Trabalhar e escrever

Hoje muitos escritores (sobretudo lá fora) são profissionais da escrita e vivem disso a tempo inteiro (a alguns pagam-lhes avanços chorudos sobre os direitos dos seus próximos livros, quantias que julgaríamos impensáveis fora do universo de Hollywood); mas nem sempre foi assim e, ao longo de séculos, os escritores tiveram profissões que frequentemente nada tinham que ver com o gosto pela escrita, podendo apenas exercitar a pluma nos tempos livres. Mas não seriam essas experiências laborais de algum modo enriquecedoras para a literatura dos próprios? Ou seja: teria escrito Melville o famoso Moby Dick se não tivesse trabalhado a bordo de uma baleeira, ou Dickens descrito tão magnificamente as crianças e os jovens da classe operária se não tivesse ele mesmo trabalhado numa fábrica logo aos seis anos de idade? Pessoa, já se sabe, era empregado num escritório bastante desinteressante, tal como Kafka era administrativo numa companhia de seguros; pode pensar-se que nada disto inspirava ambos, mas não teria sido o tédio destes lugares a desenvolver a veia criativa de ambos? Leio que Nabokov, quando se mudou para os EUA, era o curador de uma colecção de borboletas num museu universitário e que escreveu vários textos sobre borboletas e traças (a borboleta pode ser uma metáfora de Lolita, de resto). E Jack Kerouac lavou pratos – uma excelente iniciação para quem anda Pela Estrada Fora e tem de ganhar dinheiro rápido para alimentar os custos da viagem. Em suma, ter uma profissão «ao lado» será uma frustração ou um motor da criatividade?

Comentários

  1. acho que todos os escritores foram outra coisa, pelo menos antes de se tornarem famosos.

    e cá, não sei mesmo se haverá alguém verdadeiramente profissional.
    mesmo o Lobo Antunes. é um médico reformado e também escreve crónicas para a "Visão" (e ainda bem...).
    muitos dos escritores mais jovens, que apostaram a sério na carreira, além da escrita, escrevem em jornais e revistas artigos de opinião e dão cursos de escrita criativa, etc.

    temos um mercado pequeno...

    goste-se ou não do "pivot televisivo do pisca pisca", ele deve ser o único que poderia viver apenas da escrita.

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  2. Claudia da Silva Tomazi20 de novembro de 2014 às 02:21

    Bem, Luís Eme (gosto indiscutível) Lobo Antunes a vez primeira the best !

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  3. Não vejo mal em se ser outra coisa além de escritor; pode ser inspirador. Fernando Namora é um bom exemplo. E Miguel Torga outro; apesar de dizer que estava a curar anginas (não sei bem se eram anginas, mas de certeza não seriam amigdalites) quando lhe apetecia escrever, a profissão deu-lhe muito poema e decerto bastante sobre que reflectir em prosa.
    Não creio que alguém escreva completamente desenraizado do resto do seu ser, mesmo não se tratando de escrita biográfica. Nem que, como Pessoa, escreva por contraste.
    Acredito que seja um exercício - para quem o prefere a outras distracções, ou por funcionar como terapia de normalidade e uma quase obrigatoriedade a que o sujeito não pode furtar-se - sempre permeável. Os eixos de permeabilidade é que diferem.

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  4. Interessantíssimo tema este!
    Vai dar pano para mangas, certamente e mais depois daquilo que ALA disse sobre ser-se escritor antes dos 24, e com o que eu inteiramente concordo!

    Sou dos que pensam que para se ser deveras escritor e principalmente para escrever obras-primas (nem que seja uma só!) o escritor tem que ter vivências! Muitas e diversas.

    Hoje, despreza-se esse factor, parece que a ficção impera, basta pensar numa coisa ou tema e escrever sobre ele e já está! As vivências são frequentemente substituídas pelo virtual, lendo outros ou vendo filmes, etc. Resulta no caso do Harry Potter – aliás muito bem!
    Daí haver jovens escritores que sabendo usar as tecnologias da informação escrevam sobre o que não conhecem ou viveram, e o fazem antes dos 24 anos... também há os que sabem compilar e aproveitar as vivências dos outros onde se vão inspirar, frequentemente em familiares ou próximos, canibalizando a vivência alheia. Mas para mim e ainda que bem escritas falta-lhes sempre algo, que é a "alma", a credibilidade, que vamos encontrar nos aqui referidos e tantos outros autores, dos tais de génio, que marcam ou fazem escola!

    Pode aceitar-se que estando 17 dias num país como a Coreia, se possa escrever algo de profundo sobre estar por dentro do sistema? Me perdoem mas nem acredito nem aceito, e só por convencimento... autores como Theroux passam meses e até anos para escrever, daí a sua credibilidade... lembro-me de um celebrado autor de viagens, nacional, dedicar um capítulo inteiro a Angola, que atravessou em 3 dias!

    Há com certeza o génio puro... mas não podemos contar com esse e é excepção, não a regra... acham que "O velho e o mar" podia ter sido escrito por quem não tivesse passado muitas horas na corrente do Golfo a pescar marlins? No lo creo...

