, o rosário benzido por São Pio V, que me pendia do pulso hirto, e os lábios ficaram-se-me imóveis a meio do caminho entre a enfiada de contas negras e o anel de Benvenuto Cellini, o de aço puro: o anel que foi a última coisa que os meus olhos viram no dedo mínimo crispado, antes de os ter cegado a implacável noite, e antes de me arrastar, pobre monstro de Bomarzo, pobre monstro pequeno, ansioso de amor e de glória, pobre homem triste, até ao bosque dos verdadeiros monstros e da luz derradeira, invencível, pacificadora."
ResponderEliminarBomarzo- Manuel Mujica Lainez-Tradução de Pedro Tamen-Sextante Editora
A lua no telhado
ResponderEliminarreclama tua ausência.
Caminho até a praia
para te esperar.
Ondas, Canoas amarradas,
gaivotas sonolentas...
Piso a areia quente,
sem pressa.
A lua no telhado
parece colada em mim.
Enluarados (2011)
Jeanine Wandratsch Adami , o livro Estrada de Papel
Cláudia da Silva Tomazi
Tem cada um a sua Terra Prometida e a minha é o País do Outono. Quando chega é como se chegasse a casa. E há cheiros e há sombras e há recantos. Saí para caminhar por uns quilómetros e por ter medido mal as horas a noite apanhou-me ainda ao largo. Vim por sobre o estalar das folhas como quem segue um mapa e a cidade tinha luzes ao longe. Talvez amanhã eu faça uma compota. Talvez um dia eu pendure cortinados de xadrezinho nas janelas da cozinha. Os cortinados de xadrezinho vão bem com intenções domésticas ainda que as minhas nunca tenham grande firmeza. Os anjos que voam sem pressa ao verem a vela acesa no parapeito vêem bater nos vidros com os seus longos dedos transluzentes. Aceno-lhes de volta e a noite cresce acolhedora como um xaile que se fecha sobre os ombros.
ResponderEliminarO FULGOR INSTÁVEL DAS MAGNÓLIAS
Ivone Mendes da Silva
Daqui da margem esquerda do estuário do Tejo.
A. Delfim
O modo/frase com que me despeço e cumprimento todos os Extraordinários, foi "roubada" de um título de um livro, que como habitante desta margem aproveito para recomendar.
A MARGEM SUL DO ESTUÁRIO DO TEJO.
Factores e formas de organização do espaço.
Maria Alfreda Cruz.
É uma edição de 1973,mas que se lê muito bem.
Fiquem bem!
"– Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. [...]"
ResponderEliminarHerberto Helder
Yuuuppp.
Eliminar"- Um pouco mais de brandy, se faz favor. Ou mesmo cerveja, embora eu preferisse o brandy."
HerbertoHélder.
ACCarvalho
“Arrume as suas coisas e venha; há que puxá-lo pelo colete, como fazem as crianças. Eu não sei o que lhe dizer para que não fique zangado, não se ponha melindrado. Depois insulta-me, se me insulta! Eu acabaria por agarrá-lo um dia e partir-lhe a cabeça; por isso o acaso, mãe dos engenhos, me faz tão distanciada dos meus amigos. Só tenho aborrecimentos, agrada-me descrevê-los.”
ResponderEliminarExcerto de carta de Agustina Bessa-Luís a Juan Rodolfo Wilcock, datada de 7 de janeiro de 1960, in “Agustina Bessa-Luís, Juan Rodolfo Wilcock, Correspondência (1959-1965)” da Relógio D’Água. Traduzido do Castelhano por Lourença Baldaque.
[Dona Berta] passava o tempo a mandar as criadas limpar a casa, cujo cheiro a incomodava. Cheirava a roupas velhas, a sarro de vinho; vinha dos lagares esse perfume a grainha aquecida pelo triturar do alambique. E as paredes ficavam embebidas desse calor, como se fosse um beijo doce que atravessasse a madeira das cubas. Ela era uma mulher para perceber a cálida força do vinho, que não bebia mas que lhe dava uma inspiração romântica, como todas as mulhetes têm quando reconheccem a distância da juventude e dos provérbios caseiros.
