Vai um livrinho?

Num destes domingos em que havia sol fui almoçar com o Manel a um japonês que tem uma simpática esplanada ali para os lados da Expo. Na mesa ao nosso lado, ficaram dois casais jovens, um dos quais com a filha, uma menina muito pestanuda que tinha, quando muito, dois anos. Deram-lhe de comer de um tupperware trazido de casa antes de eles próprios se servirem (o restaurante é self-service) – uma massa de lacinhos com carne, que normalmente agrada às crianças; e, terminado o repasto, a miúda começou a ficar irrequieta e a pedir colo. Como os graúdos também queriam almoçar, o pai da menina perguntou à sua cara-metade se tinha trazido o telefone da filha. O telefone «dela», disse e eu ouvi muito bem. E, quando eu julgava que iria sair da enorme bolsa que as mães de filhos pequenos sempre trazem com elas um telefone de brincar, desses que tocam campainhas e têm muitas teclas coloridas, eis que aparece sobre a mesa um moderníssimo iPhone, logo entregue à bebezita que já sabia tudo sobre a geringonça e começou imediatamente a passar fotografias e a jogar, deixando os progenitores à-vontade para degustarem sushi e sashimi. Ora que diabo, pensei eu, então o telefone «dela», de uma criança de dois anos, era aquela máquina estupenda e caríssima a que tantos adultos aspiram? Porque não um livrinho, meus senhores, com bonecos, ruídos e até cheiros, que também os há? Irão estes meninos tecnológicos ser capazes de brincar a alguma coisa mais tarde e com alguém? Ou vê-los-emos sós durante toda a infância, diante de ecrãs de computador, sem abrir a boca para comunicar com os da sua idade, mandando apenas mensagens escritas ou apondo comentários em redes sociais? Um susto, é o que é...

Comentários

  1. António Luiz Pacheco17 de outubro de 2014 às 02:15

    Será talvez uma geração virtual?

    Os jovens pais que conheço, talvez para compensar o tempo que não passam com os filhos que depositam desde o berço nalguma instituição onde vivem em estufa, protegem-nos ao ponto de não os deixarem sequer andar na rua... as crianças desconhecem o que é apanhar chuva e o frio ou calor... Some-se a isso o tempo que passam diante de ecrãs ou monitores, e teremos amanhã pessoas 100% virtuais, de plástico, virtuais, e claro: manipuláveis!

    O sonho de qualquer governo... que ditadores de todos os tempos almejaram, mas só agora vão conseguir!

    O Big Brother afinal... Aldous Huxley e Orwell teriam tido razão?

    Fica o pensamento para o fim de semana, que eu vou para a Baía dos Elefantes, dormir na praia ao relento e aos mosquitos sem ter tomado banho... andar metido em água fria e atrás dos peixes, vou comer melxilhões e lagosta grelhados no fogo com areia a estalar nos dentes! Antes que isto seja proibido por razões de ordem diversa, de saúde, ecologia, etc.

    Saudações rústicas da cidade morena!

    ResponderEliminar
  2. Coincidência ou não, sentei-me, num destes dias, ao lado de um jovem casal de namorados, um vidro separava a minha mesa da deles, e não é que, durante mais de meia hora (ou mais, sem exagero) não trocaram uma palavra sequer, estiveram sempre "ao telemóvel" e saíram caminhando "ao telemóvel"...
    Obviamente que, falando curto e grosso, isto para mim (para mim, sublinho) são atrasados mentais/deficientes...mas actualmente é assim e o futuro está aí, não se pode parar o vento com as mãos, o mundo está sempre em mudança...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Se calhar estavam a falar um com o outro... pelo telemóvel.

      Mas lá que é inquietante, lá isso é.

      Eliminar
  3. Curiosamente ainda hoje escrevi sobre este tema de tablets vs livros e como afeta o desenvolvimento das crianças. http://revistafabulas.com/2014/10/17/leitura-atraves-de-tablets-com-as-criancas-conta-como-hora-do-conto/

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco17 de outubro de 2014 às 06:56

      Interessante... sem dúvida que o manusear do livro me parece que educa ainda a sensibilidade e o tacto, por oposição ao uso de aparelhos de plástico.
      A insensibilidade fria que se nota em tantas pessoas difere dos adeptos das tecnologias para os clássicos...

      Para mim faz parte de um todo que não me deixa apreciar vinho se não for em vidro (salvo o verde tinto que há-de ser na malga!), e dentro deste as escolhas para cada tipo ou género de bebida, o chá na loiça ou porcelana e torna indispensável o talher de peixe, fruta... não são esquisitices e sim comodidades de uma sensibilidade despertada, como para as diferenças dos tecidos na pele, etc.

      As gerações plastificadas, blisterizadas, robotizadas pela digitalização, ignorarão o toque e o tacto, o cheiro/paladar seguir-se-lhe-á assim como os vestígios de humanidade. Será?

      Eliminar
  4. Quem viver verá. Eles têm o mundo virtual no quotidiano, não há como negá-lo. Pode ser que haja espaço para tudo. As crianças têm a faculdade de responder a várias solicitações e sentir agrado pelas coisas mais díspares. Bastará que os adultos não optem pela hegemonia digital.
    BFS

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Pois... O pior é que os próximos adultos são as crianças que agora vemos já completamente enredadas na hegemonia do digital...