    Pessoa... bem, Pessoa não era um qualquer! Era óbviamente um "iniciado" como acho que terá sido Rómulo de Carvalho, e daí a genialidade da escrita e sobretudo as mensagens subliminares ou a sabedoria escondida no que escreviam... o químico salta à vista, mas Pessoa é mais subtil! Como foram Shakespeare, Colleridge e Luiz Vaz de Camões - acham que um mero rufião, mulherengo e boémio, um simples soldado, teria na época e nos locais por onde andou, o acesso à informação e a cultura clássica profunda necessária e evidente para escrever "Os Lusíadas"? Hum… não me parece…

    Poderão dizer-me ainda que Verne, Salgari, Burroughs nunca viajaram para os sítios que descrevem... nunca fizeram nada daquilo...
    Não? Eram apenas alucinados? Ou o Verne ia ao Google? À Wikipédia?
    Burroughs dá uma importante pista no seu "Carson"... e dou um queijo da serra a quem lá chegar!
    Eu tenho a minha própria opinião sobre a forma como o fizeram... mas não digo para não me acharem mais maluco do que já devo parecer!

    Quanto à Rawllins, penso eu que uma imaginação fértil e diria que a leitura de autores como Tolkien e Lloyd Alexander – quem conhece este? – mais um apurado sentido da oportunidade, talvez pela necessidade, fizeram uma boa combinação!

    Saudações entusiastas, da Cidade Morena – aqui é uma hora mais tarde!

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  5. Se falarmos de literatura do fantástico, basta escrever em casa e soltar a imaginação, mas sobre temas reais, tem de se andar por aí e experienciar.
    Lembro-me dos livros de Jack London e das suas viagens.

    Se um jovem contar apenas com cursos de escrita e pesquisa na Net, a sua escrita será mais limitada nos temas e mais pré-formatada. Julgo que se consegue transmitir melhor algumas situações, vivendo-as e sentindo-as na pele.
    Como alguns actores ou actrizes que passam dias a conviver com pessoas que lhes possam desenvolver as personagens. Bastaria ler o argumento? Faltariam os tiques, as posturas, o olhar.

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  6. Penso que não é segredo que a Escrita (com letra capital) é feita de duas coisas: Leitura e Experiência. A segunda só se adquire no exterior, vivendo, e essa vida inclui o trabalho (nem que seja enquanto experiência antropológica) noutras coisas que não a escrita.

    Julgo já ter lido qualquer coisa sobre este tema recentemente, talvez alguém que se queixava do facto dos livros de hoje (ou os seus autores) serem por vezes falhos dessa «alma» que alguém aqui mencionou, sobretudo os que vivem de diversos tipos de «bolsas».

    Se bem que esta questão, como qualquer outra, é sempre um caleidoscópio: quem tiver de trabalhar 12 horas num restaurante, e estiver constantemente preocupado com a renda, ainda tem energia mental e física para atacar a folha em branco? E quem quer descrever geografias sem recorrer ao Google , tem dinheiro e tempo para se fazer ao terreno?

    Em geral, no entanto, concordo com a autora do texto.

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  7. E se - hipótese maluca - esta tese de que as obras literárias forem sobre o que os rodeia não tiver pés nem cabeça? Evidentemente, descrever na perfeição certas práticas só está ao alcance de quem as vivenciou. Mas quantos livros têm descrições perfeitas de práticas que poucos conhecem? O que é que há nos Lusíadas de extraordinário, além das competências propriamente poéticas? O que é que a vida de escritório do Pessoa contribuiu para a poesia do Alberto Caeiro ou do Ricardo Reis? Mesmo a relação com o Livro do Desassossego é muito pequena. O mundo que rodeia o escritor pode influenciar escolhas temáticas; não influencia muito mais. E um livro, um bom livro, é tudo menos os temas ou as histórias que conta. É técnica. E a técnica não se aprende com o mundo, não se aprende com uma profissão diferente, não se aprende acumulando experiências diversas; aprende-se estudando outros autores, outras técnicas, aprende-se por tentativa e erro, aprende-se no próprio ofício de escrever. O que há de extraordinário no Moby Dick é a prosa do Melville, que ele não aprendeu dentro de um baleeiro. O que ele aprendeu nos baleeiros e que evidentemente lhe serviu para o livro podia tê-lo aprendido a ler livros, a ouvir histórias sobre baleeiros, etc.. A técnica dele não depende desse conhecimento privilegiado.

    Mesmo o caso do Hemingway, que é o mais difícil de todos, merece reflexão. Isto porque a técnica dele consiste basicamente em demonstrar em acto o exercício de uma prática, seja ela pescar trutas, tourear, rebentar uma ponte, caçar kudus, etc.. Isso poderia fazer supor que, sem a experiência dessas coisas, dificilmente conseguiria descrevê-las. Concordo, mas não totalmente. Porque a técnica com que as descreve não depende dessas experiências. Depende de um treino, de um aperfeiçoamento, que foi desenvolvendo ao longo da sua carreira. Quando mostrou o conto "Big Two-Hearted River" à Gertrude Stein, ela queixou-se de que aquilo tinha muita reflexão. Isto fez com que ele reescrevesse todo o final, limpasse o texto de toda a reflexão e deixasse apenas a descrição do jovem Nick Adams a pescar trutas no rio. Neste caso, como em outros, apurou a técnica depois de perceber que estava a fazer certas coisas mal. É verdade que as descrições de práticas, em Hemingway, são tão detalhadas que dificilmente poderia ter desenvolvido a sua técnica se não soubesse exactamente como as realizar, se não tivesse a experiência delas. Mas também não teria sido o escritor que foi se não tivesse desenvolvido uma técnica narrativa que consistisse essencialmente em mostrar ao leitor os detalhes dessas práticas. E isso ele aprendeu escrevendo.