ResponderEliminarAgustina - Memórias Laurentinas
«Recordo-me – mas o contexto é radicalmente diferente –dos verões passados em São Martinho do Porto, “um microclima”, como dizia o meu pai, havia sol em todo o lado, e mal nos aproximávamos das Caldas da Rainha víamos uma concentração de nuvens para os lados do Atlântico, e a alternativa era simples, ou as nuvens ficavam todo o dia, ou havia uma ventania que as varria e tornava a praia insuportável. Acordávamos e corríamos a encostar a atesta às janelas, na melancolia de uma chuva miudinha, mas sempre na esperança de que isto vai levantar, e como se sabe ao meio-dia ou carrega ou alivia. São Martinho: poucos lugares portugueses tiveram para mim este peso mágico, dunas de infância em Salir, merendas na praia, castelos de areia, o Catitinha, o homem dos barquilhos, o domingo das regatas, o bilhar à noite, a roleta, as bicicletas da rua dos cafés, o jogo do prego, as excursões colectivas ao cinema para os lugares da frente, os mais baratos, onde não estavam os pais, as idas ao Facho, a descida à Praia da Adraga, o farol e a lenda do navio encalhado, as sestas, a descoberta do amor, os amuos de fim de tarde, os passeios de barco, as leituras no pinhal, a Maria Eduarda, o Artur e os seus estudos de Direito, as discussões políticas, o ir comprar os jornais, os confrontos sarcásticos entre o Benfica e o Sporting, o efeito do 25 de Abril num lugar profundamente reaccionário, os insultos oblíquos, umas caçarolas com bifes e batata fritas que se foram reduzindo e se passaram a chamar “crises” num acto de resistência dos condes e marqueses à política do regime democrático, as conversas e loucuras do Luso Soares, o grupo, o bando, a utopia, a areia nos olhos, a felicidade, o fim do Verão.»
ResponderEliminarEduardo Prado Coelho, “Tudo o que não escrevi” II Volume
Hoje é, decididamente, dia de lembranças... não há boas nem más, apenas lembraças!
EliminarSão Martinho do Porto (o "bidé das marquesas") era isso mesmo, foi assim mesmo...
Bonito texto!
Tenho esse livro do Eduardinho PC; descrição perfeita do ambiente "ancien régime de SMP, aonde vou todos os anos há mais de 35 anos; hoje não é nada disso, com as hordas que vêm do Norte; creio que eu ainda o vi por lá e também ao Vasco Pulido Valente; não iam à praia, limitavam-se aos cafés e restaurantes e á noite na Casa do Leme. Bons tempos que já não voltam, restam as memórias.
Eliminar"Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de Freimas, tem hoje quarenta e nove anos, por ter nascido em 1815, na aldeia de Cassarelhos, termo de Miranda."
ResponderEliminarO nome do autor? O maior dos nossos romancistas.
A queda de um anjo!
EliminarSó mesmo Camilo se lembraria de compôr tal nome... conheci em tempos um Gerente Mesa Camisola por terras de Moçambique, Toma do Nairoto, bem longe de Trás-os-Montes, por sinal. Ás vezes a realidade é mais espantosa que a ficção!
Abraço desde a Cidade Morena
Adoro Camilo Castelo Branco, tenho esse e mais 60 que não me canso de reler, prefiro-o ao Eça, embora goste de algumas coisas ecianas!
EliminarConcordo consigo! Camilo é mais... como direi, realista? Portuguesista?
EliminarO Eça é excelente sem dúvida, mas muito dândi, snob, talvez mais fino, mesmo quando pretende ser "à portuguesa" sai-nos sempre um "beto". É citadino, urbano no sentido mais lato, será sempre um Jacinto e o José Fernandes soará sempre algo a falso.
O Camilo é popular, é rural, é mais autêntico.
Mas gosto muito de ambos! Evidentemente, e, como não?