      Eliminar
  5. Haja dinheiro para todos esse aparelhómetros... A crise vai ali e já volta!

    Enfim, eu sou mais como a Beatriz, penso que haverá espaço para tudo. Mas é verdade que muitos pais protegem demais os filhos e não os deixam tomar contacto com o mundo real. Um exemplo: com esta coisa de terem fechado escolas, criando grandes centros escolares, nas aldeias, muitas crianças têm de se deslocar de autocarro bastantes quilómetros. É claro que têm transporte gratuito, mas demora bastante tempo, pois, além de ser um pouco longe, o autocarro passa por várias aldeias a recolher os pequenos. Ora, as pessoas afligem-se muito por as crianças mais pequenas terem de se levantar tão cedo, tão frio no inverno e ainda escuro... E é valha-me Deus, e é coitadinho e isto e aquilo!
    Ora, vivendo na Alemanha, nos meus passeios matinais com a minha cadela, eu encontro todos os dias crianças de seis e sete anos, a pé, no escuro, com gelo e com neve! Vão bem satisfeitos, brincam, riem, gritam. E têm umas fitas muito giras, a piscar, nas mangas, ou nas calças, para serem bem vistas pelos automobilistas ;) Não me parecem traumatizadas. Nem nunca ouvi aqui ninguém a lamentar que o filho tem de ir para a escola ainda de noite!!! Aqui, toda a gente se levanta de noite, no inverno.

    Maria do Rosário, assuste-se ainda mais: hoje, bem ou mal, as crianças e os jovens ainda têm de escrever e ler mensagens, para comunicarem uns com os outros. Daqui a uns anos, nem isso! Já há Apps com Google de pesquisa oral! É só dizer ao Google: procura restaurantes japoneses em Lisboa! E ele dá a resposta também oralmente!

    Já a minha avó dizia: este mundo está perdido!
    E nós, se calhar, estamos a ficar botas-de-elástico!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ó Cristina isto é um país de lamúria, 2 (dois) telemóveis na mão (um não basta) e depois vão para a TVI e pró Correio da Manhã queixarem-se que passam fome...
      Por isso é que esta gente sempre teviram os governantes que merecem (e agora mais do que nunca), e talvez ainda seja pouco, o problema é que pagam uns pelos outros...

      Eliminar
  6. Outro susto, este aconteceu-me hoje: das 40 páginas do Ípsilon do Público, apenas 4 são dedicadas a livros (que irão certamente desaparecer quando abrirem secções sobre apps e videojogos...). Que saudades do "Mil Folhas" e dos textos ensaísticos do EPC.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ó Artur ainda ontem era domingo já amanhã é sábado, ou seja, repito o que aqui já disse, não podemos parar o vento com as mãos e o mundo está sempre em mudança e não interessa chorar no molhado mas lá que dói dói (e a mim bem me dói), por isso como te compreendo AA

      Eliminar
  7. e quando não acompanhamos estes tempos, parece que possuímos qualquer "anormalidade"...

    basta não pertencer à rede de "faiebuicanos" para se ser um careta.

    não sei se há volta...

    ResponderEliminar
  8. Não deixa de ser curioso a publicação deste post no dia em que se anunciou o vencedor do Prémio LeYa, com apenas 24 anos. Afinal, não haverá grandes motivos de receio quanto ao futuro do livro e da literatura.
    Por coincidência, li há dias no jornal do bispado alemão de Hildesheim que, numa altura em que consideramos a geração jovem egoísta, materialista e irresponsável, se apresentaram, na Alemanha, como voluntários para trabalhar nas regiões africanas assoladas pelo ébola mais de 2000 soldados e cerca de 1300 interessados nos postos da Cruz Vermelha. A maior parte destas pessoas tinha menos de 35 anos.
    Nada mau, para uma geração egoísta!

    Parabéns ao vencedor da LeYa e a todos os jovens que nos fazem ter esperança no futuro. Porque os há e bem mais do que pensamos!

    ResponderEliminar
  9. Isto está de tal forma que, no outro dia, numa festa de anos de crianças, vi um miudinho de 2 anos junto a uma televisão daquelas antigas "de ecrã duro", a bater no ecrã com o dedo, como se fosse um ecrã touch. XD

    ResponderEliminar
  10. Também já fui surpreendida com uma "cena" semelhante. Lembro-me de olhar para a minha filha e sossegar por a ver tão entretida com os seus bonequinhos, enquanto que o rebento da mesa alheia se entretinha com o Ruca - aliás, ele e nós que também estávamos a ouvir. Cá em casa não há cá esse hábito de a deixar mexer nos computadores, tablets e telemóveis e já me chateei bastante com um dos avós por a pôr a jogar às escondidas e depois nós termos tido um suplício cá em casa para lhe explicar porque não podia fazer o mesmo com os nossos. Enfim...

    xoxo
    cindy

    ResponderEliminar
  11. Nem quero acreditar... Dois anos? Um iPhone?

    ResponderEliminar

Enviar um comentário