    Como disse, o caso do Hemingway é extremo, porque a sua técnica coincide com a descrição detalhada de uma prática. A maior parte dos escritores possui técnicas muito distintas, que não dependem de um conhecimento tão detalhado daquilo que descrevem. É essencialmente por essa razão que o mundo que os rodeia tem pouquíssimo peso naquilo que fazem. Achar o contrário é incorrer numa espécie de falácia expressiva, tal como a entendiam os new critics, isto é, é acreditar que aquilo que vem num texto corresponde directamente a uma parte da vida interior do escritor. Infelizmente, incorrer nesta falácia é uma coisa tão comum que às vezes se torna difícil denunciar o disparate em que consiste. Está tão enraízado na opinião pública, para dar um exemplo do conhecimento de todos, que os Maias retrata na perfeição a Lisboa do final do século XIX que as pessoas nem percebem o disparate que é achar que isso é verdade. Um livro não retrata nada; não é um documento no qual nos possamos fiar. Nem se pode dizer que Lisboa era assim, nem que o Eça achava que Lisboa era assim. Um livro não retrata fielmente uma coisa nem expressa a opinião do autor sobre essa coisa. Ou melhor, um bom livro não o faz. Um bom livro é só técnica. É por não se perceber isto que não se percebe nada de literatura hoje em dia e que se abriu espaço a tantos escritores medíocres.

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    1. não concordo nada com a parte final do seu texto, Francisco.

      um livro retrata sempre alguma coisa e "Os Maias" retratam a Lisboa do Eça.

      um bom livro é tudo, e não apenas técnica. consegue levar-nos de viagem a vários lugares, que quando os conhecemos, até os identificamos...

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    2. Acha mesmo que há uma "Lisboa do Eça"?

      Quanto aos livros que nos levam de viagem a certos sítios, não são literatura. São livros de viagens, documentários, etc.. Um bom livro, mesmo um romance hsitórico, é tudo menos o espaço e o tempo a que se reporta. Não perceber isto, repito, é não perceber bem o que é literatura...

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    3. Atrevo-me a discordar quase totalmente do que diz tão peremptóriamente o Extraordinário Francisco Lacerda!

      Note que em literatura sou nada, sou um mero leitor mas com muitos km rodados por todo o tipo de literatura, o que me faz sentir ou perceber quando se está a falar do que se conhece e viveu, ou a fantasiar!
      Tanto gosto de livros fantasiados, quanto daqueles vividos, de Soljenitsin a Tolkien, quando, repito, sejam bem escritos!
      Mas isso não é só técnica meu cato, é outra coisa, chama-se arte!
      Esqueceu-se desse detalhe, perdoe-me o atrevimento de traça face à sua evidente cátedra em literatura.

      Só mais uma nota discordante:
      Questiona "O que é que há nos Lusíadas de extraordinário, além das competências propriamente poéticas?".
      O que há de extraordinário em Camões, para mim que não grande leitor de poesia, é justamente o saber e a cultura clássica que Camões teria que possuir para escrever esta epopeia num paralelismo da história e da mitologia!
      Estarei enganado? Bem, a culpa foi do meu professor do 5º ano do curso geral do liceu... E volto a perguntar, se um rufião mulherengo e boémio, um soldado, daquela época e lugares teria essa cultura para escrever tal obra? Não me parece... Camões era e foi algo mais do que "Trinca-Fortes" ou velho soldado zarolho.

      Pode escrever-se sobre tudo, hoje como nunca, sem as vivências... havendo a tal técnica, mas será sempre uma ficção oca e vazia, sem a alma que distingue as grandes obras, o que a técnica de quem lê e me parece ser por si inteiramente desprezada, sabe perfeitamente distinguir...

      Saudações com alma, desde a Cidade Morena!

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    4. Hum... Viagens na Minha Terra, não é então literatura?

      Uma Lisboa "Eciana"? Como não?
      Penso que sim, que há... foi a da sua época, aquela que ele frequentou e usou nos seus romances... seria um retrato exacto ou fantasiado conforme ele a via e necessitava para o enredo?
      Se foi exacto, não existe! Mas se foi moldada por si, então é sua a tal Lisboa que ele usou e divulgou, creio até que marcou.

      Não terá havido igualmente um campo "Júlio Diniziano"? Ou tanta sociedade "Camiliana"?

      Ficam as perguntas, eu bem achei que isto ia dar pano para mangas!

      Saudações entusiásticas da Cidade Morena!!!!

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    5. Quando falo de técnica, estou a falar no sentido etimológico do termo. Estou, portanto, a falar de techné, e não vejo grandes problemas em chamar-lhe arte. Não estou apenas a falar de saber escrever correctamente, de ter estilo. Estou a falar de técnica literária, de saber construir um enredo, de saber apresentar uma personagem, de saber articular ideias, etc.. Um bom livro é só isso. A história, o contexto histórico, as ideologias eventualmente defendidas, tudo isto é completamente acessório. Um bom livro é bom pela técnica com que é escrito, não por falar deste ou daquele assunto, não por representar este ou aquele período da História, não por exprimir este ou aquele sentimento do autor. É bom se estiver bem escrito, é bom se tecnicamente for bom.

      Quanto ao Camões, a História e a Mitologia era coisa fácil de aprender. O que é difícil é contar aquele história, com aquela elegância e com todas as subtilezas em que nem se repara, em decassílabos acentuados na sexta sílaba. É a técnica com que o conseguiu que é impressionante.

      Depois disto, não sei o que é aquilo a que chama "alma".

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    6. As Viagens na minha Terra não é um livro de viagens.

      A "Lisboa do Eça" é só uma expressão para nos referirmos àquilo que o Eça descreveu nos Maias e cuja relação com Lisboa é absolutamente irrelevante e indeterminável. Se é do Eça, não é Lisboa.

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    7. Francisco: Gertrude Stein não se teria queixado a Saramago de que o seu Evangelho precisava de ser refeito? Ou passado um lápis azul a muitas das obras de Sartre? «Quando mostrou o conto Big Two-Hearted River " à Gertrude Stein , ela queixou-se de que aquilo tinha muita reflexão». Pois eu gosto muito de reflexão: falta muito disso no mundo. E "reflectir pela acção" nem sempre é a mesma coisa. O audiovisual fá-lo hoje, transcrevendo-o bem melhor. Não será essa a essência da boa escrita? A escrita com conteúdo, que acorde, que compare com as nossas experiências, do falso movimento, mesmo que desprovida de tanto descritivo?

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    8. Ficção oca e vazia...! Pois é: ficção que rima com repetição, por faltar ainda uma vida por se desenrolar! Sem dúvida, catedrático leitor, escritor e grande explorador António Luiz Pacheco!
      ...
      Ainda hoje diziam os meus "velhos" alunos: mas que país é este em que se é velho aos quarenta? Devia ter-lhes respondido: um país de ficção oca e vazia! Lembro-me sempre, nestas ocasiões, de quem promove os secret story que me causam náuseas.

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    9. O que a primeira versão do conto tinha era o Hemingway a pensar na sua actividade de escritor. A Stein recomendou que tirasse essas reflexões, de maneira a que o conto fosse apenas a descrição de um rapaz a pescar, sem considerações meta-textuais. O Hemingway concordou com a crítica e fez isso. Escusado será dizer que ficou muito melhor. E isto apesar de as considerações do Hemingway serem extraordinárias. A reflexão não é boa nem má por si. Tecnicamente, era um erro incluir aquelas reflexões, e tecnicamente o conto ficou muito melhor sem elas.

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  8. Claudia da Silva Tomazi20 de novembro de 2014 às 04:38

    Canto V,18 de Camões senhor Francisco Lacerda.

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    1. A Claudia quer concretizar? A oitava a que se refere não contradiz nada do que digo, mas preciso de perceber o que é que vê nela para lho poder explicar.

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    2. (Canto V, estrofe 18)

      Vi, claramente visto, o lume vivo
      Que a marítima gente tem por santo
      Em tempo de tormenta e vento esquivo,
      De tempestade escura e triste pranto.
      Não menos foi a todos excessivo
      Milagre, e coisa certo de alto espanto,
      Ver as nuvens do mar com largo cano
      Sorver as altas águas do Oceano.

      Camões alude ao Fogo de S. Telmo, e a uma tromba de água, mas para mim o que sobressai é dizer justamente que viu as coisas e o espanto sentido... não esqueçamos que foi um homem do renascimento! Quando as coisas começaram a ter explicações para lá da intervenção divina, o tal "saber da experiência feito", creio que é o que a Cláudia nos quer transmitir afinal, estarei errado?

      Esse saber da experiência feito está presente em grandes obras e ausente nas vulgares... tipo Anjo Branco, onde a técnica não esconde a tentativa desconseguida de o autor se meter na pele do soldado comando... coisa que Lartégui conseguia, por exemplo...

      Saudações camoneanas e experimentalistas da Cidade Morena!

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    3. Quem fala, nessa oitava, não é Camões, mas Vasco da Gama, que continua a falar com o rei de Melinde. Portanto, nem a visão nem o espanto são de Camões. Basta isto para fazer ruir o argumento do saber de experiências feito.

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    4. Claudia da Silva Tomazi20 de novembro de 2014 às 10:51

      Creio que vossa intenção é de provocar ou contestar o efeito do que seja arte e a experiência desta, sem sombra de dúvida Camões e o maior, simplesmente o maior na escala mundial em percurso literário, e ninguém vai abalar minha posição com relação a história.

      Vos quereis (fazer-se entender) que a voz é de Vasco da Gama quando a escrita é de Camões ou, será que a inteligência, capacidade e conhecimento de Camões não atestam a veracidade de Vasco da Gama enquanto voz?

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    5. Claudia, não consigo perceber qual é o seu argumento. Assim sendo, não posso explicar o que me parece que não entende.

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    6. Ah, não meu caro!

      Quem fala é Camões... pela boca do Gama, sim, mas põe-lhe no discurso aquilo a que ele Camões assistiu... como Heminguay põe na boca do viejo aquilo que também ele viu ou sentiu...

      O autor exprime-se através do personagem!

      Ou não é assim? É uma técnica, portanto - e aí tenho de concordar consigo.

      Alma... já leu Torga, certamente. Nem falo da poesia falo mesmo de Bichos ou dos Contos da Montanha. Já leu José Cipriano Catarino e o seu "Entre Cós e Alpedriz" ? Pois é o que eles têm, essa magia transmitida pela escrita, que é a alma, a alma das pessoas ou animais e seres, lugares, coisas, que eles reflectem no que escrevem porque sentiam essas coisas na alma.
      Júlio Diniz na Morgadinha, está com toda a alma, a sua de escritor, de observador, de romântico e a alma do povo e das gentes sobre quem ele escreveu e que usa para contar ou reflectir ou exprimir o que pretende.
      Um livro onde não haja alma, seja a do escritor ou dos personagens (que ele recria), pode ter toda a técnica aprendida numa aula de estilística prática, mas nunca será uma Obra.

      Isto digo eu, traça dos livros que me farto de roer neles.

      Saudações com alma, cá da Cidade Morena onde sinto a cada passo a alma do Pepetela.

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    7. Mas por que é que presume que o Camões assistiu às coisas que narra? É sabido que o Camões foi buscar aos historiadores, aos cronistas e às narrações de viagens da época quase todos os acontecimentos históricos e marítimos nos Lusíadas. Este é mais um caso desses. O Camões não assistiu a nada daquilo. Leu sobre isso.

      Quanto ao Hemingway, também está incorrecto o que diz. Se quer saber, a ideia para o Velho e o Mar nasce de várias coisas. Em primeiro lugar, como o Hemingway o refere numa carta, nasce para derrotar o Melville. Segundo o Hemingway, o Moby Dick pecava pela prosa excessivamente ornamentada, o que retirava brilho ao feito hercúleo de pescar aquela baleia. O Velho e o Mar, num certo sentido, é só uma forma de derrotar tecnicamente o Melville, de mostrar como é que o Moby Dick realmente deveria ter sido escrito. É, deste ponto de vista, só técnica. Aliás, há um episódio no Moby Dick em que, precisamente, uma baleia é caçada e, durante a noite, por não ter sido erguido para bordo, é comida pelos tubarões, exactamente o enredo de o Velho e o Mar. A ideia para o livro do Hemingway, porém, nasce de uma história que contaram ao Hemingway de um velho a quem aconteceu, justamente, pescar um peixe que depois os tubarões levaram, terminando com o velho em pranto. Repare que o Santiago de o Velho e o Mar é tudo menos o choramingão da história original, e que portanto a personagem da história tem pouco a ver com o homem a quem aconteceu aquilo realmente. Por fim, sim, há algo da experiência de pescar espadartes pelo próprio Hemingway no livro, essencialmente na descrição pormenorizada dos momentos especificamente ligados à prática da pesca. Mas também aqui é técnica literária. O Hemingway precisava de saber exactamente como se pescava, mas a descrição disso depende essencialmente de uma técnica literária que foi desenvolvendo. Como vê, quase nada no Velho e o Mar vem daquilo que o Hemingway viveu.

      Quanto àquilo que diz sobre almas, devo dizer que quem vê almas por tudo o que é sítio, como é o seu caso, é um místico. E eu tenho pouca paciência para místicos. Sobretudo para místicos do século XXI. Tenho pouca paciência porque geralmente tendem para rebater um argumento lógico com misticismo. E, claro, o misticismo não dá para rebater. Eu não sei outro modo de lhe dizer que não tem razão que não seja dizer que ver almas ou é coisa de quem está em jejum, que era como as via a Blimunda, ou coisa de quem está a alucinar. A esse respeito, a única coisa que posso fazer é recomendar que coma, pois comer acaba com o jejum, e que beba, que muitas vezes a causa das alucinações é a desidratação.

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    8. Caro Francisco Lacerda, o facto de pensar diferente de si, não me torna insensato e nem tolo.
      Nem tenho a prosápia de ser culto e nem literato, repito.

      Mas posso garantir-lhe que a sua opinião, não é nem a única e nem a última, desengane-se portanto se imagina que aquilo que diz tenha palavra de lei... não tem! É apenas o que pensa ou sente, mais nada.

      Ao que diz, que é inteligente mas rebatível aliás, porque o faz de uma maneira que só mostra soberba e desrespeito, não lhe vou responder! Perdeu para mim todo o interesse, fique-se na sua supra-sapiência e arrecade lá o troféu, pela minha parte encerro uma conversa que seria muitíssimo interessante se decorresse num outro tom que não este que lhe está a imprimir.

      Poderia eu mesmo explicar-lhe muita coisa sobre o sentir que Hemingway transmite a pessoas que como ele as tenham vivido, o que para os cerebrais como você, que desprezam os sensitivos e tudo reduzem a "técnica", ou ainda sobre o que Camões terá vivido na sua longa viagem para a Índia numa nau (consegue imaginar? estou certo que não!), e dessa forma alargaria o seu saber ao que manifestamente não lhe interessa, por isso, fique-se na sua cátedra que eu fico-me na minha ignorância.

      Sabe, a minha formação de base são as ciências agrárias, depois complementadas com outras na gestão. Não sou porém académico e nem nunca o fui, dirigi projectos ou empresas para Grupos Económicos nacionais e multinacionais, tenho corrido um Mundo diferente do seu que se adivinha, e trabalho como consultor, ou seja ganho 137.000 USD anuais para dizer às pessoas o que hão-de fazer e como... como pode imaginar não serei própriamente um pateta, nem místico e muito menos asceta. Já vi e vivi o bastante para saber exactamente o que digo, e quanto a comer e a beber fique igualmente descansado, e respondo à sua ironia deselegante dizendo-lhe que a si falta alma porque a trocou por cérebro.

      Há que ter ambos... acredite em mim!

      Fique bem, como se diz por aqui, na Cidade Morena.

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    9. Caro António, a distinção entre as nossas duas pessoas que está a querer fazer não é entre sensitivos e cerebrais; é entre quem acha que raciocinar é um desperdício de tempo e quem acha que não.

      Continua a presumir coisas a mais, como por exemplo que eu, por falar em técnica e por ser cerebral, não sou capaz de sentir nem de imaginar. O que é um contra-senso seu, porque depois diz que não é pateta. Se é possível conciliar a sensibilidade com a inteligência, como quer que eu o faça a seu respeito, por que é que presume que eu só sou cerebral?

      Presume também que pessoas que têm muita experiência de vida e a quem pagam um bom salário para dar opiniões, como assume que seja o seu caso, sabem exactamente o que dizem, a respeito seja do que for. Basta ligar a televisão para perceber que isso não é assim que funciona. Um treinador de futebol pode saber muito de futebol e não saber nada de português. Já desde Aristóteles que a ideia de que a experiência de vida dá sabedoria é uma ideia idiota. A virtude que se desenvolve com a experiência de vida não é a sabedoria (sophia), nem a perícia relativa a qualquer ofício (techné), mas aquilo a que Cícero chamou prudência (phronesis), isto é, um saber como agir. Não presuma, portanto, que por ser velho e ter corrido mundo é mais sábio do que quem não o fez. Pode ter um saber de tipo prático mais desenvolvido; não tem necessariamente um saber de tipo teórico.

      De resto, gosto sempre de pessoas que terminam discussões com o argumento: "É a sua opinião!". Ou que se escusam de argumentar com a desculpa de que o tom não lhes agrada. Ou que garantem que tinham maneira de responder, mas que não o fazem por alegadamente se sentirem ofendidos. E gosto sobretudo que essas mesmas pessoas passem a vida a dizer que são ignorantes, que não percebem nada de nada, que são apenas traças, que são muito humildezinhas e só querem aprender uma coisita ou outra, mas que se abespinhem assim que se lhes mostra que estão erradas acerca de uma ou outra coisa. Se não é sonsice, parece.

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    10. Caro Francisco Lacerda:

      Venho aqui vai para uns dois ou três anos... e nem por isso me recordo de atitudes semelhantes à sua, o que me teria afastado deste blog!
      Lamento verdadeiramente que assim se comporte.

      O seu tom não me agrada!
      Repito... estou no meu direito, e não discuto com quem tem por objectivo minimizar ou apoucar os outros e óbviamente os despreza.
      Apenas e só! Ainda que tente branquear a sua postura chamando-me hipócrita, sonso, etc.
      Não resulta!

      Chamei-lhe a atenção as coisas que entendi, sobre mim mesmo e foi inútil, pois você só se ouve a si mesmo, provavelmente vive diante de um espelho e escreve para se ouvir, desprezando tudo o que não seja a sua idéia e a si mesmo.
      É típico de uma certa intelectualidade, que não faz e nem deixa fazer... só avalia e comenta.

      Portanto uma discussão consigo seria vã e não esclarecedora pois pela minha parte estou sempre pronto a mudar de opinião se os argumentos apresentados me levarem a tal... e há-de compreender que em termos profissionais mau seria se assim não fosse, porque para se ser comentador e teorizar é só exprimir opiniões, para se ser consultor e dirigir projectos, não! Tenho de teorizar, sim mas percebendo o que vejo, interpretar e depois de analisado e gizado o plano há que o implementar, aplicando e obtendo resultados ou não me pagam... percebe? É que o milho e o feijão, o gado, não mentem!

      Para si ou se pensa como você entende ou não tem valor e nem interessa, o seu objectivo é impor a sua razão!
      O meu, de traça literária é aprender, e consigo aprendi que não vale a pena conversar, pois em discordando sou apoucado, desprezado e até troçado, por si que se mantém barricado nas suas teorias e ideias pré-formatadas... e olhe que não temo confrontos de mente, uma vez mais digo que na minha actividade tal seria impossível.

      Deixo-lhe a pregunta: se domina tão bem estes assuntos, porque não usa a técnica para escrever um best seller?

      Fico à espera, pode até ser que vença o Prémio Leya.

      Lamento, mas repito que não estou interessado em falar consigo e peço desculpa por esta longa diatribe, mas pouparei os Extraordinários à sua continuação, dado que não faço tenções de lhe responder e nem manter consigo mais conversa.

      Saudações cordiais e profissionalmente realizadas cá da Cidade Morena.

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  9. A criação literária em "part-time" e não como profissão a tempo inteiro foi regra até ao século XIX e ainda o será para maioria dos escritores atuais.
    Produziu obras primas !
    Hoje é com enorme admiração que olhos aqueles benfeitores da Humanidade que se atiram de corpo e alma para a criação literária como atividade exclusiva.

    O escrever a tempo inteiro tem em si um risco imenso e acarreta sempre aquele sacrifício tão magnificamente definido por Enrique Vila-Matas:

    "Yo no sabía que para ser escritor había que escribir como mínimo muy bien. Pero es que, por no saber, ni sabía que era preciso renunciar a una notable porción de vida si se quería realmente escribir Por no saber, ni sabía que escribir, en la mayoría de los casos, significa entrar a formar parte de una familia de topos que viven en unas galerías interiores trabajando día y noche. Por no saber, ni sabía que iba a acabar siendo escritor y me esperaban aventuras, pero más del lado de la literatura que de la vida."

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    1. Muito bem Artur Águas. Renúncia é a palavra certa: renúncia a uma parte da vida. Por isso percebo ALA. Por isso percebo a sua lição magistral. Por isso percebo o seu grito de denúncia. Afinal mereceu-a. E só a merece quem passou pela renúncia. Há uma parte de nós que renuncia aos cómodos da vida, construindo mundos ilusórios com base na nossa experiência de vida. E é por isso que é preciso cuidado com os exemplos que se transmitem aos mais jovens. Aos mais velhos exige-se-lhes que não façam das esperanças dos mais novos apenas promessas incumpridas. Disso está o nosso espaço infelizmente cheio. Ser escritor é viver a vida, mas sentindo-a como se fosse um monge, que tanto vive a vida, como a olha de cima por uma pequena escotilha com efeito de lente depois de muitas milhas a percorrer caminho. Escrever é saber esperar a sua vez de não ficar calado.

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    2. Excelente texto, como sempre, do Pedro A. Sande. Obrigado !

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  10. Não penso que um escritor tenha de vivenciar tudo aquilo que escreve. Um escritor é, acima de tudo, um bom observador. E, muito importante: uma pessoa que consegue pôr-se na pele de uma outra. Uma capacidade que realmente nem todos têm.

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    1. Ah... isso sim, concordo!

      Não tem que vivenciar TUDO, mas tem que ter uma boa e aproximada ideias... seria de outro modo impossível escrever sobre o passado longínquo...

      A questão de ser observador, aí está algo que me parece ser fundamental, sem dúvida!
      Bom observador, porque a técnica da descrição essa sempre se aprende e melhora, como foi referido!

      Não esqueçamos que escrever é uma arte!!!!

      Saudações artísticas, ou artolas, da Cidade Morena!
      Grande tema este!!!!

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    2. E no entanto, caro António Luiz, eu acho que pode haver muito encanto na escrita de um jovem sem grande experiência de vida. Quanto mais não seja, é uma visão fresca, ainda sem vícios, digamos, sobre certos temas e/ou acontecimentos. Podemos aprender muito com isso, se tivermos a humildade de o fazer (e aqui, a meu ver, se usa o verdadeiro significado de humildade).

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    3. Sem dúvida e uma vez mais de acordo, Extraordinária Cristina... será que o Diário de Anne Frank pode entrar nessa categoria?

      Não desprezo e nem desprezarei o sentir expresso por um jovem, num texto... com todo esse ou outros encantos que refere. Mas, duvido -e é disso que penso se fala aqui - da obra-prima ou da obra da vida do escritor, escrita logo nos seus verdes anos... Há casos de grandes escritores de uma só obra, até porque começaram tarde na vida!

      Saudações encaloradas cá da Cidade Morena!

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  11. Literatura é representação estética do real e não reprodução. O que prevalece é a ideia que o escritor concebe do mundo ou de alguma coisa. O conhecimento do mundo ou de alguma coisa não carece de vivências pessoais para ser representado literariamente. A técnica é o molde da representação. Mas literatura não é só técnica, assim como um espelho não é só o formato do vidro, também é o que se reflete nele.

    Para terminar, reproduzo o título do último livro do escritor Mário de Carvalho: «Quem disser o contrário é porque tem razão».

    António Breda Carvalho

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  12. Às vezes é preciso sorte (ou perspicácia e calculismo nalguns casos-estou a pensar num-), tal como o Zé Cabra foi disco de platina, o Jorge Palma não sei quantos discos de ouro, o Postiga não sei quantas vezes internacional, o 575 best seller, já houve alguns(as) marretas que ganharam prémios literários e não basta ter vivido as coisas senão eu era um grande escritor (claro que ajuda) - agora vos garanto se não houver imaginação e talento (puro) brilha-se uma vez mas inevitavelmente ficar-se-à pelo caminho
    E este talento não se aprende NASCE.

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    1. Nasce, nasce. E com dentes, também se nasce? A quantidade de disparates que se diz acerca de talento...

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  13. Tantas regras! Tantas afirmações categóricas! Incomoda-me sempre muito este discurso de que um verdadeiro autor (seja lá o que isso for) tem de ser isto e aquilo e não ser uma quantidade enorme de coisas. Pensem nos vossos autores favoritos e vão encontrar de tudo. Livros magistrais que reproduzem a experiência do autor. Livros magistrais que nada têm a ver com o autor. Há livros que precisam da visão de uma pessoa madura e há outros que precisam de uma certa irreverência juvenil (embora haja jovens nada irreverentes). Enfim, para quê querer ditar leis num mundo em que as leis não contam?

    A Maria do Rosário não se referiu à entrevista do Lobo Antunes ao DN e percebo que não o faça, porque contrariamente a ele percebe o que são regras de cortesia, apesar do autor (e já não é a primeira vez) enlamear o seu grupo editorial. Mas quer-me a mim parecer que há uma cultura de permissividade com a arrogância que me incomoda muito. Isso e dizer-se mal daquilo que não se leu. Enfim, há quem não lide muito bem com as frustrações.

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    1. Não concordo nada, João Oliveira. A ironia é uma coisa que pode ser rude, mas não é necessariamente desprovida de afecto. Tenhamos sempre mais receio dos bajuladores do que daqueles que interpelam .

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    2. A sua segunda parte. Não a primeira. E só é Lobo quem lhe veste a pele. Não é o caso do ALA.

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    3. Pedro, completamente de acordo quanto aos bajuladores, que são sem dúvida uma categoria particularmente perigosa. Mas há um meio termo e acho que um autor deve ter respeito pela editora que trabalha para facilitar o seu sucesso. Não quer isto dizer que tenha de ter uma posição acrítica, mas a mim sempre me ensinaram que a roupa suja se lava em casa. Já em 2008 o Lobo Antunes, em entrevista ao Carlos Vaz Marques, tecia considerações pouco abonatórias sobre a Dom Quixote. Não está contente e não gosta do comportamento do grupo, tem todo o direito a isso. Mas então que mude de editora! Agora, estar a minar quem o promove, acho lamentável. Ainda por cima gratuitamente e a propósito de um livro que ele nem sequer leu.

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    4. Nem de propósito... Estou, neste preciso momento, a ver um filme cuja primeira cena se passa numa livraria de Paris, durante a apresentação de um livro. O autor reflecte sobre o contributo da sua experiência pessoal para o livro que acaba de escrever. Vamos lá ver o que é que isto vai dar.
      E, já que falamos de filmes - e depois de ler as palavras justas do João Oliveira -, veio-me isto à cabeça:
      "Keep ripping gentlemen. This is a battle, a war. The casualties could be your hearts and souls." (acho que era mais ou menos assim...)

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    5. Excelente referência João. Que diz tudo. Obviamente que todos temos opiniões sobre o que é bom ou mau mas há extrapolações e regras que não fazem sentido. A literatura é uma arte profundamente subjectiva o que me faz ficar sempre perplexo perante afirmações genéricas. Importante é pensarmos pela nossa cabeça sobre aquilo que lemos.

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    6. não concordo consigo, João.

      o contrato do A Lobo Antunes é para escrever livros e não para dizer amém à Leya.

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    7. Luís, como pode verificar no meu comentário refiro explicitamente que não considero que se tenha de ter uma posição acrítica. Defendo sim que as críticas sejam feitas entre portas e que não o sejam gratuitamente. Se leu a entrevista ao DN o Lobo Antunes diz que a Leya não tem editores, que tem "pessoas que publicam livros". Ora, para quê confiar o seu trabalho a este grupo então?! E discordo totalmente quando diz que o contrato é para escrever livros. Um contrato deste tipo pressupõe princípios de cooperação e confiança mútua ou então não faz sentido trabalhar em conjunto. Parece que só há 2 atitudes: ser bajulador ou dizer mal. Não há. Há a atitude decente que é respeitar o trabalho dos outros e fazer críticas construtivas em sede própria. Mas do Lobo Antunes não se podem esperar atitudes decentes...

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    8. João, eu percebo o seu ponto de vista.


      mas para além da sua vaidade (acha-se mesmo o maior escritor português), o António Lobo Antunes pode ter razões de queixa dos seus editores da Leya e até poderá estar a "esticar a corda", para mudar de ares...

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    9. Estamos sempre a arranjar desculpas Luís, a justificar actos incorrectos para os tornar mais aceitáveis. O que o Luís diz pode ser verdade, mas os actos não deixam de ser o que são. Se anda a esticar a corda já o anda a fazer desde 2008... Ou ninguém o quer ou então é só masoquista.

      Acho sempre bizarro estas pessoas que têm convicções fortes e acções frouxas. Já dizem os americanos put your money where your mouth is ", o que me parece ser um excelente princípio. Agora, estar num grupo a fazer-se de enjoado? Não há paciência!

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  14. Digam-me lá se isto, que traduz experiências vividas e postas neste caso no bico de um perdigão, é ou não é literatura?

    O Último Perdigão

    Agora vivo aqui sozinho. Tenho a amplidão máxima do horizonte longínquo.
    Durmo amiúde neste sítio, principalmente nas noites que venta, quando o Outono vai dentro e o Inverno começa a uivar. É um hábito que adquiri há muito. Sinto-me seguro.
    Estes penedos dão-me uma certa tranquilidade. São enormes, megalíticos, majestosos, que me defendem das intempéries, dos perigos e dos que me perseguem. Já não sou novo, e as recordações vêm–me muitas vezes ao pensamento…
    Ainda este verão, de repente, sem contar,apareceram-me aqui 20 ou 30 amigos, eram estranhos, pálidos, tive a sensação que não sabiam onde estavam nem o que queriam, mas foram ficando por aqui. Aceitei-os com toda amizade. Fui-lhes ensinando a pouco e pouco onde podiam ir á água, onde podiam ir comer, os passeios que podiam dar sem perigo. Os voos e as revoadas dum cabeço para o outro, os matos, e as estevas onde se poderiam esconder, como conhecer os coelhos, as abelhas, o que era uma erva, uma flor, como se poderiam espolinhar na terra quente …

    Mas,de repente,em Agosto já para o fim foi o inferno. Tudo começou a arder. Foram 4 dias sem parar. Eu voei, voei bem alto e gritei. Tornei a voar e a gritar, a gritar…
    Acho que quase ninguém escapou, talvez um ou outro que tenha atravessado o Douro ou o Tâmega.
    Aqui não há ninguém, só eu.
    Por isso é que me quero lembrar do que me aconteceu hoje…

    Deviam ser 4:30 ou 5 da tarde. Estava bastante frio, procurava um sítio para dormir.
    Do alto daquela pedra dei um voo curto para o lado de lá do vento. Comecei a alisar as penas,depeniquei no chão, afiei o bico na velha pedra branca do costume, essa pedra antiga que me dá sempre a minha orientação e ainda cheguei a pôr a cabeça entre a asa. Quase adormeci.
    Nesse momento, senti um arfar e o pisar de mato queimado. Olhei em redor. Estática, inerte, ao pé de mim, de veias dilatadas ofegante …. "Lira".

    Trezentas mil recordações vieram-me á memória… Quando eu era pequenino e me apanharam lá para os lados de Tuías e me soltaram depois…Aquela vez que fiquei preso no alçapão, a outra vez no Cerro, ainda tenho as cicatrizes do chumbo 6 na ponta da asa. Ainda me lembro…O Tedo andou pelo menos 2 horas atrás de mim. Eu ferido de asa, e só lhe escapei porque me meti num tronco de pinheiro queimado. Lembro-me uma vez que os quis ver a todos. Disfarcei-me quase de pomba, voei, voei bem alto, com as asas a baterem, a baterem quase como um frango, mas lá consegui disfarçado subir aos lagares do Outeiro. O raio da cadela quase que deu por mim. Mas lá estavam todos. Ela de nariz para o ar como se fosse uma grande senhora. Lembro-me hoje dela tão bem. Ainda era pequenina. Acho que é a mesma de hoje… E tu, velho gordo. Acho que ainda me deste uma comida chamada ração. Estavam lá todos, sentados por baixo da japoneira…

    Velho perdigão, «o Último de Montedeiras» …
    Lá longe, levantaste.
    E eu atirei-te com chumbo 6, e 5.
    Mas graças a Deus tu continuaste, impávido e sereno.
    Vê se nos vens visitar.

    Tuías, 13/11/2005
    José Maria Souza Guedes (In. Cortando Traços ao Tempo)

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